segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Acordo EUA e União Européia [1]



Jeferson Miola [2]

Na esteira da mais profunda crise no centro do capitalismo, EUA e União Européia dão um passo arrojado com a assinatura do acordo de livre comércio entre essas duas regiões dominantes da economia mundial. O anúncio não significa a efetiva viabilidade do acordo, pois as vantagens competitivas dos EUA na agricultura, nos serviços e na indústria são enormemente desiguais, fator que pode eventualmente desencorajar sua adoção por uma Europa que efervesce na crise.
Nos últimos meses os EUA têm dado mostras de estar conseguindo manejar, ainda que tibiamente, a situação da sua economia, “passando da UTI para a enfermaria”; ao passo que a Europa continua enfrentando ameaças formidáveis, que vão da recessão duradoura às possibilidades de dissolução institucional e monetária.
As escolhas políticas aplicadas tanto nos EUA como na UE, que preservam os fundamentos especulativos do capital financeiro e priorizam medidas recessivas e supressoras de direitos sociais [o emprego é a principal evidência], enfraquecem a eficácia do enfrentamento da crise. Na UE, devido à moeda única, as dificuldades são ainda maiores.
Neste contexto de alternativas limitadas pelo revigoramento dos venenos neoliberais, o acordo entre os EUA e a UE adquire especial transcendência para ambos, e impacta fortemente a dinâmica do comércio mundial. O fluxo de comércio entre as duas regiões é nada menos que superlativo: aproximadamente 2 bilhões de dólares diários. Ou seja, num único mês supera o comércio interno anual do MERCOSUL, que ronda os 53 bilhões de dólares.
Esta zona transatlântica concentrará a área de maior capacidade tecnológica mundial e sedimentará a aliança estratégica para o exercício da hegemonia imperial nos campos da economia, da geopolítica, da cultura e bélico. A efetivação desse acordo esteriliza o papel da OMC e acaba com as aspirações dos países do Sul geopolítico, de aproveitar o comércio internacional como vetor para o desenvolvimento.
No fundo, a aliança EUA-UE concretiza importantes prioridades da política externa estadunidense. Significa a expansão do seu domínio na Europa para, desse modo, ombrear com a China na disputa por mercados e para assim também preservar sua enorme capacidade de determinação dos rumos dos assuntos internacionais.
O acordo com a UE é o segundo movimento significativo dos EUA no período recente. Em 2012, logrou criar a Aliança do Pacífico entre Chile, Colômbia e Perú com o México, seu sócio latinoamericano no NAFTA. A Aliança do Pacífico é o principal êxito da política estadunidense no hemisfério americano desde o fracasso retumbante da ALCA. É um enclave dos seus interesses na América do Sul, justo no momento histórico de maior potencial de conformação de uma comunidade de nações sulamericanas.
Esses dois movimentos combinados, que estendem “as asas” dos EUA de oeste a leste, do Pacífico aos Atlânticos Norte e Sul, conformam a mais extensa área de atuação de um único país em todo o Ocidente. E representa o fortalecimento da hegemonia ocidental liderada pela potência imperial justo no momento de levantes e turbulências no mundo islâmico.
Esta realidade coloca os países sulamericanos em posição de defesa e resistência, da mesma maneira que obriga a uma intensificação das relações Sul-Sul no comércio, na política e na cooperação. O MERCOSUL, que é o epicentro do processo de integração sulamericana, assume uma importância ainda mais transcendental nesta etapa do jogo geopolítico. A incorporação imediata da Bolívia e do Equador como sócios plenos e a manutenção dos atuais países integrantes, é um imperativo para a expansão territorial, econômica e política do bloco. É pura miragem imaginar acordos benéficos do MERCOSUL e seus países com as potências mundiais e seus blocos regionais.
A formulação de uma estratégia sulamericana de desenvolvimento a partir do MERCOSUL, que seja baseada em uma visão de economia política, aprofundando convergências em investimentos, infra-estrutura, tecnologias, ciência e políticas sociais, é condição essencial para a defesa da região frente à crise e à nova realidade.
Nunca antes a exigência de uma economia política em lugar das visões livre-comercistas e tecnocráticas foi tão aguda como no presente.



[2] Exerce a função de Diretor da Secretaria do MERCOSUL em Montevidéu. Este texto expressa opiniões de caráter pessoal que não devem ser consideradas como sendo da Instituição.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O PT na contramarcha da liquefação política


Jeferson Miola [*]



Se o “espírito” era “moderno”, o era enquanto estava decidido que a realidade se emancipasse da “mão morta” de sua própria história ... e isso só poderia ser logrado derretendo os sólidos [quer dizer, dissolvendo tudo aquilo que persiste no tempo e que é indiferente à sua passagem e imune ao seu escoamento]. Essa intenção requeria, por sua vez, a “profanação do sagrado”: a desautorização e a negação do passado e, primordialmente, da “tradição” - isto é, o sedimento e o resíduo do passado no presente. Portanto, requeria, da mesma forma, a destruição da armadura protetora forjada pelas convicções e lealdades que permitiam aos sólidos resistirem à “liquefação”.
... ...
... ...
O que foi quebrado já não pode ser colado. Abandonem toda a esperança de unidade - tanto futura como passada - vocês, os que ingressam ao mundo da modernidade fluida.

Zygmunt Bauman, em “Modernidade Líquida”.



1.
O julgamento do STF marca o fim de uma etapa da vida do PT no ano em que cumpre 33 anos de existência - apesar de não ter sido julgada a “instituição PT”.
A condenação dos Indivíduos que, no exercício de  funções dirigentes no PT cometeram equívocos indeléveis, foi capsiosamente convertida em condenação do PT. Os efeitos políticos do julgamento sobre o patrimônio ético, programático e simbólico do PT foram, portanto, profundos. E cobrarão um elevado tributo por um prolongado período de tempo.

2.
É sabido que a direita não desperdiçou a oportunidade de narrá-lo como o “mais importante julgamento nos 121 anos da história do STF na República”. Soube incrustá-lo com perspicácia no calendário das eleições municipais de 2012 – ainda que tenham sido frustrados nesse intento, como evidencia o desempenho eleitoral do PT, especialmente na cidade de São Paulo.
O padrão de unidade orgânica da direita na condução desse processo foi impecável. Por um lado, compactou o campo jurídico reacionário: o STF e o Ministério Público foram, nessa perspectiva, eficientes “células partidárias” no Poder Judiciário. O Supremo, aquela instância “Inatacável, Inalcançável e Divina”, conferiu uma falsa materialidade jurídica para a torpeza política.
Em outra frente, os segmentos da mídia hegemônica e monopólica, naturalmente concorrenciais entre si, desta feita se uniram na editorialização do processo e na narrativa subliminar contra o Partido.
A prioridade foi implicar centralmente o PT, mais além dos Indivíduos efetivamente implicados. Os Ministros do STF e a mídia foram os principais atores políticos e juízes do processo.  Fizeram militância obssessiva pela condenação do PT como instituição. O ativismo frenético de determinados ministros do Supremo, do Procurador-Geral da República e da mídia hegemônica substitiu a necessidade de maior proeminência dos partidos da oposição conservadora, que desempenharam um papel coadjuvante no combate ao PT e ao governo. Desse modo, simularam ser um julgamento “técnico”, livre de politização.
***
Nas circunstâncias análogas da história do Brasil em que houve uma confluência tão harmoniosa dos interesses das distintas estruturas reacionárias de Poder – no Judiciário, no Parlamento e na mídia hegemônica -  as resultantes foram instabilidade e fratura institucional: histerismo contra Getúlio Vargas, auto-golpe de Jânio Quadros, golpe militar de 1964, etc.
A conspiração no marco da institucionalidade, com aparência de normalidade democrática, é a modalidade contemporânea do que alguns autores chamam de “neogolpismo” [[1]] levado a cabo contra governos progressistas. Os “golpes institucionais” em Honduras e Paraguai, bem como as tentativas renitentes de desestabilização na Argentina, Bolívia e Equador são evidências deste fenômeno na região.

3.
A aplicação da “inovadora” – ou jurisprudencial, no vocabulário jurídico – tese adotada pelo Supremo para condenar os réus, foi considerada equivocada por um dos principais autores da teoria do “domínio do fato”, o professor e jurista alemão Claus Roxin [[2]].
Outros autores consideraram-no um “julgamento de exceção[[3]], pois atropelou os princípios do devido processo legal e subverteu a ordem jurídica democrática moderna advinda com as revoluções oitocentistas.
É certo, por isso, que não se tratou de um julgamento isento, imparcial e atento à técnica jurídica. Tivesse sido, por outro lado, um julgamento realizado à margem das Leis e da Constituição, não se estaria ante um processo judicial, e sim ante um regime totalitário. Não é esse, entretanto, o presente caso, ainda que seja nítido o intento conspirativo intínseco a ele.

4.
Por mais que se confirmem as inúmeras aberrações do julgamento, a realidade é que ele somente ocorreu e foi semioticamente espetacularizado porque existiu causa material concreta a motivar sua instalação: alguns ex-dirigentes do PT aplicaram os mesmos dispositivos do sistema ilegal de financiamento de campanhas adotado pelos partidos tradicionais. Considerando tais práticas, não há garantias de que os réus não seriam condenados mesmo num julgamento técnico e isento.
A partir desse fato gerador, porém, uma série de extrapolações foram feitas, e a mais estapafúrdia delas é o alegado “pagamento de mesada” regular a parlamentares durante o governo Lula – inclusive a parlamentares aliados e a integrantes do próprio PT.

5.
Determinados setores partidários, em especial os que pertencem à tendência política interna dos implicados, involuntariamente acabam reforçando a absurda idéia de que o PT foi condenado, e não exclusivamente os Indivíduos. Quando reivindicam solidariedade institucional do PT [cotização para pagamento de multas, por exemplo] como se o PT tivesse sido condenado, nada mais fazem que referendar e reforçar, no debate público, a imputação criminosa da direita contra o PT.
O conjunto do tecido partidário, mesmo sem nenhum conhecimento sobre as práticas “heterodoxas” empregadas, ainda assim foi respeitoso e solidário com os ex-dirigentes no curso desse julgamento thermidoriano. E continua sendo, pois não reivindica a aplicação das normas estatutárias relativas a casos como o presente.


6.
Concluído o julgamento no Supremo, porém, o PT não pode seguir refém do agendamento imposto pela mídia e reverberado nos parlamentos, no debate público e na vida cotidiana da sociedade. O julgamento do chamado “mensalão” está praticamente concluído – restam apenas prazos para recursos e para os trâmites finais. Mas os graves efeitos ocasionados ao PT são, desde logo, definitivos e irreversíveis, e sobre eles se deve intervir.
É momento, pois, de se refletir com uma sincera e desarmada autocrítica a respeito dos acontecimentos, de se entender as causas profundas da adoção de práticas degeneradas, e de se projetar políticas que recuperem a identidade original do PT no imaginário popular.
A realidade presente, por mais dolorosa que possa ser, oferece oportunidades importantes para se entender os acontecimentos que acometeram o Partido.

7.
No plano interno, da organização partidária, as sucessivas mudanças empreendidas nos últimos anos com o espírito de “flexibilizar” o funcionamento partidário – do financiamento à filiação – se converteram, potencialmente, em vetores para o abalo moral e ético.
A mediação é um componente vital da atividade política. Entretanto, em muitas vezes uma visão excessivamente pragmática prepondera sobre opções políticas que podem ser mais trabalhosas no curto prazo, mas que asseguram uma coerência estratégica.
Paradoxalmente, os petistas que foram julgados pereceram devido às próprias visões e critérios de construção partidária que definiram para o PT na condição de histórica maioria interna. Os acontecimentos demonstraram, finalmente, que a secundarização dos valores originais do PT é fonte de importantes problemas – mas jamais solução.

8.
Abrandando a visão socialista para tornar-se “palatável” e “moderno”, o PT abdicou da radicalidade política e se afeiçoou ao jogo político conservador e tradicional. Um dos reflexos disso foi a “parlamentarização da política”, ou seja, o estabelecimento da arena parlamentar como âmbito principalíssimo da disputa hegemônica e de garantia de governabilidade. A governabilidade congressual é considerada, nesse sentido, uma fatalidade incontornável.
Alianças exóticas e sem identidade programática substituem a coerência e a nitidez ideológica, deseducam o povo desencantando-o em relação à política, que acaba por criminalizá-la. A relativa secundarização dos espaços públicos de deliberação e de controle social por vezes é compensada pelas lógicas parlamentares de sustentação governamental.
No governo central, o PT tem explorado com timidez uma potente capacidade de mobilização da sua base social para defender e sustentar as mudanças e transformações e para contrarrestar a pressão por vezes chantagista do Parlamento. Priorizando as negociações inter-partidárias e as relações parlamentares, sempre se fica vulnerável às práticas do toma-lá-dá-cá.

9.
O adiamento na implementação de determinadas reformas durante os 10 anos no governo nacional, cobra um importante preço político. São reformas que, se não forem disputadas para que ganhem efetividade, comprometerão a construção de um estatuto democrático e plural para o país.
O Brasil contemporâneo reclama a realização das reformas tributária, política e do Judiciário. Além disso, necessita de mudanças que assegurem a democratização do acesso à produção e à difusão da informação e da comunicação pública.
De todas as mudanças que são urgentes, a reforma política e a democratização dos meios de comunicação são as de primeiro nível de prioridade.
10.
Sem reforma política com financiamento público de campanhas, com listas partidárias e com o fim das coligações proporcionais, a porta da corrupção eleitoral seguirá escancarada. Sem uma verdadeira reforma política os governos continuarão dependentes de alianças esdrúxulas, sem coerência programática e estruturadas na base do loteamento do aparelho de Estado.
O atual sistema político e eleitoral favorece o poder econômico e distorce a representação pública. É um campo fecundo para a mercantilização da política e para a deturpação da democracia. E justamente esse sistema político e eleitoral está na raiz do chamado “mensalão”.

11.
De outra parte, a preservação de um padrão permissivo do Estado em relação aos oligopólios midiáticos é fator que interdita a pluralidade e a democracia cultural. Os meios de comunicação no país pertencem a não mais que a um punhado de famílias e pastores de igreja. Essa realidade é um escândalo para um país laico, de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, 200 milhões de habitantes e portador de uma generosa pluralidade cultural.
Em alguns países europeus, o problema da regulação da propriedade dos meios de comunicação há muito foi superado. Lá, além de restrições muito efetivas ao exercício de monopólios e ao domínio de múltiplas mídias pelos mesmos conglomerados, o Estado é proprietário de emissoras públicas de rádio e televisão, para garantir a pluralidade de expressão das sociedades nacionais.
A democratização e a regulação da propriedade dos meios de comunicação [e não do conteúdo publicado] segundo o interesse público [de toda a sociedade, e não somente dos donos dos veículos] é um componente vital para a democracia, para a liberdade e para a pluralidade. Os monopólios verificados no Brasil não subsistiriam nas mais avançadas democracias do mundo.
12.
No curso de 2013, nos 33 anos de vida do PT, se realizará o PED [Processo de Eleições Diretas], e se desenrolarão os debates partidários com vistas ao 5º Congresso Nacional do Partido agendado para fevereiro de 2014.
Além dessas complexas lógicas internas, se deve prever para 2013 o aprofundamento dos ferozes enfrentamentos políticos e ideológicos que têm como horizonte a sucessão presidencial em 2014. Será um ano, pois, de continuidade e aprofundamento da “guerra anti-popular prolongada” iniciada em 2003 depois da assunção de Lula no governo central do Brasil.
O PT deve se planejar estrategicamente para fazer frente à natural exposição pública que terá ao longo desse ano. Deverá aproveitá-la para politizar o diálogo com o conjunto da sociedade, em especial com os setores que se referenciam nas políticas e práticas partidárias, assim como com os segmentos que acompanham com atenção e interesse os caminhos tomados pelo Partido.

13.
O êxito na construção do PT nesses 33 anos, que o guindou precocemente à Presidência da República, está em grande medida associado à capacidade de elaboração e persuação programática, de encantamento com o ideário de “um outro mundo possível” e de implementação de revolucionárias formas de fazer política e de gerir a coisa pública com ética e participação popular.
Esse patrimônio do PT - de confiança e esperança - é muito maior que o maior dos erros que eventualmente alguns militantes possam cometer individualmente. E é a base a partir da qual se pode lançar iniciativas que visem recuperar a imagem do Partido no imaginário social. Para isso, é necessário que se faça uma humilde autocrítica acerca dos acontecimentos que originaram o julgamento no STF, admitindo os equívocos cometidos por alguns ex-dirigentes partidários.
Nenhum evento desfavorável será capaz de subtrair a autoridade do PT para liderar uma disputa teórica e cultural na sociedade em torno de valores republicanos, democráticos e éticos. Somente com uma postura autocrítica o PT poderá assumir uma conduta ofensiva no debate público acerca da necessidade de mudanças no atual sistema político e eleitoral que impede a dignidade e a moralidade na política.

14.
Ainda não se produziu um balanço exaustivo a respeito dos 10 anos dos governos do PT no Brasil. Mas, mesmo contabilizadas as contradições e insuficiências dos governos Lula e Dilma, visíveis no padrão de acumulação capitalista, a realidade é que os governos petistas realizam o empreendimento mais generoso e civilizatório da história do país.
O ciclo do PT no governo, entretanto, não será eterno, ainda que que possa ser longevo. Por isso, é fundamental se refletir a respeito da institucionalização de mecanismos e práticas consagradores de uma nova cultura de gestão do Estado, para garantir avanços obtidos e para preservar as conquistas democrático-populares.
Na ausência de salvaguardas institucionais para a preservação desse patrimônio, num eventual revés eleitoral se poderá sentir uma desacumulação na capacidade de luta para a retomada do poder e para a acumulação de forças de um projeto transformador.
A estrutura de dominação, lapidada em 500 anos de opressão, exclusão e concentração da riqueza, provavelmente resistiria a décadas de governos petistas. A situação na Europa é exemplar: o Estado de bem-estar social, com seus 60 anos de edificação, tem sido a principal vítima na crise. Os poderosos – financistas à frente – preservam seus interesses às custas da destruição dos direitos de cidadania da maioria do povo.
O próximo período, que será de ferrenhas disputas com a oposição conservadora, permitirá ao PT difundir as conquistas dos 10 anos na condução do país. Será ocasião para conectar os avanços havidos com a necessidade de se reformar o Estado para incrustrar nele os compromissos com os direitos, com a democracia participativa, com a igualdade, com os ideais republicanos e com a justiça social.
Mereceria ser avaliado o cenário de convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte específica e exclusiva, desde que constituída numa correlação de forças favoráveis aos interesses democrático-populares, desde que possa refletir a conjuntura de avanço do campo progressista e de esquerda.

***

O PT não pode se converter num tipo institucional do gênero Forrest Gump e fazer de contas que nada passou ou então que o tempo se encarregará de fazer as coisas passarem.
Na vida real - no dia-a-dia das escolas, das repartições públicas, das empresas, dos lares -, as dificuldades enfrentadas pelo PT têm uma audiência atenta. Por razões óbvias: o PT lidera o governo nacional, e é a mais auspiciosa invenção da esquerda brasileira e a mais renovada tradição democrática e socialista do Brasil.
Desprezar essa realidade não é o melhor critério político e, menos ainda, expressão de sensatez. O PT tem condições de assumir a iniciativa política na conjuntura, em especial buscando politizar o debate sobre questões essenciais para o avanço republicano e democrático. De outra maneira, será agendado pela oposição conservadora e seus braços institucionais no judiciário e na mídia hegemônica, ficando numa posição defensiva e respondendo no terreno deles.
A reiteração dos vínculos do PT com sua originalidade é o principal antídoto contra a liquefação política no contexto da “modernidade líquida”. E, também, garantia de que o Partido não se transforme num simples e mais um partido da ordem – risco alertado por Florestan Fernandes na eventualidade do PT abdicar dos valores que constituem e que justificam sua origem.



[*] Foi Coordenador Executivo das edições do Fórum Social Mundial realizadas no Brasil de 2001 a 2005.
[[1]] Ver artigo “Estados Unidos, Venezuela e Paraguai”, de autoria de Samuel Pinheiro Guimarães Neto, publicado na Agência Carta Maior, http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20570 e entrevista ao Jornal Folha de São Paulo em 29/06/2012 do mesmo autor: “Diplomata vê onda golpista na América do Sul”, http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/51567-diplomata-ve-onda-neogolpista-na-america-do-sul.shtml
[[2]] Entrevista do jurista Claus Roxin à Folha de São Paulo, em 11/11/2012 – “Participação no comando de esquema tem de ser provada” - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/77459-participacao-no-comando-de-esquema-tem-de-ser-provada.shtml.
[[3]] Entrevista de Wanderley Guilherme dos Santos ao Valor Econônico de 21/09/2012 – “Mensalão será um julgamento de exceção” - http://www.valor.com.br/mensalao/2838584/mensalao-sera-um-julgamento-de-excecao-diz-wanderley-guilherme.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Gaza é transformada na Guernica do século 21


Jeferson Miola [*]
Publicado no site brasilianas.org http://www.advivo.com.br/materia-artigo/gaza-e-transformada-na-guernica-do-seculo-21 e no blog do Luis Nassif - http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/gaza-a-guernica-do-seculo-21

A história é uma lição para se refletir, não para se repetir.
Carlos Drummond de Andrade

A pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo”.
Pablo Picasso, autor de “Guernica”, obra-prima executada cinco meses depois dos devastadores ataques à cidade.


Israel converte Gaza na Guernica do século 21. Esta é uma terrrível estupidez que ofende a condição humana. Com a complacência criminosa das potências que mandam no mundo.
Em 26 de abril de 1937, no contexto da Guerra Civil Espanhola, a pedido do General Francisco Franco, a aviação nazista de Adolf Hitler - escoltada por caças da força aérea fascista de Benito Mussolini -, bombardeou Guernica, cidade-símbolo dos bascos. Aquele ataque mortífero de 75 anos atrás serviu como laboratório e campo de testes para as operações do Terceiro Reich na Segunda Guerra mundial, que começaria dois anos mais tarde.
Guernica foi o ensaio nazi-fascista de onde surgiu a estratégia de “bombardeios científicos”. A guerra convencional, até então travada em combates entre exércitos em terra, deu lugar  à chamada “guerra total”. A Luftwaffe [aviação da Alemanha nazista] empregou pela primeira vez bombas incendiárias e de fragmentação nos lançamentos contra Guernica. Foi produzida uma destruição impressionante – 80% dos edifícios transformados em escombros, a infra-estrutura elétrica, de água e transportes colapsada e centenas de cidadãos bascos mortos.
Guernica serviu como o palco no qual os nazi-fascistas puderam sedimentar os novos conceitos e princípios de guerra: o terror contra populações civis, a devastação material, a desmoralização dos inimigos e a intimidação psicológica. Dois anos depois de Guernica, em setembro de 1939, a Luftwaffe bombardeou Varsóvia, iniciando a longa vaga de bombardeios aéreos durante a Segunda Guerra mundial, cujo desfecho foi a explosão atômica de Hiroshima e Nagasaki, promovida pelos EUA em agosto de 1945.
O governo de Israel transforma a estreita Faixa de Gaza na nova Guernica da história da humanidade. A diferença é que Franco, Hitler e Mussolini devastaram Guernica em três horas, ao passo que Israel dizima o povo palestino a conta-gotas, dia após dia, ano após ano. O ciclo vicioso da monstruosidade contra o povo palestino se repete a cada véspera de eleições em Israel. Para angariar votos internamente, os israelenses praticam o martírio de inocentes – crianças, mulheres e homens palestinos de todas as idades são barbaramente mortos.
Os palestinos, como numa ironia da história, parecem estar pagando o preço do sofrimento imposto às populações judias durante o holocausto. Confinamento, segregação e terror fazem parte do léxico da guerra de extinção promovida por Israel. Muitos vivem a humilhação dos campos de refugiados, vítimas de ódio racial, observando impotentes a ocupação ilegal do território que pertence a eles. O direito a viver é uma simples ilusão de sobrevivência para quem sofre a devastação das suas cidades, das suas escolas, dos seus hospitais, das suas casas, das suas famílias e das próprias vidas.
Repudiar a monstruosidade do passado não é suficiente. O essencial é impedir sua repetição. As potências mundiais, todavia, não só permitem a repetição daqueles métodos bárbaros, como apoiam militarmente, politicamente e materialmente a execução deles. 
O mundo não encontrará a paz enquanto não houver uma resolução aceitável e digna do conflito do Oriente Médio. Este conflito é produto da imposição à força do Estado de Israel como um enclave naquela região. As potências mundiais, com os EUA à frente, foram responsáveis diretos para sua origem, e são o único fator que pode dar fim àquela barbárie.
Mas, com sua complacência e seu jogo de interesses na região, tristememente parodiam Guernica em Gaza. Esta atitude configura não só um crime de lesa-humanidade, mas encaminha o mundo para um contexto convulsionado e imprevisível.
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[*] Foi Coordenador Executivo das edições do Fórum Social Mundial realizadas no Brasil de 2001 a 2005.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

A direita brasileira e o “internacionalismo reacionário”



Jeferson Miola [*]
Publicado na Agência Carta Maior - http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5864

Políticas golpistas disseminam-se pelo continente americano. À medida em que os governos progressistas e de esquerda vão sendo sucessivamente eleitos, reeleitos e alguns re-reeleitos, novas modalidades conspirativas vão sendo testadas e postas em prática.
A dependência e submissão não só econômica, mas ideológica e cultural dos países da região às potências dominantes, promovidas pelas burguesias e oligarquias nacionais, faz parte de uma época superada do passado. A  realidade atual, de independência e ao mesmo tempo de integração sul-sul, entretanto, não é aceita tanto pelas burguesias e oligarquias colonizadas quanto pelo capital estrangeiro colonizador.
Entre os anos 1960 e 1980, a submissão dos países latino-americanos aos interesses imperiais era processada à força, com a imposição atemorizadora dos canhões e das metralhadoras. Naquela época, multiplicaram-se os golpes de Estado para a implantação de sangrentas ditaduras civis-militares. Os atentados à democracia não somente eram do conhecimento dos EUA, como contavam com seu protagonismo ativo em inúmeros terrenos: na concepção intelectual, no financiamento, na inteligência, no treinamento e no armamento dos setores civis-militares golpistas.
As ditaduras instaladas contavam com inconfessável e claro apoio das classes dominantes, dos poderes judiciais e das imprensas nacionais de cada país. As ditaduras foram funcionais aos interesses do capital estrangeiro, assim como dos capitais nacionais nelas engajados. Os principais conglomerados financeiros, empresariais, econômicos e midiáticos que exercem enorme poder na atualidade, foram extraordinariamente fermentados naquele período.
Recentemente foram publicados resultados parciais das averiguações efetuadas pela Comissão da Verdade do Brasil. Se pôde finalmente saber que cerca de 2.000 índios da região norte do país foram dizimados pela ditadura civil-militar para assegurar projetos privados. Parte dos índios foram torturados e fuzilados para delatar os militantes da guerrilha do Araguaia. Mas algumas áreas foram apropriadas e os índios residentes mortos, para viabilizar a instalação de empresas multinacionais e grandes empresas nacionais que se dedicam ainda hoje à exploração da terra, dos recursos naturais e das riquezas da região.
Por essa razão o restabelecimento da verdade, da memória e da justiça relativamente a aquele período é ardorosamente obstruído. Se repete o mantra de que se deve “deixar de olhar para trás”. Os defensores desta idéia cínica buscam, com isso, ocultar a verdade sobre a atuação sombria que tiveram num passado não menos sombrio.
A mídia que se organiza sindicalmente na SIP [Sociedade Interamericana de Imprensa] editorializa em todos seus veículos associados esta visão amnésica. No campo jurídico, setores dos poderes judiciários obstruem os trâmites legais para a revisão das leis que anistiaram e indultaram os torturadores.
A Argentina é, neste caso, honrosa exceção e exemplar paradigma.
***
Com a derrubada das ditaduras civis-militares, veio uma onda de governos conservadores de índole liberal-democrática: Alfonsin na Argentina, Tancredo/Sarney no Brasil, Sanguinetti no Uruguai, Patrício Aylwin no Chile, Wasmosy no Paraguai. Tiveram ciclo único de duração, necessário para conduzirem as transições conservadoras para o atual estágio de democracia liberal.
Os anos 1990 foram da avalanche de eleições de governos neoliberais: Menem na Argentina, Collor/FHC no Brasil, Lacalle/Sanguinetti/Batlle no Uruguay, Andrés Pérez na Venezuela, Eduardo Frei/Ricardo Lagos no Chile.
Nesta etapa de domínio neoliberal, o “deus-mercado” se encarregou de dar continuidade ao empreendimento da acumulação capitalista que antes necessitava de ditaduras. As democracias foram novamente vilipendiadas, porém dessa vez dentro da institucionalidade e, por isso mesmo, com uma fachada de legitimidade.
Aqueles governos implementaram as chamadas “reformas modernizadoras” do capitalismo na fase de globalização financeira: privatizações, reeleições presidenciais, destruição das políticas sociais de Estado, reestruturação do mundo do trabalho com eliminação de direitos, etc. Tais reformas foram asseguradas através de mudanças constitucionais por maiorias parlamentares “arregimentadas em espécie”. 
No período da êxtase neoliberal, o continente testemunhou a mais exuberante alavancagem dos interesses do capital financeiro, das finanças globais e das economias centrais do capitalismo, em coordenação com os capitais nacionais da região. A ALCA, Área de livre comércio das Américas, por um lado representava o mais ambicionso projeto de colonização dos EUA para a região, e também significava regionalmente o estágio superior da ordem neoliberal e da inserção passiva e subordinada das economias nacionais no mundo globalizado.
A conspiração contra a democracia, naquela época, se dava através da perda de soberania e de autonomia dos povos e nações. A transferência de poder real ao capital financeiro impondo os “contratos” garantidores de sua livre circulação e especulação, atentou contra a auto-determinação dos povos. Converteu as eleições em mero fantoche de uma pantomima democrática que não admitia alternativas ao pensamento único. Em lugar do exercício da consciência, o sistema se alimentava da chantagem feita sobre sua própria debilidade: ruim com o neoliberalismo deletério e devastador; o caos sem ele! 
***
O mapa político-ideológico da primeira década do século 21 começou a ser desenhado nos finais dos anos 1990 e início dos 2000. Os efeitos sociais de décadas de estagnação econômica e de sacrifícios impostos animaram o surgimento de amplas resistências aos governos neoliberais. A legitimidade do Consenso de Washington foi posta à prova, devido à falência de suas promessas de prosperidade, paz e progresso.
Começaram, então, as vitórias de partidos progressistas e de esquerda em muitos países do hemisfério, principalmente da América do Sul. Depois da vitória eleitoral de Chávez na Venezuela em 1999, se seguiram as conquistas de Lula, Néstor Kirchner, Tabaré Vázquez, Evo Morales, Rafael Correa, Daniel Ortega, Fernando Lugo, Maurício Funes. Outros presidentes com inclinações nacionais-desenvolvimentistas e populares, como Michele Bachelet e Manuel Zelaya, igualmente foram eleitos nessa mesma toada.
Mesmo com as contradições, os limites e as singularidades de cada um dos processos nacionais, é evidente que se está em um momento histórico de deslocamento de interesses e de poder nas políticas domésticas, assim como nas relações sul-norte e sul-sul. A nova agenda que está sendo construída na região representa ameaças aos setores dominantes, da mesma maneira que as agendas das reformas populares e de distribuição de renda os ameaçavam nas décadas de 1960 e 1970 e que foram, então, pretexto para os golpes civis-militares.
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Na atualidade, os golpes clássicos - com exércitos, repressão, baionetas e Estados de Sítio – não passariam. Ao contrário, desencadeariam fortes resistências sociais e populares. O ciclo em curso, de desenvolvimento com distribuição de renda e diminuição da pobreza, lamentavelmente tem como contrapartida novas modalidades conspirativas levadas a efeito pelas elites conservadoras e de direita. Ou, como analisa Samuel Pinheiro Guimarães [ ], “as classes tradicionais hegemônicas promovem um neogolpismo na América do Sul, e a democracia está em risco na região”.
A chantagem eleitoral e a falácia da inevitabilidade do neoliberalismo – os venenos mortais contra a democracia nos 1990 – cederam lugar a investidas conspirativas não menos sutis, porém muito ameaçadoras.
Em abril de 2002, com a participação dos EUA, a direita venezuelana sequestrou Chávez, usurpou seu mandato popular e tomou posse em um rito sumário e ilegal. Tudo televisionado. Passados poucos dias, os golpistas foram desalojados, e apesar dos crimes cometidos, receberam o magnânimo indulto de Chávez. Após aquele evento, todas as demais tentativas de golpes que se sucederam, prescindiram das armas. A direita golpista passou a atuar no “terreno institucional”, via os poderes Legislativo e Judiciário. A sabotagem sistemática, a recusa a participar de eleições e ataques histéricos cotidianos da mída do país passaram a ser os métodos de ação da direita venezuelana.
Em Honduras, o Presidente Manuel Zelaya foi arrancado de pijama de sua residência e enviado para o exílio na Costa Rica. O Judiciário o condenou, em julgamento viciado e sem o devido processo legal, e mandou executar a ordem judicial durante a madrugada do dia 28 de junho de 2009. Um golpe desferido por partidos políticos da direita hondurenha em cumplicidade com o Judiciário e setores midiáticos e apoiados pelos EUA. Depois de declarar compromisso com a reforma agrária e de propor ao congresso reformas constitucionais de recorte popular, o mandatário teve surrupiado o mandato conferido pelas urnas, com a alegação de “traição à pátria”.
Em setembro de 2010, a pretexto de uma crise com policiais em greve, foi tentado um golpe de Estado contra Rafael Correa, no Equador. Novamente a oposição de direita tentou surrupiar à força o mandato que perdera nas urnas. A elite equatoriana, uma simbiose do “american way of life” inclusive na moeda local dolarizada, faz reverberar mundo afora que o país vive um totalitarismo que tolhe o direito de expressão e a liberdade de imprensa. O patético é que o país que asila o principal símbolo da liberdade de expressão no mundo contemporâneo, o fundador do wikileaks, Julio Assange, sofre tais imputações.
Na Bolívia, Evo Morales enfrenta seguidamente iniciativas conspirativas que visam desastibilizá-lo. As oligarquias afetadas pelas políticas do recém erigido Estado Plurinacional da Bolívia, recebem apoio dos EUA no intento de derrubar Evo. Procuram, desse modo, recuperar o poder de controlar as riquezas minerais e energéticas do país segundo os interesses estrangeiros. A classe dominante boliviana se prevalece de medidas judiciárias e legislativas, e também de infiltrações e insuflações dos movimentos sociais indígenas e de ongs.
No Paraguai, em junho passado a direita golpista do país derrubou Fernando Lugo no que pode ser considerado o mais rápido e breve juízo político que se tem notícia na história. Em menos de 24 horas, os conspiradores iniciaram o impeachment de Lugo, o intimaram, seccionaram no Congresso e deliberaram pela destituição do cargo. Em seguida, o Judiciário ratificou a medida e a mídia construiu o ambiente de “normalidade democrática”. Apoiados pelos EUA e pela Igreja Católica, os golpistas paraguaios alegaram como motivo a instabilidade social, quando a real motivação para o golpe foi a reforma agrária iniciada por Lugo e a desconcentração de terras que se encontram em mãos de particulares e de mega-empresas estrangeiras.
Na Argentina, onde a memória da ditadura civil-militar dói em carne viva – mais de 30 mil pessoas foram mortas ou desaparecidas –a fração latifundiária-oligárquica da classe dominante, em articulação com os meios de comunicação e com o reacionarismo urbano-industrial-financeiro, tentou provocar um blecaute no país nos anos 2008/2009. Instalaram um clima de instabilidade, desabastecimento, sabotagem e de constantes ameaças de instalação de juízo político.
A direita argentina difama sistematicamente o governo com impressionante virulência – acaba danificando a imagem do próprio país – junto a instâncias estrangeiras, como a SIP, o FMI, Banco Mundial, OEA e outras. Vende internacionalmente uma idéia de caos e inviabilidade, tentando angariar simpatia externa para uma investida final. Com a implementação da lei de democratização dos meios de comunicação, uma direita histérica e irascível ataca o governo e a presidente Cristina Kirchner com ofensas e calúnias que em qualquer país do mundo seriam suficientes para uma condenação judicial. O grupo Clarín, que é associado à SIP, consolidou seu monopólio atual ilegalmente durante a ditadura [também recebeu inestimável apoio de Menen]. E hoje é o principal instrumento da guerra em curso contra o governo Cristina.
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No Brasil, a direita tentou desde o primeiro mandato de Lula levá-lo ao juízo político no Congresso. Com o franco apoio da mídia, e através de artimanhas tramadas com o Poder Judiciário, a oposição reacionária foi incansável durante os dois mandatos presidenciais de Lula. O Presidente teve aproximadamente 85% das manchetes e reportagens contra ele, mas apesar disso concluiu o último mandato com mais de 85% de aprovação popular. As políticas executadas durantes seus governos, que trouxeram à vida civilizada mais de 40 milhões de pessoas e que melhoraram a vida de outros milhões, impermeabilizaram Lula ante uma imprensa, uma oposição e um judiciário inescrupulosos e sem limites na sua ânsia golpista. É uma performance pessoal capaz de irritá-los, desnorteá-los e desencadear neles um sentimento de ódio e, ao mesmo tempo, de impotência.
A direita golpista arquitetou com maestria seus movimentos políticos e a judicialização da política. Colocaram o julgamento do chamado “mensalão” no coração das eleições municipais deste ano. Nem mesmo paternidade do PSDB deste esquema e a precedência das ações judiciais contra dirigentes tucanos comoveu o Supremo Tribunal a iniciar o julgamento pelos agentes daquele partido.
O STF foi partidarizado, e convertido no braço conceitual e propagandístico da mídia e da oposição. O julgamento foi montado como uma poderosa arma de “destruição semiótica” [ ] do PT. O STF abala a institucionalidade democrática e promove o que Wanderley Guilherme dos Santos caracteriza, com rara pertinácia, como sendo “um julgamento de exceção” [ ].
Nesta recém-chegada primavera de 2012, a direita, a mídia, o Judiciário e os parlamentares do DEM, PSDB e PPS comandam uma verdadeira sinfonia conspirativa. Seguem um script há muito manjado. Primeiro a revista Veja publica uma reportagem baseada em supostas conversas havidas por um sobrinho de um colega de escola do filho do vizinho de um delator que ouviu o porteiro da fábrica do patrão de nome “Civita Gurgel Mendes-Barbosa Marinho Serra Maia” comentar que Lula mandou assassinar um ex-prefeito do PT e que ele também comandava o “mensalão” desde a garagem do Planalto no final do expediente de trabalho. Uma fantasia delirante!
Em seguida, o Procurador-Geral da República, com a solenidade daqueles homens “justos e isentos”, comenta com aparente parcimônia que “ainda que o assunto seja gravíssimo”, se deve acompanhar a “evolução da denúncia” – mas não faz menção à presumível inocência quando não há provas e, neste caso, razoabilidade.
Os Ministros do STF, também aparentando isenção magistral, afirmam ser necessário confirmar a veracidade, “mas que se tratam de questões seríssimas, que mereceriam rigorosa apuração”. No alto de sua magnanimidade, os doutos do Supremo anunciam que “ainda não é momento para um depoimento do ex-Presidente” [sic]. Mas ansiam pela hora de levá-lo ao banco dos réus.
Com a senha dada, a mídia se lambusa em editoriais, reportagens, colunas, programas e toda sorte de manipulação escrita, em áudio e em vídeo. Na fase inicial do julgamento do chamado “mensalão”, com a maior desfaçatez o ministro Joaquim Barbosa aludiu que em depoimento no curso da ação 470, a própria Presidente Dilma [quando então Ministra da Casa Civil] “teria se surpreendido” com a facilidade de aprovação de determinado projeto no Congresso. Ele quis insinuar, com isso, que Dilma “teria suspeitado” que a bancada governamental “teria sido comprada”.
Eles têm alguns objetivos fundamentais. Um deles é implicar Lula no caso e arrastá-lo para a arena midiática-judicial para, posteriormente, atingir também Dilma. Querem inviabilizá-lo eleitoralmente e, na continuidade, inviabilizar o projeto reeleitoral de Dilma. Como acusação para sustentar isso, basta uma invenção estapafúrdia da revista Veja que o Procurador-Geral replica, os ministros do STF dão trela e a mídia promove a maior fanfarra.
Outro objetivo é atingir moralmente Lula e seus dois mandatos presidenciais. Ao lado da judicialização da política, o apelo hipócrita à moralidade é uma espécie de “bala de prata” da direita golpista. Querem escrever uma nova narrativa a respeito dos mandatos presidenciais do Lula, manchando-os como se tivessem sido infestados de corrupção e imoralidades. A simples confrontação com a realidade e com a razão objetiva evidencia que em todos os aspectos [anotadas algumas contradições ideológicas] Lula realizou uma obra sob todos os ângulos muito superior aos 500 anos [com breves intervalos] que eles comandaram o Brasil. Como eles não conseguem transplantar as evidências dos fatos e do mundo real, apelam para a desconstituição simbólica através de farsas.
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A classe dominante brasileira não aceita e não se conforma que o Brasil tenha se transformado profundamente e se constituído numa verdadeira Nação pelas mãos de um operário metalúrgico, nordestino migrante, um sobrevivente da pobreza e sem curso universitário. Eles até reconhecem que Lula não fraturou a ordem burguesa e que presidiu o Brasil beneficiando o povo brasileiro sem colocar em risco seus interesses enquanto classe dominante; mas lhes tira o sono que a autoria desta extraordinária obra é dele.
Foi Lula, e não qualquer representante orgânico da classe dominante, quem modernizou o capitalismo brasileiro, ainda que este fato represente uma derrota ideológica-cultural para a equerda no longo prazo e um retrocesso na acumulação da luta socialista e por uma sociedade igualitária.
Lula alçou o Brasil ao seu lugar merecido no mundo. E se converteu em um líder mundial reconhecido e, não raras vezes, imitado inclusive por oportunistas de direita para vencerem eleições nos seus países. Lula é doutor honoris causa em muitas universidades do mundo e referência obrigatória em consagradas academias. Isso porque foi o melhor professor que o oprimido e espoliado povo brasileiro já teve. Pela primeira vez em 150-200 anos da história do Brasil, jovens descendentes de famílias cujos ancestrais sequer foram alfabetizados, conseguem frequentar os bancos da universidade.
Para o povo brasileiro e para a história do Brasil, Lula transcendeu a condição humana, convertendo-se desde já num mito em vida. O ódio e o recalque são os sentimentos nutridos pela classe dominante brasileira, porque não foi um filho seu que esteve à frente da transformação do Brasil.
Não lhes conforta a idéia de que Lula faça parte da história, enquanto seu expoente maior, o príncipe FCH, tão somente faça parte de um triste passado que ensinou o be-a-bá da destruição de uma Nação.
A classe dominante não arreda pé dos seus interesses, quando os sente ameaçados por políticas de distribuição de renda, de justiça social e de igualdade. Ela luta, com todos os métodos à sua disposição – sobretudo os mais baixos e desonestos – para preservar seus interesses. Sempre foram assim, tanto no passado como estão sendo no presente. Em todas as partes do mundo, e também no Brasil.
A direita política é, por natureza, golpista e conspiradora quando diante de projetos que possam contrariar seus interesses históricos. A direita é, por definição, apátrida. Ela se articula num tipo de “internacionalismo reacionário” para conservar seus interesses de classe dominante que é causadora de exclusão, de opressão e de alienação – o Plano Condor é eviência disso.
Ao “internacionalismo reacionário”, deve ser contraposto o internacionalismo democrático-popular e solidário, encharcado em uma visão libertária e democrática do mundo.
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[*] Foi Coordenador Executivo das edições do Fórum Social Mundial realizadas no Brasil de 2001 a 2005.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Derrota inclemente



Derrota inclemente

Jeferson Miola


O pensamento racional claramente aconselhava os troianos a suspeitarem de um ardil quando acordaram verificando que todo o exército grego desaparecera, deixando apenas estranho e monstruoso prodígio à frente das muralhas da cidade. O procedimento racional deveria ter sido, ao menos, examinar o cavalo em busca de inimigos, tal como foram veementemente aconselhados por Cápis o Velho, Laocoonte e Cassandra. Essa alternativa esteve presente e bem viável, mas foi posta de lado em favor da autodestruição.
Barbara Tuchman, em “A marcha da insensatez”.


Barbara Tuchman, em seu memorável livro “A marcha da insensatez”, desvenda a tendência paradoxal que possuem autoridades, políticos e instituições de produzirem políticas contraproducentes que, ao fim, contrariam seus próprios interesses.
Como parte do exaustivo apanhado histórico que realiza, a autora estadunidense examina desde a Guerra de Tróia, passando pelos papados da Igreja Católica na Idade Média, até os anos 1970, em que analisa as armadilhas que os EUA produziram contra si mesmo com a estratégia de guerrar no Vietnã.
Em suas brilhantes análises, a autora demonstra como decisões desatinadas e carentes de racionalidade em algumas realidades produziram destruição e tragédias. Diz ela, com uma crítica lancinante: “sendo óbvio que a perseguição de desvantagem após desvantagem é algo irracional, concluímos, em conseqüência, que o repúdio da razão é a primeira característica da insensatez. As sucessivas medidas adotadas com respeito tanto às colônias americanas como quanto ao Vietnã eram tão nitidamente baseadas em atitudes preconceituosas e tão perfeitamente contrárias ao senso comum, às inferências racionais e aos conselhos judiciosos, que, como insensatez, falam por si mesmas”.
As escolhas do PT para as eleições municipais de Porto Alegre merecem ser vistas sob o prisma de uma verdadeira “marcha da insensatez”. O PT em Porto Alegre não sofreu uma derrota qualquer; foi uma derrota inclemente. E não foi uma derrota de um PT qualquer, mas a derrota de um PT que acumulou a experiência de governar a cidade por 16 anos e que construiu importantes referências para o país e para o mundo de resistências e de construção de alternativas democráticas ao neoliberalismo.
O desempenho em Porto Alegre não guarda absolutamente qualquer coerência com o padrão de desempenho do Partido no Rio Grande do Sul e no Brasil. Tanto no estado como no país, foi a sigla mais votada, a que mais ampliou o número de prefeituras conquistadas e a que teve o maior incremento do número de vereadores eleitos.
Desde sua fundação, em 1980, o PT participou com candidatura própria de todas as eleições municipais em Porto Alegre [[1]]. Em 2012, o PT alcançou o pior desempenho em toda essa história eleitoral na cidade. Até mesmo pior que da primeira vez que disputou o pleito, em 1985 - há 27 anos, nos primórdios da construção partidária. O candidato do PT no recente pleito fez apenas 9,64%, o que significam 103.039 votos a menos que na eleição anterior e 194.442 votos a menos que o desempenho histórico médio do PT. [Tabela I]
O PT também teve o pior desempenho para a Câmara de Vereadores de PoA, elegendo a menor bancada desde 1988 [[2]], reduzindo-a de 7 para 5 vereadores. E igualmente viu diminuir 27.418 votos da legenda e 17.338 votos nominais de candidatos a vereador em comparação com a eleição passada. [Tabela II]
 Das oito eleições a prefeito municipal em Porto Alegre nos últimos 24 anos [[3]], é a primeira vez que o PT fica excluído do segundo turno, e a única vez em que o candidato a prefeito do PT faz menos votos que os do Partido para a Câmara de Vereadores [GráficoII]. É uma evidência de que menos eleitores dos vereadores votaram no candidato a prefeito. Por isso, não seria razoável validar a visão de que “ ‘quando se ganha, é mérito do Indivíduo; e quando se perde, a responsabilidade é do Partido”.

 Em 2012, das 133 cidades do Brasil com mais de 200 mil habitantes, o PT disputou eleições com candidatos próprios em 87 delas. Nessas 87 localidades, apenas 8 candidaturas tiveram desempenho inferior a 10%, e a de PoA foi uma delas. Com o percentual de 9,64, somente conseguiu ficar à frente das candidaturas do PT em Campina Grande, PB [1,17%], Vila Velha, ES [2,33%], Barueri, SP [2,36%], Imperatriz, MA [2,83%], Campo Grande, MS [4,87%], Ananindeua, PA [5,24%] e Guarujá, SP [5,35%]. [Tabela III, em anexo]
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Com tais resultados, o PT de Porto Alegre foi o principal desvio do padrão nacional e estadual, mesmo no contexto de um ambiente eleitoral submetido a influências relativamente idênticas em todo o país. Não há um só fenômeno local que pudesse ser relacionado com esta situação.
A conjuntura eleitoral foi influenciada por uma pluralidade de fatores, tanto intrínsecos quanto exteriores à candidatura do PT. Com pesos e ênfases diferenciados, acabaram por determinar o resultado final.
A exploração teledramatúrgica do chamado “mensalão”, por exemplo, ocorreu de norte a sul do Brasil, de modo que as consequências eleitorais dessa questão, assim como de outras questões espinhosas para o PT, teriam sido relativamente similares em todo o país. Até se poderia presumir que em São Paulo o efeito possa ter sido mais drástico, mas, mesmo assim, a candidatura do PT, que iniciou o processo eleitoral com menos de 3%, disputará o segundo turno com reais condições de vitória.
Por outro lado, não existem indicadores de que o PT em PoA tenha deixado de ser preferido por uma considerável parcela da população [entre 22% e 25% do eleitorado]. Isso significa que 1 a cada 4 eleitores preferem o PT, mas somente 1 entre 10 eleitores votaram no candidato do Partido. Isso significa que o candidato do PT foi rejeitado.
O que sim se constata como fenômeno importante no campo da esquerda é o crescimento do PSOL [[4][. Apesar da prática sectária e do “lacerdismo moralista”, parece se beneficiar da convergência da política ao centro, atraindo eleitores petistas [e de outras siglas] com discursos e propostas de esquerda. Esse parece ser um fenômeno nacional, que é replicado no RS.
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Neste cenário, cabe perguntar: que outros fatores explicam a retumbante derrota do PT em Porto Alegre? Seria improdutivo e arrogante menosprezar, neste sentido, os erros cometidos pelo próprio PT no município.
A inclemente derrota do PT em PoA é o ponto culminante de uma trajetória descendente que se iniciou em 2000, quando houve uma primeira fratura interna. Nas eleições de 2008 e 2012 o PT sofreu uma erosão eleitoral na cidade. Assim como nas eleições de 2008, em 2012 o desempenho partidário ficou muito abaixo da média histórica do período 1985/2008 em todos os quesitos. [Tabela 1]
De outra parte, a derrota deste ano condensa vários elementos da crise em que se encontra o PT de PoA. É uma crise que vem de longa data, determinada pela diminuição da capacidade dirigente e militante; pela perda de inserção nos movimentos sociais e comunitários e, não menos importante, pela debilidade organizativa e de direção. Se assiste à perda de organicidade e o comprometimento da capacidade de intervenção e de iniciativa na realidade política e no debate público na cidade.
Também contribui para a diminuição da influência partidária o crescimento da hegemonia dos partidos tradicionais, que se mimetizaram programaticamente. Com oportunismo, distorcem a realidade e proclamam a continuidade das políticas gestadas pelo PT. Aplicam o conhecido truque eleitoral de “manter o que é bom e mudar o que está mal”.
Todos estes fatores pesaram na determinação da derrota, é verdade. Adicionalmente, entretanto, deve-se reconhecer que a lógica partidária de instrumentalização da política com o “repúdio da razão” está na raiz desta crise. Recordemos Barbara Tuchman: “Nas operações governamentais, a impotência da razão é algo muito grave, porque afeta tudo aquilo que se encontra ao alcance — cidadãos, sociedade, civilização. Era problema que preocupava profundamente aos gregos, iniciadores do pensamento ocidental. Eurípedes, em suas últimas obras, concorda em que o mistério do erro moral e da insensatez não pode ser atribuído a causas externas, à peçonha de Ate — como se fosse uma aranha — ou a qualquer intervenção dos deuses. Homens e mulheres têm que aceitar esse ônus como parte da condição humana”.
O PT parece não ter aprendido com os fracassos de eleições anteriores, quando a luta interna por poder e por destruição dos adversários internos – em claro “repúdio da razão” – foi desenvolvida cegamente, acima da realidade e desprezando a perspectiva estratégica. As experiências das prévias partidárias para a escolha de candidaturas sempre foram traumáticas, porque baseadas na confrontação pura e simples entre campos internos, em alianças artificiais, em meras disputas por poder.
O processo para a definição da candidatura do PT em 2012 repetiu os equívocos do passado. Baseou-se no critério de maiorias artificiais, com maquinações e arranjos feitos da noite para o dia e sem bases programáticas. Este método não leva em conta que a sociedade, especialmente os setores simpáticos ao PT, presta muita atenção nas escolhas que o Partido faz. E que, com sabedoria, apresenta a fatura amarga ante escolhas equivocadas.
No “reino das maiorias” não entra a razão e a análise diligente da realidade. Prevalece o hegemonismo apoiado no cálculo para o controle da máquina partidária ou governamental, quando conquistada. Repetindo novamente Barbara Tuchman: “Voltamos a Burke: ‘Não é raro que a magnanimidade em política se torna a verdadeira sabedoria; um grande império e mentalidades tacanhas não se combinam bem’. O problema está em se reconhecer quando a persistência no erro se torna autodestruidora”.
As escolhas em Porto Alegre, que finalmente se demonstraram equivocadas, apresentaram um Partido confuso, sem política, sem programa, sem força de convocação militante e social.
A lógica das correntes e a visão particularista prevaleceram sobre o conjunto partidário. O quadro eleitoral evidenciava que seria uma eleição difícil e, portanto, que exigiria da candidatura do PT muito conhecimento público, densidade eleitoral e uma capacidade de explicar com facilidade de compreensão algo que era complexo: a confrontação de três candidaturas do campo democrático-popular.
Nesta condição, como singularizar a candidatura do PT, como apresentar as diferenças e disputar a consciência do povo? Ao contrário da diferenciação, ficou evidenciada a pasteurização. Com a “semelhança” dos campos pró-Dilma e pró-Tarso, não se soube explorar eficientemente a vinculação preferencial do PT com os governos estadual e nacional. Esse fenômeno explica porque os votos da Manuela migraram para o Fortunati [e não para o Villa], mas não foram para a oposição conservadora aos governos Tarso e Dilma.
Não seria correto atribuir o fracasso à tática eleitoral. A decisão sobre a candidatura própria foi unânime no PT; todas as correntes e lideranças partidárias defenderam esta posição. Candidatura própria não significa, em si mesmo, garantia de vitória. Em toda a história do PT de PoA, o Partido sempre se apresentou com candidatura própria. E neste período o Partido sofreu várias derrotas – todas elas, todavia, eleitorais. A derrota de 2012, contudo, foi uma hecatombe política, uma derrota política humilhante. 
A pregação de que o PT deveria ter abdicado da candidatura própria para ser vice de um dos dois candidatos não tem consistência. Por um lado, porque a candidatura do prefeito eleito articulou o campo conservador e dos setores anti-petistas, inviabilizando uma aliança com o PT. A candidatura do PCdoB, por outro lado, comprovou que não “havia chegado a hora” da novidade sustentada em forte marketing eleitoral.
A aplicação da tática eleitoral - ou seja, a candidatura, a estratégia e a política definidas pela maioria partidária – além de se basear em métodos esgotados, revelou-se inadequada às necessidades de um duro enfrentamento eleitoral. A eleição comprovou que se o PT tivesse uma candidatura mais conhecida e identificada com o legado dos governos do Partido na cidade, os resultados teriam sido totalmente diferentes.
Seria muita ingenuidade crer que qualquer que fosse a candidatura do PT o resultado seria o mesmo. Em 2002, por exemplo, para a definição do candidato o PT que disputaria a Presidência da República, o Partido foi constrangido a realizar uma incompreensível prévia entre Suplicy e Lula. Alguém duvida que, se o candidato não fosse Lula, o resultado teria sido outro?
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Diante dessa derrota inclemente, o PT não pode, outra vez, encontrar um refúgio confortável no silêncio e na negação do fracasso. Novamente vale se socorrer de Tuchman: “A paralisação mental ou estagnação — manutenção intacta pelos governantes e estrategistas políticos das idéias com que começaram — é terreno fértil para a insensatez. Montezuma se constitui em exemplo fatal e trágico”.
Ou o PT aprende com os erros, ou as derrotas continuarão sendo o destino e a fonte da autodestruição. Como também adverte Barbara, “a política fundada em erros multiplica-se, jamais regride”.






[[1]] Durante a ditadura militar, ficou proibido até o ano de 1985 a realização de eleições nas capitais, áreas de bases militares, de barragens de usinas elétricas e regiões de fronteira, consideradas áreas de segurança nacional presumivelmente passíveis de “ataques terroristas”. Os prefeitos municipais dessas cidades eram então indicados pelos militares normalmente dentre políticos da ARENA – cuja sigla sucedânea, depois de várias mudanças, é o atual PP. Em 1985 foi realizada a primeira eleição direta em Porto Alegre depois da ditadura.
[[2]] A primeira participação do PT em eleições para a Câmara de Vereadores foi em 1982, dois anos após sua fundação. Naquele ano, pelas razões assinaladas na nota anterior, somente se realizavam eleições proporcionais nas áreas de segurança nacional. Em 1982, o PT elegeu um vereador para a Câmara de PoA.
[[3]] Além de 1985, foram realizadas eleições para prefeito municipal de PoA em 1988, 1992, 1996, 2000, 2004, 2008 e 2012. A partir de 1996, as eleições nas capitais e cidades com mais de 200 mil eleitores passaram a ter dois turnos eleitorais nos casos em que o candidato vencedor não atinja 50% + 1 dos votos válidos.
[[4]] O PSOL manteve os dois vereadores eleitos em 2008 e teve o vereador mais votado desta eleição.