domingo, 10 de dezembro de 2006

Estadio Chile

Em 12 de setembro de 1973, no dia seguinte ao golpe militar, o músico Victor Jara foi preso na Universidade onde trabalhava e levado diretamente para o Estádio Nacional do Chile, onde foi torturado, ultrajado, teve as mãos amputadas e foi finalmente fuzilado quatro dias depois.

Durante os poucos dias em que esteve confinado no Estádio, escreveu o poema que foi levado por companheiros soltos para sua esposa Joan Jara:

Somos cinco mil
en esta pequeña parte de la ciudad
Somos cinco mil
¿Cuántos seremos en total
en las ciudades y en todo el país?
Sólo aquí, diez mil manos que siembran
y hacen andar las fábricas.

¡Cuánta humanidad
con hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura!

Seis de los nuestros se perdieron
en el espacio de las estrellas.

Un muerto, un golpeado como jamás creí
se podría golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitarse todos los temores
uno saltando al vacío,
otro golpeándose la cabeza contra el muro,
pero todos con la mirada fija de la muerte.
¡Qué espanto causa el rostro del fascismo!
Llevan a cabo sus planes con precisión artera
sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas.
La matanza es acto de heroísmo.
¿Es éste el mundo que creaste, Dios mío?
¿Para esto tus siete días de asombro y de trabajo?
En estas cuatro murallas sólo existe un número
que no progresa,
que lentamente querrá más la muerte.

Pero de pronto me golpea la conciencia
y veo esta marea sin latido,
pero con el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona
lleno de dulzura.

¿Y México, Cuba y el mundo?
¡Que griten esta ignominia!
Somos diez mil manos menos
que no producen.
¿Cuántos somos en toda la Patria?
La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas.
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

¡Canto que mal me sales
cuando tengo que cantar espanto!
Espanto como el que vivo
como el que muero, espanto.
De verme entre tanto y tantos
momento del infinito
en que el silencio y el grito
son las metas de este canto.
Lo que veo nunca vi,
lo que he sentido y lo que siento
hará brotar el momento...

Um facínora que se vai

O ditador golpista Augusto Pinochet morreu com o privilégio de não ter nenhum ajuste de contas com a justiça chilena. Com a morte do sanguinário ditador, se foi um dos piores facínoras latino-americanos ainda remanescentes. Ele se foi, contudo, sem pagar um segundo da sua vida com uma condenação merecida, devida, porém nunca recebida.

Mas se não foi julgado e condenado, pelo menos a morte do ditador não significa o esquecimento ou o indulto eterno pela barbárie praticada. Perdoar ou indultar o facínora [e todos repressores da sua laia que agiram nos países do nosso continente] é tão criminoso quanto o crime bárbaro que foi cometido por ele [e os da sua laia] contra seu próprio povo.

A presidenta chilena Michele Bachelet, cujo pai foi morto pela repressão de Pinochet, não concederá ao ditador honras de Estado na cerimônia de sepultamento. A declaração do governo brasileiro, de outra parte, é elogiável por relembrar o pesadelo histórico do período da ditadura chilena, e também por não reconhecer Pinochet como alguém que mereça manifestação solene de parte do Estado brasileiro.

Com o avanço das esquerdas no continente latino-americano, cresce a consciência histórica de que é fundamental o julgamento dos crimes da repressão do passado para um futuro de reconciliação. Oxalá seja o destino desejado por Salvador Allende em seu último pronunciamento feito na Rádio Magallanes instantes antes de sua morte no 11 de setembro de 1973:

Trabajadores de mi patria: Tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición, pretende imponerse. Sigan ustedes, sabiendo, que mucho más temprano que tarde, de nuevo, abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

sábado, 9 de dezembro de 2006

Michael Moore envia carta ao povo e ao Congresso dos Estados Unidos

Michael Moore, conhecido cineasta estadunidense autor de Tiros em Columbine e Fahrenheit 9/11 dentre outras importantes produções cinematográficas, publicou no seu saite [www.michaelmoore.com] uma carta enviada ao Congresso e ao povo dos Estados Unidos exigindo a retirada das tropas estadunidenses de ocupação do Iraque, bem como o pagamento de indenizações ao Iraque.

Michael Moore é uma das vozes mais críticas ao governo de George W. Bush Júnior [ou Mister Danger, como se refere a ele o Presidente Hugo Chávez] e com sua atuação desempenha um papel importante na formação de uma consciência alternativa no reino da alienação. Adiante, a carta:


Amigos,

Hoje (27/11) marca o dia em que permanecemos no Iraque mais tempo que aquele que levamos para combater na Segunda Guerra Mundial.

É isso mesmo. Nós fomos competentes para derrotar a Alemanha Nazista, Mussolini e o Império Japonês inteiro em menos tempo que a única superpotência mundial gastou para tentar tornar segura a estrada que liga o aeroporto de Bagdá ao centro da cidade.

E nós não conseguimos fazer isso. Após 1.437 dias, no mesmo tempo que levamos para irromper pela África do Norte, conquistar as praias da Itália, conquistar o Pacífico Sul e libertar toda a Europa Ocidental, nós não pudemos, após 3 anos e meio, conquistar sequer uma simples estrada e proteger a nós mesmos de bombas caseiras, feita de latinhas, colocadas em buracos nas rodovias. Sem contar que uma viagem de táxi do aeroporto até Bagdá, de 25 minutos, custa 35 mil dólares e o motorista não te dá sequer um mísero capacete para sua proteção.

A culpa desse fracasso se deve a nossas tropas? Dificilmente. Não importa o quanto de tropas, de helicópteros ou de democracias nos cuspamos das nossas armas, nada irá "vencer, a guerra no Iraque". Ela é uma guerra perdida. Perdida porque jamais teve o direito de ser vencida, perdida porque começou por homens que jamais estiveram em uma guerra, homens que se escondem atrás daqueles que foram enviados para lutar e morrer..

Vamos ouvir o que o povo iraquiano está dizendo, de acordo com uma pesquisa recente feita pela Universidade de Martland:

- 71% de todos os iraquianos querem os EUA fora do Iraque.

- 61% de todos os iraquianos apóiam os ataques da resistência contra as tropas americanas.

Sim, a vasta maioria dos cidadãos iraquianos acham que nossos soldados devem ser mortos e massacrados! Então, o que diabos nós ainda estamos fazendo lá? Vamos interpretar como se não tivessemos compreeendido a deixa? Existem diversos modos de libertar um país. Freqüentemente os cidadãos se rebelam e se libertam a si próprios. Foi assim que nós fizemos.

E você também pode fazer isso de modo não violento, usando a desobediência civil. Foi assim que a Índia fez.

Você pode também fazer com que o mundo inteiro boicote o regime de um país até que ele caia no ostracismo e capitule.

Foi isso que aconteceu com a África do Sul.

Ou, você pode simplesmente esperar que eles cansem e caiam fora, cedo ou tarde, como as legiões do rei fizeram (Algumas só porque estavam com muito frio). Isso aconteceu no vizinho Canadá.

O único modo que não funciona é invadir um país e dizer a seu povo "Estamos aqui para libertar vocês", enquanto eles não faziam nada para libertar-se.

Onde estavam todos esses homens suicidas enquanto Saddam Hussein oprimia o povo? Onde estavam os "insurgentes" que plantam bombas nas estradas quando o comboio do maligno Saddam Hussein passeava por elas? E acho que o velho Saddam era um déspota cruel - mas não tão cruel a ponto de milhares arriscarem seus pescoços contra ele.

"Ah não Mike, eles não podiam fazer isso! Saddam os mataria!" Sério? você acha que o rei George não mataria quem se insurgisse contra ele? Você acha que Patrick Henry e Tom Paine tinham medo? Isso não os impediu de lutar.

Quando dezenas de milhares de pessoas não têm a inclinação de sair às ruas e derramar seu sangue para remover um ditador, isso deve servir como uma boa pista de que eles não estão desejando participar de alguma libertação promovida de fora.

Uma nação pode ajudar outro povo a remover um tirano (Foi o que os franceses fizeram por nós em nossa revolução), mas depois disso, você cai fora. Imediatamente! Os franceses não ficaram e nos disseram como deveriamos constituir nosso governo.

Eles não disseram "não estamos indo embora porque nós queremos os seus recursos naturais".

Eles nos deixaram à nossa própria sorte e nós levamos seis anos para fazer uma eleição depois da partida deles.

E daí tivemos uma sangrenta guerra civil. Isso foi o que aconteceu e a História está cheia desses exemplos. Os franceses não disseram: "Oh, é melhor ficar na América, de outro modo eles vão se matar uns aos outros discutindo essa história de escravagismo".

O único caminho que leva uma guerra de libertação ao sucesso é ter por trás dela o apoio de seus próprios cidadãos - e um numeroso grupo de Washingtons, Jeffersons, Franklins, Gandhis e Mandelas liderando a insurreição. Onde estão esses faróis da liberdade no Iraque? Essa é uma piada e tem sido uma piada desde o início. Sim, nós eramos a piada, mas com 655.000 iraquianos mortos como resultado da nossa invasão - segundo a Universidade John Hopkins - eu acho que a piada de mau gosto agora é deles. Pelo menos eles foram libertados, permanentemente.

Por isso não quero ouvir nenhuma outra palavra sobre enviar ainda mais tropas (acorda Estados Unidos, John McCain está maluco!), ou sobre "realocá-las", ou esperar mais quatro meses para começar a " vencer o prazo" delas.

Só existe uma única solução e ela é simples: retirada! Agora. Comecem hoje à noite. Vamos cair fora de lá o mais rápido que pudermos.

Quanto mais pessoas de boa vontade e consciência não quiserem acreditar nisso, quanto mais mortes nós teremos para aceitar a derrota, nada poderemos fazer para reparar o dano que cometemos. O que aconteceu, aconteceu.

Se você dirigiu bêbado, atropelou e matou uma criança, não haverá nada no mundo que você possa fazer para devolver a vida àquela criança.

Se você invadiu e destruiu um país, lançando o povo a uma guerra civil, não há nada que você possa fazer até que a fumaça dissipe e o sangue derramado seque. Então, talvez, você possa acordar e ver a atrocidade que cometeu e depois ajudar os sobreviventes a tentar melhorar suas vidas.

A União Soviética caiu fora do Afeganistão em 36 semanas. Saíram assim e tiveram perdas pesadas na retirada.

Eles compreenderam o erro que cometeram e removeram suas tropas. Depois, veio uma guerra civil. Os maus venceram.

Mais tarde, nós derrubamos os maus e tudo viveu melhor depois disso. Veja! No fim, a coisa funciona! A responsabilidade pelo fim dessa guerra cabe agora aos democratas. O Congresso puxa as cordinhas e a Constituição diz que só o Congresso pode declarar a guerra. O senhor Reid e a senhora Nancy Pelosi têm agora o poder para colocar um fim a essa loucura. Se fracassarem nisso, a ira dos eleitores recairá sobre eles. Nós não estamos brincando senhores democratas e se vocês não acreditam em nós, toquem em frente e continuem essa guerra por outro mês. Nós lutaremos contra vocês ainda mais forte que fizemos contra os republicanos. A página de abertura de meu site na Internet tem uma foto de Nancy Pelosi e Henry Reid, feitas a partir de fotos de soldados americanos que morreram lutando a Guerra de Bush.

Mas que será a partir de agora a Guerra de Bush contra os Democratas, a menos que alguma outra rápida ação seja tomada.

Essas são nossas exigências:

1 - Tragam as tropas para casa já! Não em seis meses. Agora! Deixem de procurar um meio de vencer. Nós não podemos vencer. Nós perdemos.

Às vezes se perde. Essa é uma dessas vezes. Sejam corajosos e admitam isso.

2 - Peçam desculpas a nossos soldados e façam melhor. Digam a eles que nos desculpem porque eles foram usados para lutar uma guerra que não tinha nada a ver com a nossa segurança nacional. Nós precisamos assegurar que cuidaremos deles e que eles sofrerão o mínimo possível. Os soldados incapacitados fisica e psicologicamente receberão os melhores cuidados e uma compensação financeira significante. As famílias dos soldados que morreram merecem as maiores desculpas e precisam ser cuidadas para o resto das suas vidas.

3 - Devemos nos expiar das atrocidades que perpetramos contra o povo do Iraque. Há poucos males piores que fazer a guerra baseados em uma mentira, invadir outro país porque você quer o que é deles e que está enterrado no solo. Agora muitos mais irão morrer. Seu sangue estará em nossas mãos, não interessa em quem votamos. Se você paga impostos, contribuiu para os 3 bilhões de dólares por semana que gastamos para levar o Iraque para o Inferno onde está o país agora. Quando a guerra civil tiver terminado, nós deveremos ajudar a reconstruir o Iraque.

Nós não podemos nos redimir se não fizermos isso.

Por último, há uma coisa que eu sei. Nós, americanos, somos melhores do que as coisas que fizeram em nosso nome. A maioria de nós ficou estarrecida e zangada com o que aconteceu em 11 de setembro e perdeu a cabeça. Nós não pensamos direito e jamais olhamos um mapa.

Porque somos mantidos na estupidez graças ao nosso sistema patético de educação e à nossa mídia preguiçosa, não sabemos nada de História.

Nós não sabemos que somos os caras que financiaram e armaram Saddam Hussein por muitos anos, inclusive quando ele massacrou os curdos.

Ele era o nosso cara. Nós não sabíamos o que era um sunita ou um xiita, sequer havíamos escutado essas palavras.

De acordo com o National Geographic, 80% dos adultos do nosso país não sabem localizar o Iraque no globo terrestre.

Nossos líderes jogaram com nossa estupidez, nos manipularam com suas mentiras e nos amedrontaram até a morte.

Mas, no fundo, somos um povo de bom coração. Aprendemos devagar, mas a bandeira de "missão cumprida" nos atingiu de modo ímpar e cedo começamos a fazer algumas perguntas. Depois, começamos a ficar espertos. No último dia 7 de novembro, nós ficamos loucos e tentamos consertar nossos erros.

A maioria agora conhece a verdade. A maioria agora sente uma tristeza e culpa profundas e uma esperança de qualquer coisa que seja feita, será melhor e colocará tudo nos eixos.

Infelizmente, não é assim. Então precisamos aceitar as conseqüências de nossas ações e fazer o melhor para que o povo iraquiano possa até pensar em pedir auxílio a nós no futuro. Pedimos a eles que nos perdoem.

Pedimos aos democratas que nos escutem e que saiamos do Iraque agora!

Do seu, Michael Moore

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

O Fidel Castro que Eu conheço

Hoje, 06/12, será exibido o documentário O Fidel que Eu conheço no Discovery, canal 51 de TV por assinatura. O documentário leva o mesmo nome do ensaio escrito por Gabriel García Márquez, cujas passagens do belíssimo texto transcrevemos adiante [quem desejar o texto completo, é só solicitar]:

"... Fatigado de conversar, descansa conversando. Escreve bem e gosta de fazê-lo. O maior estímulo de sua vida é a emoção do risco. A tribuna de improvisador parece ser seu meio ecológico perfeito. Começa sempre com voz quase inaudível, com um rumo incerto, mas aproveita qualquer chispa para ir ganhando terreno, palmo a palmo, até que dá uma espécie de grande fisgada e se apodera da audiência. É a inspiração: o estado de graça irresistível e deslumbrante, que só negam aqueles que não tiveram a glória de vivê-lo. É o antidogmático por excelência. ..."

"... Ninguém pode ser mais obsessivo do que ele quando se propõe a levar a fundo qualquer coisa. Não há um projeto colossal ou milimétrico, no qual não se empenhe com uma paixão encarniçada. E, em especial, tem que enfrentar a adversidade. Em nenhuma outra situação parece melhor disposto, de melhor humor. Alguém que crê conhecê-lo bem disse para ele certa vez: 'As coisas devem andar muito mal, porque você está radiante.' ... "

"... Sua visão da América Latina no futuro é a mesma de Bolívar e Martí, uma comunidade integrada e autônoma, capaz de mover o destino do mundo. O país do qual mais sabe, depois de Cuba, é os Estados Unidos. Conhece a fundo a índole de sua gente, suas estruturas de poder, as segundas intenções de seus governos, e isto o ajudou a suportar a tormenta incessante do bloqueio. ..."

"... Escutei-o, em suas escassas horas de nostalgia, evocar as coisas que poderia ter feito de outro modo para ganhar mais tempo na vida. Ao vê-lo incomodado pelo peso de tantos destinos alheios, perguntei o que mais gostaria de fazer neste mundo, e ele me respondeu imediatamente: ficar parado em uma esquina."

domingo, 3 de dezembro de 2006

Em nome da justiça e da história

Teve início uma campanha [texto adiante] de apoio à ação judicial declaratória impetrada pela família Maria Amélia e César Teles contra Brilhante Ustra, torturador responsável pelo DOI-CODI em São Paulo no período mais escabroso da repressão militar. A vitória da família Teles cria um novo paradigma jurídico e institucional acerca do julgamento dos crimes ocorridos no período ditatorial, colocando o Brasil na mesma trilha dos demais países do continente latino-americano.

Para que nunca mais aconteça, para que não se esqueça, todo apoio à família Teles! Para tanto, basta enviar email para apoioafamiliateles@gmail.com.


São Paulo, 23 de novembro de 2006

Tendo sofrido seqüestro e tortura entre 1972 e 1973, Maria Amélia de Almeida Teles (62 anos) e seus familiares – o marido César Teles (62), os filhos Janaína Teles (39) e Édson Teles (38), e a irmã Criméia de Almeida (61) abriram processo contra Carlos Alberto Brilhante Ustra, o "Tibiriçá", hoje com 74 anos, coronel reformado do Exército, que comandou o DOI-Codi de São Paulo entre setembro de 1970 e janeiro de 1974.

Trata-se de ação declaratória impetrada pelo advogado Fábio Konder Comparato junto à 23ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, exigindo o reconhecimento de ocorrência de danos morais e físicos, em processo que não envolve punição criminal ou indenização pecuniária.

Os abaixo-assinados em anexo prestam integral apoio a essa causa, por considerá-la atributo fundamental da democracia e por entender que a ofensa aos direitos humanos, como praticada durante a ditadura militar, não está sujeita a prescrição.

Os interessados em assinar a moção favor enviar seu nome ou instituição que representa para o e-mail apoioafamiliateles@gmail.com. A lista dos abaixo-assinados será atualizada a cada três dias.

Cordialmente,

Grupo de Apoio a Família Teles

sábado, 2 de dezembro de 2006

Biruta está em Cuba - com o coração e pela internet

As festividades pelos 50 anos de desembarque do Granma em Cuba e do aniversário de 80 anos de Fidel Castro podem ser acompanhadas ao vivo pela Rádio Habana Cuba, Rádio Rebelde e pela TV Cubavisión Internacinal.

As fotografias são do Granma durante desfile militar e na Praça da Revolução.

Todas las voces en La Habana

“Todas las voces en La Habana

POR MIREYA CASTAÑEDA —de Granma Internacional

Todas las voces todas, / todas las manos

todas, / toda la sangre puede / ser canción

en el viento; / canta conmigo canta, /

hermano americano, / libera tu esperanza /

con un grito en la voz.


Se presentía algo sui géneris. Artistas de tres continentes unidos en un escenario al aire libre. La canción comprometida, el folklore, y hasta la música bailable. La convocatoria provenía de un nombre excepcional: Guayasamín.

La Fundación creada por el Pintor de Iberoamérica, y dirigida ahora por sus familiares, coordinaba el homenaje de la música por el aniversario 80 del presidente Fidel Castro y Todas las voces todas en La Habana fue un suceso mayor.

Se trata del tercer concierto con este título, los dos anteriores, en Quito, tuvieron como objetivo recaudar fondos para continuar la construcción de La capilla del Hombre, magna idea del maestro Guayasamín.”

***

Durante a exposição do pintor pintor equatoriano Oswaldo Guayasamín no Museo Nacional de Bellas Artes de La Habana realizada no bojo das homenagens ao aniversário de Fidel, o Ministro de Cultura de Cuba, Abel Prieto, fez uma das tantas declarações que dimensionam o sentido histórico e universal da vida de Fidel:

"Ha habido reflexiones y debates con una gran carga emotiva. Las palabras que se han oído continuamente son solidaridad, hermandad. Es muy valioso que todo el mundo haya estado y nos hayan traído visiones de la gran obra del Comandante desde distintos ángulos, desde distintos puntos de vista. Cuando se haga el libro del coloquio va a ser una sorpresa ver la cantidad de material en términos testimoniales, de argumentos, incluso para los cubanos que hemos estado tan cerca de la obra de Fidel. La dimensión universal del Comandante en toda su plenitud ha sido expuesta no por nosotros, sino por amigos que han venido de todo el mundo".

50 anos de Granma

Em 02 de dezembro de 1956, a bordo do iate Granma, Fidel Castro, Che Guevara e outros 80 camaradas de armas desembarcaram na província de Oriente, em Cuba, dando início à formação do Exército Rebelde que em 1º de janeiro de 1959 consumou a Revolução Cubana, esta epopéia socialista latino-americana que povoa desde então o imaginário de gerações humanistas e militantes em todo o mundo.

Juntamente com as comemorações alusivas aos 50 anos de desembarque do Granma em Cuba, se celebram os 80 anos de idade do Comandante Fidel Castro, completados em 13 de agosto passado. Mais de mil e quinhentas personalidades, ativistas, pensadores, políticos, cineastas, artistas, intelectuais e militantes de todas as partes do mundo participam das festividades apesar da ausência do comandante, que convalesce no hospital.

A imprensa internacional sonega o acontecimento, do qual participam o ator francês Gerard Depardieu, os presidentes René Preval do Haiti, Evo Morales da Bolívia, Daniel Ortega da Nicarágua e tantas outras representações. Emir Sader representa oficialmente o Partido dos Trabalhadores e, subjetivamente, também se faz representada toda “nuestra raza” que não foi extinta, como desejam os fascistas brasileiros.

Viva Fidel! Viva Cuba!
Hasta la victória, siempre!

A Lei de Anistia deve ser revista?

A Folha de São Paulo de hoje, 02/12, publica os artigos “Direito à verdade e à justiça” de Hélio Bicudo e Flávia Piovesan e “Revisão para tudo ficar como está?” de Tércio Sampaio Ferraz Júnior, em resposta à pergunta “A Lei de Anistia deve ser revista?”, na seção Tendências/Debates do jornal.

Desde setembro passado, com a ação declaratória da família Telles contra Brilhante Ustra, Biruta do Sul tem publicado notas sobre o assunto, das quais vale ler “Julgar torturadores e reescrever a verdadeira história”, “Os significados da ação declaratória contra Brilhante Ustra” e “Fim da lei de caducidade no Uruguay”.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

A onipotência da mídia e a onipotência do Ministro

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br

É espantoso como o Ministro do Supremo Tribunal Federal [STF], Marco Aurélio de Mello, que também acumula o cargo de Presidente do Tribunal Superior Eleitoral [TSE], descumpre regras elementares do mundo jurídico, as quais deveriam ser rigorosamente observadas por quem exerce função nas mais elevadas instâncias jurisdicionais da República.

Nas eleições, as atitudes do Ministro por muito pouco não produziram conseqüências imprevisíveis à normalidade democrática e ao processo eleitoral. Antes de se portar como magistrado, Marco Aurélio foi um destacado artífice político. Emitiu sistematicamente opiniões políticas, fez declarações controvertidas acerca da crise política e, pior que tudo, irresponsavelmente lançou suspeitas de instalação de grampos telefônicos no TSE, o que posteriormente foi comprovado não ter ocorrido. Mais: Marco Aurélio chegou a insinuar o mando do Executivo na ação!

Ainda no primeiro turno das eleições, quanto mais subia a temperatura da campanha eleitoral, mais combustível o Ministro do TSE ateava na crise. Marco Aurélio nunca escondeu sua ânsia em impugnar a candidatura Lula ou, no mínimo, deslegitimar a reeleição do presidente Lula e assim contribuir para o reforço das teses golpistas empreendidas pelo reacionarismo tucano-pefelista com a propagação pela mídia lacerdista. Tudo isso pensado na circunstância de uma vitória esquálida de Lula no primeiro turno.

Nos pronunciamentos em cadeia de rádio e televisão proferido à toda a Nação convocando o povo brasileiro a votar, Marco Aurélio não conseguiu conter seu ímpeto militante e fez proselitismo político-eleitoral em favor de “mudança”, ou seja, em favor de Alckmin.

A biografia de Marco Aurélio de Mello em 2006 mostra uma pessoa talhada na parcialidade, na desobediência às normas e à moral, na incúria administrativa e no abuso dos atos praticados. Faltam ao cidadão Marco Aurélio, por isso, predicados para ser Ministro de qualquer coisa, menos ainda do STF ou do TSE.

Na recente incursão de Marco Aurélio no debate público, o Ministro-sem-predicados-de-ser-Ministro defende o descumprimento do teto salarial no Poder Judiciário se a remuneração astronômica dos agentes do Judiciário “foi alcançada legitimamente” [sic]. Marco Aurélio, com sua peculiar lógica de raciocínio, considera que possa haver legitimidade – e sabe Deus, justiça - na auto-atribuição pelo Judiciário de um super-salário de mais de R$ 30 mil reais - num país de salário mínimo quase cem vezes menor.

Não raro muitos desses que advogam em causa própria proferem sentenças criminalizadoras do povo e de suas organizações que lutam por direitos legítimos, historicamente subtraídos. No Brasil do século XXI, um monumental abismo separa o imperativo de construção da justiça social e da democracia política e cidadã do obscurantismo que rege a mídia e o Poder Judiciário, insuscetíveis ao controle público e democrático.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Mensagem de Fidel nas celebrações dos 80 anos

Desde o último 28/11 até o próximo 10/12, mais de mil e quinhentas personalidades, intelectuais, pensadores, ativistas políticos e sociais, amigos, amigas de Cuba e do povo cubano se reúnem em Havana e no interior do país para as celebrações do aniversário de 80 anos do comandante da revolução e do povo cubano Fidel Castro.

As festividades, que incluem concertos, mostras de vídeo, exposições artísticas, encontros, debates e manifestações literárias, foram organizadas pela Fundação Guayasamín, fundada pelo artista e irmão de fé do Fidel, Oswaldo Guayasamín, do Equador.

No dia 02 de dezembro, as celebrações terão um significado especial: nesta mesma data, há exatos 50 anos, em 1956, Fidel e seus companheiros revolucionários - com Che Guevara ao seu lado – desembarcaram na costa cubana a bordo do iate Granma provenientes do exílio no México.

Na seqüência, a mensagem de Fidel aos convidados de todo o mundo que estão em Cuba para as celebrações dos 80 anos do comandante e dos 50 anos do Desembarque do Granma, publicado no jornal cubano Granma:


Mensagem do presidente cubano aos participantes da celebração de seu 80º aniversário

Queridos compatriotas e queridos amigos do mundo inteiro:

Neste período de tempo, trabalhei intensamente para garantir em nosso país o cumprimento dos objetivos do Proclama de 31 de julho.

Agora estamos perante um adversário que tem levado os Estados Unidos a um desastre tal, que, quase com certeza, o próprio povo norte-americano não lhe permitirá terminar seu mandato presidencial.

Ao dirigir-me aos senhores, intelectuais e personalidades prestigiosas do mundo, estava diante de um dilema: não podia reuni-los num local pequeno. Somente o teatro Karl Marx tinha capacidade para todos os visitantes e eu não estava ainda em condições, segundo os médicos, de me defrontar com tão colossal encontro.

Optei a variante de me dirigir a todos os senhores, por este meio. É bem conhecido meu pensamento martiano sobre as glórias e as honras, quando ele disse que cabiam em um grão de milho.

A generosidade dos senhores, na verdade, me espanta. Há muitas pessoas que gostaria de mencionar aqui, mas prefiro não fazê-lo e peço-lhes desculpa por apenas mencionar um nome: o de Oswaldo Guayasamín, uma vez que ele conseguiu sintetizar muitas das melhores virtudes dos que estão aqui presentes.

Ele me fez quatro retratos. O primeiro que pintou em 1961 desapareceu. Busquei por todo lado e nunca o achei. Quanto sofri quando soube a pessoa excepcional que era Guayasamín. O segundo foi em 1981 e ainda é conservado na Casa de Guayasamín na Havana Velha. O terceiro, em 1986, é conservado na "Fundação Antonio Núñez Jiménez da Natureza e do Homem". Quando nos conhecemos, quão longe estávamos ele e eu de imaginar que o quarto retrato seria um presente de aniversário em agosto de 1996.

Quão inspiradoras foram suas palavras quando disse: "Em Quito e em qualquer canto da Terra deixem uma luz acesa, voltarei tarde"

De Oswaldo Guayasamín escrevi um dia, ao inaugurar a Capela do Homem: "Foi a pessoa mais nobre, transparente e humana que eu conhecera. Criava à velocidade da luz e sua dimensão como ser humano não tinha limites"

Enquanto o planeta existir e os seres humanos respirarem, a obra dos criadores existirá.

Hoje, ademais, graças à tecnologia, as obras e os conhecimentos que o homem criou ao longo de milhares de anos estão ao alcance de todos, embora ainda não se conheçam os efeitos que as radiações de bilhões de computadores e telefones celulares terão sobre os seres humanos.

Há poucos dias, a prestigiosa organização Fundação Mundial para a Vida Silvestre (WWF International, por suas siglas em inglês), fixada na Suíça e considerada mundialmente como a mais importante ONG que controla o meio ambiente global, declarou que o conjunto de medidas aplicadas por Cuba para proteger o meio ambiente a tornavam o único país da Terra que cumpre os requisitos mínimos de desenvolvimento sustentável. Isso constituiu uma honra estimulante para nosso país, mas de pouca repercussãomundial, em face do peso de sua economia. Por isso, no passado dia 23, enviei uma mensagem ao presidente Chávez em que disse:

"Querido Hugo:

Ao adotar um Programa Integral de Poupança de Energia, você se converterá no mais prestigioso defensor mundial do meio ambiente.

"O fato de a Venezuela ser o país com maiores reservas de petróleo é de grande relevância e o converterá em um exemplo que levará todos os demais consumidores de energia a fazerem o mesmo, poupando quantias avultadas de investimento.

"Ao igual que Cuba, produtora de níquel, mobiliza recursos de bilhões de dólares para seu desenvolvimento, a Venezuela, com suas exportações de combustíveis, poderia mobilizar trilhões de dólares.

"Se os países industrializados e ricos conseguissem o milagre de reproduzir no planeta, daqui a várias dezenas de anos, a fusão solar, depredando antes o meio ambiente com emanações de combustíveis, como será que os povos pobres, que constituem a imensa maioria da humanidade, poderão viver nesse mundo.

"Até a vitória sempre!"

Por último, queridos amigos que tiveram a imensa honra de visitarem nosso país, despido-me com profunda dor por não ter podido agradecer-lhes pessoalmente e abraçá-los. Temos o dever de salvar nossa espécie.


Fidel Castro Ruz

28 de novembro de 2006

Mídia entorpecente

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br

Finalmente a imprensa gaúcha é forçada a noticiar a verdadeira situação administrativa e financeira em que o Estado do Rio Grande do Sul está sendo deixado pela mesma composição partidária que assumirá o comando do governo gaúcho em 1º de janeiro próximo, entretanto com Yeda-Feijó em lugar de Rigotto-Holfeldt.

Durante os últimos quatro anos o governador Rigotto foi protegido por uma cobertura parcial e conivente de toda a grande mídia gaúcha – desta feita, não só do grupo RBS – que ocultou da sociedade a grave crise tanto da administração pública como da economia gaúcha.

É ululante dizer que faltou compromisso analítico e independência à mídia local para identificar os nexos de causalidade entre esta realidade de colapso econômico e administrativo do Rio Grande e o fracassado modelo implementado, com aumento indiscriminado de impostos, Fundopem concentrado para mega-empresas, manutenção de privilégios, abandono de estratégias de desenvolvimento, sucateamento da UERGS e da educação profissionalizante. A situação das finanças públicas do Rio Grande é gravíssima e vinha sendo denunciada em vão pela oposição nos últimos três anos, mas somente agora é revelada na sua dramaticidade real. Na eleição, porém, foi categoricamente desmentida por Rigotto com a complacência da mídia.

A ausência de compromisso crítico e independente da imprensa esterilizou o verdadeiro debate público que o Rio Grade deveria ter realizado em busca de alternativas para o desenvolvimento regional diante dos formidáveis estímulos criados pelo governo Lula, que aportou recursos, investimentos púbicos e privados como não ocorreu no Estado nas últimas duas décadas.

Ao contrário disso, a discussão da crise foi editorializada para não favorecer o PT e o sentimento oposicionista na população. Prevaleceu a tese simplista de atribuir peso absoluto ao clima e ao câmbio pela determinação da crise, abstraindo os equívocos e as responsabilidades do governo estadual e das forças conservadoras cujas opções de governo atrasam o Estado. Essas duas variáveis atravessam os tempos, e nem por isso impediram o crescimento do Estado durante os governos de Alceu Collares e de Olívio Dutra, mas foram tratadas como fatalidades incontornáveis para o governador Rigotto.

Diante da exposição pública do descalabro do Estado – mesmo porque não há que temer riscos eleitorais porque a eleição já passou – a mídia fica obrigada a publicar esta realidade. E o faz, contudo, desde uma perspectiva fragmentária e alienante, dificultando a compreensão totalizante pela população e o conhecimento, por exemplo, de que uma única empresa abocanhou hum bilhão de reais em benefícios fiscais.

Diante das fragilidades já expostas pela governadora eleita, a transferência da responsabilidade da crise gaúcha para o governo federal poderá fazer parte do cardápio da mídia gaúcha, que ao invés de informar e instruir a sociedade, entorpece mentes e consciências, da mesma maneira que faz a grande mídia monopolista do país. Aquela, foi derrotada juntamente com o conservadorismo tucano-pefelista.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Equador: política latino-americana num país dolarizado

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br


Rafael Correa, que integrou a frente de esquerda na disputa à eleição presidencial do Equador, derrotou o direitista Álvaro Noboa, o empresário mais rico do país que foi apoiado pelo governo norte-americano nas eleições.

O Equador é um país marcado pelo conflito político que é intrínseco aos países que adotaram o [des]ajuste neoliberal. Em apenas 6 anos, três presidentes neoliberais do Equador foram pacificamente depostos ou tiveram seus mandatos encurtados após levantes populares. A deposição de governantes neoliberais se tornou um fato corriqueiro na América Latina desde os anos 1990, em que os adeptos do Consenso de Washington não só foram derrotados, como também implicados em processos penais ou fugidos dos próprios países – Salinas do México, Fujimori do Peru, Pérez da Venezuela, Menem da Argentina.

No Equador, o último a ser deposto foi o então “nacionalista” Lúcio Gutierrez, um coronel do exército que foi eleito presidente com o apoio da esquerda política e social e das populações indígenas, que representam praticamente a metade da população do país. Logo no início do mandato, Gutierrez iniciou a aplicação de medidas anti-populares e anti-nacionais, culminando com a adoção do dólar como moeda oficial do país e a realização de acordo bilateral de livre comércio com os EUA. Da empolgação militante à desesperança foi um passo, e o Equador se tornou mais um exemplo do fracasso das experiências neoliberais do continente. Por isso, abrigou o primeiro Fórum Social das Américas, em julho de 2004, realizado na capital Quito.

A eleição de Rafael Correa, da Aliança País, envereda o Equador para o caminho da soberania e da auto-determinação. É a retomada de uma hipótese de desenvolvimento com sustentabilidade a partir das vocações próprias do país, que possui riquezas de subsolo [principalmente petróleo], forte inclinação agrícola, rica produção cultural, costa litorânea no oceano pacífico, integração amazônica e forte potencial turístico.

Rafael Correa antecipou alguns nomes que constituirão o governo central, e dentre eles há de se destacar a presença de Alberto Acosta [crítico da dolarização], Gustavo Larrea [dirigente de esquerda], Ricardo Patino [crítico do pagamento da dívida], Carlos Pareja Yanuzzelli [revisor de contrato lesivo firmado com empresa norte-americana, que acarretou a suspensão do tratado de livre comércio com os EUA]. É de se esperar a divulgação de outras representações que integrarão o governo de Correa, como do Pachakuchi [partido indígena de esquerda].

No país da economia dolarizada, a política pendeu para os ventos esquerdizantes que sopram em toda a América Latina, o que é mais um assombro para George W. Bush Júnior – o Mister Danger, como costuma se referir a ele o presidente Hugo Chávez. No último ano e meio, Bush amargou a derrota eleitoral de seus aliados na Bolívia, na Nicarágua, no Brasil e no Equador. Só não perdeu no México mediante uma escandalosa fraude contra López Obrador, o que cria um ambiente de instabilidade e de sério conflito.

No próximo final de semana, o calendário eleitoral de 2006 no continente se encerrará com a vitória de Hugo Chávez para o exercício de um novo mandato na Venezuela, dando mais um passo decisivo dos povos latino-americanos para a continuidade da erosão do império e do imperialismo.

sábado, 25 de novembro de 2006

Fórum na Bahia: efeitos colaterais do neoliberalismo

A guerra faz muitas vítimas. Diz-se que a primeira vítima de uma guerra é a verdade. Na última guerra eleitoral, a verdade foi alvejada por uma propaganda eleitoral que mistificou a figura e a trajetória da governadora eleita e que tratou o passado da candidata de forma mítica, comparando-a a Anita Garibaldi e Ana Terra [sic]. Biruta do Sul tratou disso em artigo divulgado em 26 de outubro passado – disponível aqui para leitura.

A guerra também produz muitos efeitos colaterais, cujas marcas ficam para sempre. A última guerra eleitoral gaúcha teve como efeito colateral imediato a transferência do Fórum Social Mundial para a Bahia. Em 2009, quando se reunirá novamente de maneira centralizada numa única edição mundial, o evento poderá ser realizado no Brasil - mas não mais em Porto Alegre, conforme antecipado por Biruta do Sul nas postagens “Fórum Social Mundial de 2009 na Bahia” e “Neoliberalismo espanta Fórum de Porto Alegre”.

Quando todas as verdades escondidas nas eleições forem reveladas, e quando se evidenciarem todos os efeitos colaterais do neoliberalismo de Yeda-Feijó, os sinais então já serão de dias muito difíceis no Rio Grande do Sul.

Charge escrita

Tom Zé já disse que não faz música, mas "jornalismo [e de vanguarda, acrescentamos] cantado". Poderia ser dito que Gilberto Maringoni, um cartunista de nascença e jornalista de ofício, não desenha charges, as escreve. Esta é a sensação que se fica ao ler o excelente artigo dele na Carta Maior - Não se sabe como presidente passará faixa ao sucessor - cheio de metáforas, paródias e insinuações. Coisas do grande Maringa.

Deixa o hôme falá!



sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Fim da lei de caducidade no Uruguay

O vizinho-irmão Uruguay deu um passo decisivo na semana que se encerra: concluiu o julgamento e determinou a prisão do ex-ditador Juan María Bordaberry, o primeiro a comandar o regime militar daquele país.
No semanário Brecha, pode ser lida a matéria de Samuel Blixen, Presente y futuro de los victimarios - Un pueblo agradecido:
"Juan María Bordaberry es el primer mandatario civil latinoamericano castigado con prisión por su responsabilidad en delitos de lesa humanidad como consecuencia de la imposición de una dictadura. Otros dictadores, como el argentino Jorge Videla y sus colegas de las juntas, marcharon a la cárcel, pero eran militares, exponentes de esos “profesionales del orden” que quebraron las instituciones haciendo el trabajo sucio de poderosos intereses. ...."

Os significados da ação declaratória contra Brilhante Ustra

A ação declaratória impetrada pela família Teles junto com Maria Criméia contra o coronel da reserva Brilhante Ustra [postagem anterior] tem a dupla importância de i] produzir no Brasil um novo paradigma para o julgamento dos crimes cometidos durante a repressão em alternativa ao silêncio imposto pela Lei de Anistia de 1979; e ii] de colocar o Brasil no roteiro de punição aos torturadores, como vem acontecendo em vários países latino-americanos que buscam uma reparação histórica.
A este respeito, vale ler a entrevista de Flávia Piovesan a Paulo Henrique Amorim, no blógue Conversa Afiada, que pode ser lida clicando aqui. No Estadão de ontem, a mesma professora de direito da PUC-SP concedeu entrevista no mesmo sentido.

Julgar torturadores e reescrever a verdadeira história

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br

A historiografia de um povo e de um país não pode obscurecer os elementos factuais que dela fizeram parte, mesmo que causem vergonha e exponham as mais profundas dores, feridas e traumas.

Para o povo alemão, por exemplo, o compromisso com o completo esclarecimento das atrocidades nazistas cometidas contra a humanidade há mais de 60 anos, é uma questão de Estado e de educação cívica e ética. Cada descoberta e cada nova verdade sobre as práticas nazistas ampliam a consciência alemã - e internacional - sobre a liberdade, os direitos e a tolerância e, principalmente, ajudam a catalogar a barbárie nazista como parte do inventário de um passado trágico que não mais se repetirá.

Na América do Sul, nos anos 1980-1990, as transições liberais-conservadoras das ditaduras militares para regimes democráticos contemplaram a concessão de anistias para os agentes de Estado que praticaram ações terroristas contra ativistas de esquerda e contra a população em geral. Essas democracias já nasceram, por isso, em dívida com a verdade, com a justiça e com a história – impuseram ilegitimamente um ponto final sobre o passado cruel e sangrento.

Com processos e tempos distintos o Chile, a Argentina e o Uruguay reabriram esse capítulo tenebroso das respectivas ditaduras militares e dos bárbaros crimes cometidos pelos agentes de Estado contra os militantes políticos. De acordo com a realidade de cada país, os torturadores – ex-ditadores, policiais, colaboradores civis e militares - estão sendo legalmente julgados e condenados pelos atos praticados no passado.

No Brasil, uma inédita ação cível impetrada pela família Maria Amélia e César Teles junto com Maria Criméia – todos ex-presos políticos – contra o torturador e hoje coronel aposentado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, quebra o silêncio imposto e pode representar um novo paradigma para o julgamento dos crimes da repressão no Brasil.

A ação judicial tem caráter declaratório e busca o reconhecimento dos danos sofridos à integridade física, moral e psicológica, e também quer reconhecer Brilhante Ustra como torturador. Adotando o codinome de Doutor Tibiriçá, Brilhante Ustra foi um dos piores algozes do regime e comandou o DOI-CODI em São Paulo durante o mais duro período do governo Médici.

A reabertura da discussão sobre os crimes da ditadura é componente essencial do reencontro do povo brasileiro com seu passado e com a projeção de um destino livre de arbítrios e violências contra a liberdade e a justiça.

Acusar a esquerda de vingativa e revanchista por defender a condenação legal dos crimes e dos criminosos, é tão infame quanto apagar a memória sobre a barbárie cometida. Continuar impondo ao Brasil o silêncio sobre os acontecimentos do passado equivale a amputar o direito do povo brasileiro à história e à verdade.

As gerações presentes não têm o direito de apagar da memória a crueldade praticada contra gerações passadas, deixando impunes aqueles que cometeram tantas atrocidades. Filmes honestos como Crônicas de uma fuga [2006], Kamkatcha [2003] e Zuzu Angel [2005] ilustram dolorosamente a crueldade dos torturadores, e não deixam nossa consciência em paz com um silêncio que também pode ser criminoso.

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

A verdade sem disfarces

O vice-governador de Yeda, o assumido neoliberal Paulo Feijó, na eleição se diferenciava da então candidata na sinceridade com que se posicionava em relação aos temas de interesse no debate eleitoral, como das privatizações, desmonte do Estado e desfinanciamento de programas sociais.

Na primeira aparição pública depois de eleito, durante um envento ocorrido ontem numa universidade, Paulo Feijó revelou que foi obrigado pelos marqueteiros da campanha de Yeda a esconder os reais propósitos de privatizarem o BANRISUL, a FEE, a PROCERGS.

Agora, já dispensando os disfarces e truques aplicados nas eleições, começa a cair a máscara da governadora eleita e fica bem nítida a real feição que seu desastrado governo terá. Até pantalha a gauchada vai trajar.

Outubro sangrento

A Zero Hora de hoje faz reportagem sobre o morticínio do Iraque, que alcançou o auge de 3.709 mortes de civis inocentes no mês de outubro passado, segundo levantamento da ONU.

Com o sugestivo título “Outubro vermelho no Iraque”, a matéria tergiversa sobre as causas do agravamento do conflito, que seriam devido à guerra de gangs, fundamentalismo religioso, delinqüência social, disputas étnicas e outros desvarios. A matéria não dedica uma linha sequer ao desastre da ação imperialista norte-americana e inglesa no Iraque - causa, inclusive, da derrota eleitoral de Bush e do desgaste crescente de Blair na Inglaterra e em toda a Europa.

Não há nenhuma razão para que a reportagem seja intitulada “outubro vermelho”, salvo se o objetivo do veículo seja o de associar os resultados sangrentos da intervenção imperial no Iraque ao outubro russo de 1917 - aquele sim vermelho.

Ricardo Villas e Tom Zé acontecem na bela e doce capital

Hoje, 23/11, se apresenta pela primeira vez em Porto Alegre o músico e compositor Ricardo Vilas, que tem uma extensa produção musical de MPB que, porém, é mais conhecida na França, país onde reside desde 1990 e onde esteve exilado após o golpe militar de 1964.

Além da excelente música, a conversa agradável com Ricardo Vilas nos aproxima de uma parte crítica da história do Brasil que foi o golpe militar, a repressão política e o exílio. Ricardo fez parte, juntamente com Zé Dirceu, Flávio Tavares, Wladimir Palmeira, Fernando Gabeira, Franklin Martins e outros ativistas políticos, do grupo de militantes do MR-8 e da ALN que foi trocado pelo embaixador norte-americano Charles Elbrinck em 1969.

Ricardo é um dos nove militantes remanescentes daquela experiência, e nesta condição prestou depoimento para o filme-documentário Hércules 56, dirigido pelo cineasta Sílvio Da-Rin, que relata o episódio do seqüestro do embaixador norte-americano e a troca pelos militantes políticos presos que rumaram em direção ao prolongado exílio. O filme, aliás, será lançado no 39º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro sendo exibido na seção de encerramento do festival, no próximo dia 28/11 – aqui se acessa a resenha do filme.

O show do Ricardo Villas, que terá acompanhamento de excelentes músicos gaúchos como Cláudio Sander e Leonardo Ribeiro, acontece hoje às 20h no Café Concerto da Casa de Cultura Mário Quintana.

***

Tom Zé também é outra apresentação destacadíssima que acontece na bela e doce capital de todos os gaúchos e gaúchas. O show, que segundo o próprio Tom “não é música, é jornalismo cantado”, é mais uma exuberante performance deste revolucionário artista brasileiro.

A apresentação do Tom Zé será no Salão de Atos da Ufrgs às 20h, e segundo consta, não há mais ingressos à disposição.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Intelectuais e vida pública

Nas sociedades contemporâneas a mídia formata, enquadra, delimita e restringe a expressão do pensamento crítico, podendo criar um divórcio entre a idéia e a verdade. Sobre esse assunto tormentoso, vale a leitura de Intelectuais e vida pública, no Blog DO Emir - clique para ler.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Neoliberalismo espanta Fórum de Porto Alegre

Se for confirmada a escolha da Bahia como sede do encontro mundial do Fórum Social de 2009, será o mais duro golpe para o Estado do Rio Grande e para todo o povo gaúcho nestes anos iniciais do século XXI. O Fórum, para muito além da contribuição dada à divulgação de Porto Alegre e do Rio Grande em todo o mundo, foi um acontecimento que se confundiu com a identidade e a cultura do povo gaúcho.

Lamentavelmente Porto Alegre e o Rio Grande perderam a condição de sede permanente das etapas mundiais do Fórum no Brasil. E isso é conseqüência dos governos e políticas neoliberais surgidas no Estado e na capital.

Os neoliberais gaúchos que em 1999 tramaram contra os interesses do Rio Grande, se aliaram a FHC e ACM e mandaram a FORD para a Bahia, agora poderão espantar definitivamente o Fórum de Porto Alegre, e serão os responsáveis políticos também pela transferência do Fórum para a Bahia.

Fórum Social Mundial de 2009 na Bahia

O Governador eleito da Bahia, Jaques Wagner, já manifestou oficialmente a disposição em apoiar a realização da etapa mundial do Fórum Social Mundial [FSM] de 2009 na Bahia. O compromisso foi expressado pelo próprio Jaques Wagner a integrantes de organizações brasileiras e internacionais que fazem parte do Conselho Internacional do FSM que lhe sondaram sobre esta possibilidade.

A partir desta importante sinalização do futuro governo baiano, as organizações que idealizam o retorno do Fórum ao Brasil em 2009 começam a mobilizar outras entidades para amadurecerem a idéia durante a próxima reunião do Conselho Internacional do FSM que ocorrerá em Nairóbi, no Quênia, em janeiro do próximo ano, por ocasião do VIIº Fórum Social Mundial.

Após a quinta edição do Fórum, realizada em janeiro de 2005 em Porto Alegre, o processo do Fórum continua se reunindo anualmente, porém alternando edições policêntricas [descentralizadas e simultâneas em todos os continentes] com edições centralizadas. É por isso que o VIº FSM ocorreu em 2006 na forma de edições policêntricas, sendo das Américas na Venezuela [Caracas], da Ásia no Paquistão [Karachi] e da África em Mali [Bamako]. O VIIº Fórum acontecerá novamente na forma de um encontro mundial centralizado na cidade de Nairóbi, no Quênia, de 20 a 25 de janeiro de 2007.

Na última reunião do Conselho Internacional do Fórum [outubro, Itália] foi decidido que em 2008 ocorrerão encontros espalhados por todos os cantos do planeta, uma “jornada de mobilização mundial” do FSM em data próxima a do Fórum Econômico de Davos. Na mesma reunião, o Conselho Internacional também abriu a reflexão acerca da etapa mundial do Fórum em 2009. Daí a razão para que alguns setores tenham consultado o governo Jaques Wagner com o objetivo de garantir o IXº FSM no Brasil, mais precisamente na Bahia, “com axé, trio elétrico, muito amor e na véspera do carnaval”, nas palavras animadas de uma amiga do Biruta do Sul.

Mas ainda há muito trabalho a ser feito para que a etapa mundial de 2009 do Fórum ocorra no Brasil. Curiosamente, os principais oponentes à realização do encontro no Brasil são setores brasileiros que compõe o Comitê Brasileiro e que ainda exercem relativo peso de opinião no Conselho Internacional. Nos próximos meses, a “geopolítica do Fórum” será sacudida com as tensões sobre a continuidade do processo e a respeito da melhor opção estratégica para a etapa mundial de 2009. É preciso que os setores brasileiros que se opõe à idéia de retorno ao Brasil – na maioria “ongueiros” –, se conscientizem da importância que joga o Brasil na alteração da correlação mundial de forças contra o neoliberalismo.

sábado, 11 de novembro de 2006

Manuela em alta - Ministra da Juventude de Lula!?

A cada dia sobe mais a cotação da jovem combativa Manuela D´Ávila, recém eleita a deputada federal mais votada do país pelo legendário PCdoB. Manuela encantou tanto o presidente Lula que é cogitada para conduzir a Secretaria Nacional da Juventude, órgão que seria criado no segundo mandato com status de Ministério.

Manuela, que participou intensamente na propaganda eleitoral de televisão da campanha de Lula [teria sido ótimo se tivesse tido a mesma presença na campanha de Olívio], já tinha se tornado atração em função da montanha de votos obtidos. Agora, poderá assumir um papel importantíssimo na construção de políticas e estratégias públicas para a juventude – com impacto imediato e para a constituição de novas gerações dirigentes do país. Bom para ela, bom para o PCdoB, bom para a esquerda, bom para o governo Lula e melhor ainda para a juventude brasileira.

Caso assuma esta tarefa, o primeiro suplente de deputado federal, Fernando Marroni de Pelotas, ocupa a cadeira na Câmara dos Deputados, o que também é positivo para o PT da região sul do Rio Grande, que ficou sem representação no legislativo federal devido aos equívocos eleitorais cometidos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Para que nunca mais aconteça [reprodução de post do Biruta 10 setembro 2006]

A família de Maria Amélia e César Teles ingressou com uma ação civil contra o torturador e hoje coronel aposentado do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra, que durante a ditadura militar no Brasil foi um dos piores algozes dos presos políticos, dos seus familiares e de muitas pessoas inocentes.

É de se elogiar que a ação dessa família não busca indenização pecuniária ou a aplicação de pena ao torturador, protegido pela Lei da Anistia, mas a declaração de danos à integridade física, moral e psicológica sofrida.

A ação é mais uma homenagem à memória dos que tombaram na luta contra a ditadura, aos seus familiares, aos que sobreviveram e à luta pela libertação, contra as injustiças e as desigualdades.

Lembrar é fundamental, para que nunca mais aconteçam barbáries totalitárias contra o povo brasileiro e contra qualquer povo de qualquer parte do mundo inteiro.

Belíssima a coincidência de divulgação da medida da família Teles, que ocorre no mesmo momento em que está em exibição o imperdível filme Zuzu Angel, de Sérgio Rezende. Assinantes do UOL ou da Folha poderão ler a matéria na íntegra na FSP de hoje [10/09/06]:

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O julgamento do Coronel Brilhante Ustra começou ontem [08/11/06] em São Paulo. Ao ingressar no Foro para a seção de julgamento, César Telles disse que “Ele é um monstro e deve ser condenado para o bem da História do Brasil”.