terça-feira, 19 de setembro de 2006

Uma vela que se apaga

O artigo a seguir, além de ser um belíssimo e indignado libelo contra as expressões de preconceito religioso e ódio racial, também é uma homenagem à ancestralidade farroupilha dos gaúchos, cuja identidade é associada à luta viril porém tolerante, libertária e franca - que não admite simulacros de conservadores que se tornam camaleões em época eleitoral.

UMA VELA QUE SE APAGA

Por Marcel Frison, Membro do Diretório Nacional do PT

A política é uma deusa implacável, e sob sua égide, nós, pobres mortais, estamos irremediavelmente submetidos a expor tudo aquilo que temos de melhor e pior. O que para alguns é a arte da desfaçatez, para mim, é o terreno das revelações.
No recente debate entre os candidatos a governador promovido pela Rede Pampa de TV, a candidata Yeda, diante de uma metáfora do candidato Collares, que caracterizou sua gestão à frente do Ministério do Planejamento como uma “vela que se apaga rapidamente”, perdeu a pose, e desferiu a resposta “tem vela que se acende nas esquinas”, uma alusão nitidamente preconceituosa para com os seguidores das religiões de matriz africana e, também, racista. Para além dos termos literais, ficou a imagem da senhora branca mandando o “negrão” se por no “seu lugar”. Absolutamente inaceitável.
O racismo é, antes de tudo, uma demonstração de covardia. É a tentativa mais torpe de justificar a dominação. A escravidão na América Latina e em outros continentes, dos negros e dos índios tinha como explicação, a simples teoria de que estes não eram humanos, portanto, era razoável tratá-los como animais. Ou seja, coloca-se no subjugado a culpa pela sua condição. A crueldade, a ganância e o atraso civilizatório dos dominadores é explicada pela origem étnica do dominado.
Nos tempos atuais, isto se reflete em múltiplas maneiras. A reação de Yeda é uma delas. Diante do fato de estar sendo “afrontada” por uma verdade que contradiz a sua imagem artificial, ela reagiu utilizando-se de argumentos, digamos, coloniais. A verdade era a lembrança do motivo pelo qual tinha sido demitida do Ministério do Planejamento no Governo Sarney: incompetência.
De forma covarde, Yeda tentou sair da saia justa desmoralizando o seu interlocutor ao explicitar sua raça e suas crenças, e portanto, na sua tortuosa cabeça, o transformando em um ser “inferior” e “incapaz” de julgar. Poderia se defender levantando um conjunto de realizações como Ministra, mas não o fez, talvez pela banal razão, de que não existem.
Collares acertou em cheio e ela encontrou a resposta no fundo da alma. Revelou-se por inteiro. Revelou não só o seu racismo, mas sua incapacidade de sustentar o seu discurso, a não ser pela truculência.
Ela pode querer ser a futura governadora do Rio Grande, porém não me venha com este velho e surrado jeito de fazer política. Este já deveria ter sido sepultado à décadas.
Espero que, como disse o Collares, seja apenas uma vela, rapidamente, se apagando.

Um comentário:

Brisa disse...

Ao menos na última pesquisa a madame já estagnou. Para extinguir basta um sopro.