segunda-feira, 7 de julho de 2008

O atrevimento criativo e a criatividade atrevida

Freqüento o Templo do Internacional, o Estádio do Beira-Rio, desde os anos 1976 quando vim morar em Porto Alegre. É a época em que atuavam no Beira-Rio Falcão, Figueroa, Carpeggiani, Manga, Escurinho, Valdomiro, Batista, Caçapava, Marinho Perez, Lula, Jair [Príncipe Jajá], Dario [Dadá Maravilha], Flávio Minuano e outros craques eternamente venerados pela maior e melhor torcida do Rio Grande do Sul.

Nos últimos dez anos, compareci no Templo sempre que pude, a não menos que em média 25-30 partidas lá jogadas a cada ano; a grande maioria delas na companhia dos meus filhos Iagê e Thales. Neste período, foram muitas as partidas decisivas, a mais importante delas a decisão com conquista da Taça Libertadores da América.

Tive a oportunidade, por isso, de ver, assistir e viver a disputas memoráveis, gols maravilhosos, jogadas espetaculares, comemorações inesquecíveis, choros cortantes e, principalmente, o desfile de vistosos craques.

Neste último domingo, contudo, saí do Templo do Beira-Rio como uma sensação diferente, de um privilegiado que pôde gravar na retina as jogadaças do novo craque surgido da Usina incubadora de jogadores futebol que é o Inter.

Me refiro ao jovem Taison, 20 anos. Um show de atrevimento criativo. E também uma criatividade atrevida. Um menino destemido, escorregadio, nada fominha, dono de um futebol tão vistoso e exuberante que mais se parece uma obra de arte.

Além de tudo, Taison tem uma humildade e senso auto-crítico digno dos que reúnem características para serem também craques morais: apesar de ter errado [ou deixado de acertar] apenas dois passes das duas dezenas de passes desconcertantes feitos com perfeição no primeiro tempo do jogo, no intervalo declarou que “tinha errado muitos passes”.

Como colorado, tenho já me acostumado à idéia da provisoriedade de permanência de craques revelados no Templo, por imposição da força mercantil e global que domina o futebol. Saem vários todos os anos, e quase todos eles ainda pré-adolescentes. O último e mais marcante dessa espécie, até então, tinha sido o Alexandre Pato.

Tenho consciência de que Taison, como toda revelação, é já a alegria de ter aqui existido e ao mesmo tempo a tristeza de daqui ter partido. Me dou por feliz e privilegiado, entretanto, por tê-lo retido eternamente em minha retina e ter usufruído uma alegria lúdica, vívida e infantil com suas jogadas.

Por certo este guri será vitimado pela sina que aplaca os melhores, que têm de mostrar seus predicados a todo o mundo, como em cumprimento à ode do hino gaúcho, que profetiza que nossas façanhas devam servir de modelo a toda a Terra.

Há um livro de poemas do poeta e escritor uruguaio Mário Benedetti que se chama Adioses y Bienvenidas. Este livro do Benedetti foi a primeira metáfora que me veio à mente na saída do estádio hoje depois da vitória estupenda por três a zero contra o Curitiba, enquanto eu tentava entender porquê Taison durará como um cometa no Gigante do Beira-Rio. Porque ele é uma Bienvenida, é também um Adiós. E assim “vâmo vâmo” Inter, entre Bienvenidas y Adioses; entre um novo Taison que se irá e o outro Taison que virá.

2 comentários:

Claudinha disse...

Segundo o seu Cardoso, o Inter sempre encontra um guri pulador para encher o saco... risos...
Claudia.

Unknown disse...

Aquele penalti foi um assalto ao Coritiba, é o apito amigo colorado!