segunda-feira, 7 de maio de 2007

Confúncio no Planalto

Preparem-se todos para a viagem rumo ao idílio: em muito breve o filósofo Roberto Mangabeira Unger, o Confúncio americano-brasileiro, desembarcará no Planalto para ser Ministro da Secretaria de Ação de Longo Prazo.

Mangabeira Unger é o pensador - como gosta de se auto-definir - que em 2006 fez côro ao espírito golpista da direita escrevendo o artigo “Pôr fim ao governo Lula” [sic], no qual afirmou que “o governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional” e que Lula seria “avesso ao estudo e ao trabalho”.

Hoje, porém, Mangabeira diz que aceita o convite de Lula para participar “dessa obra de transformação”. Ele deve ser referir, presumivelmente, ao governo Lula, que só será considerada uma “obra” de “transformação” a partir de agora, quando ele passará a integrar o mesmo governo que já foi, na própria opinião, “o mais corrupto de nossa história nacional”, capitaneado por aquele que é “avesso ao estudo e ao trabalho”.

A presença do filósofo na condução dos assuntos estratégicos e de longo prazo da República seria hilária [na parte que toca a ele] não fosse trágica - porque afetará a todos nós, os tementes da Planície. Em entrevista à Folha de hoje, revela-se admirador do “talento analítico de Daniel Dantas”, aposta no potencial da auto-ajuda da “classe média emergente” e revela a presunção de que desempenhará um papel messiânico na política brasileira.

A função de Messias
Definindo a si próprio como “pensador e cidadão” [nessa ordem], o filósofo profetiza que “temos de dar instrumentos à energia dispersa e frustrada do país” ..., “que transforme em flexibilidade preparada o espontaneísmo inculto do nosso povo”. Tóing!

O filósofo também divaga que “se nós olharmos embaixo, para essa classe média emergente, temos uma nova forma associativa e de auto-ajuda no Brasil, que o país não vê”. Só o olhar profundo do filósofo consegue enxergar “embaixo” uma “classe média emergente” altruísta e solidária e não o imenso e real pobrerio do país.

O oráculo da política
O filósofo, que fez parte em 2005/2006 da pior onda golpista desencadeada pelo udenismo que serviu para ao menos demonstrar a higidez institucional do país, defende a diminuição da “dependência das mudanças em relação às crises”, e ensina que “conseguiremos isso por meio de uma democracia de alta energia, mudancista”. Tóing! Tóing!

Tal democracia “de alta energia, mudancista”, contudo, não contempla plebiscitos e referendos. Sentencia o filósofo: “É um erro confundir democracia mais participativa com democracia plebiscitária. O plebiscito isoladamente e uma grande democratização da informação e da participação nos processos decisórios sempre trazem o risco do cesarismo.”. Democracia sim, do tipo que permite que se case com quem quiser, desde que seja com ... Maria ...

Um emissário do Norte
O espírito de doação do filósofo, que renunciará ao salário mensal de quase cinqüenta mil reais por mês [afora polpudas consultorias, como as que prestou ao Daniel Dantas] ganhos na Universidade de Harward, fica ainda mais evidenciado quando se sabe que aqui se tornará um “herói” [como Lula chama seus abnegados Ministros] que receberá somente oito mil reais por mês.

Mas ele virá, trazendo consigo o propósito de consertar o Brasil e conferir ao país um sentido de futuro, apesar de considerar que “as instituições políticas, econômicas e educacionais do Brasil são de uma rigidez mortífera.”.

Os colegas dele, segundo o próprio, estão exultantes com a empreitada que assumirá no país-laboratório chamado Brasil. O filósofo diz que “estão todos querendo que aconteça alguma coisa, querem uma alternativa.”. Decerto agora as coisas vão ...

Harward, a Universidade onde o filósofo ensina, é o centro moral e teórico dos badboys do neoliberalismo mundial. O candidato tucano-pefelista Alckmin, aliás, passa uma temporada de estudos por lá.

*** ***

Por todas essas, e apesar de todas essas, é necessário continuar acreditando que “a vida é bela”, como disse Trótski em seu testamento político, e “que as gerações futuras a limpem de todo o mal, de toda opressão, de toda violência e possam gozá-la plenamente.”. Infelizmente a realidade, nem tão bela, insiste em revelar a tragédia do pragmatismo e do cretinismo.

sábado, 5 de maio de 2007

Hércules 56 acontece na bela e doce capital

Com o apoio do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre e outras instituições e patrocinadores, acontece a pré-estréia do documentário Hércules 56 na bela e doce Porto Alegre na próxima sexta-feira, 11/05.

Após a sessão de exibição, que iniciará as 19 horas, haverá um debate-depoimento com a participação de Ricardo Vilas, Flávio Tavares e o diretor Sílvio Da-Rin.


O documentário reporta a passagem do seqüestro do embaixador estadudinense Charles Elbrinck, arquitetado e executado por ativistas do MR-8 e ALN em setembro de 1969, durante a ditadura militar no Brasil.


Para a soltura do embaixador, as organizações exigiam a publicação de um manifesto [cuja redação incumbiu ao Franklin Martins], a libertação de 14 militantes políticos e a garantia de saída dos mesmos do país rumo ao exílio.


Dentre os ativistas políticos trocados, figuravam personagens ainda vivos e que atuam na política, nas artes e na cultura no Brasil de hoje, como Vladimir Palmeira, Ricardo Vilas, Flávio Tavares, Franklin Martins, José Dirceu, Fernando Gabeira e outros.


Hércules 56, que inspira o nome do filme, é o modelo do avião da FAB que transportou os militantes que tiveram a nacionalidade cassada e iniciaram um longo exílio a partir do desembarque no México.


A possibilidade de estrear o Hércules 56 nesta data na capital gaúcha foi se concretizando à medida em que programávamos a agenda de Ricardo Vilas em Porto Alegre [clicar], visando justamente condensar atividades comuns entre si, como o cinema, a música, a história e a política.


Ricardo é um dos nove militantes remanescentes daquela experiência, e foi o mais jovem dentre todos. Ele prestou depoimento para o filme-documentário, que relata os lados complexos da existência desterrada, de resistência, no exílio, da luta, da tenacidade e da saudade.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

O que fazer com tanto dinheiro? Pode ser o Banco do Sul.

Em artigo, Theotônio dos Santos [clicar para acessar] demonstra o contexto favorável para a viabilização do projeto de Banco do Sul, em gestação entre os governos dos principais países da América do Sul. Além da situação geopolítica muito favorável no continente, as condições econômicas e financeiras também favoreceriam a implementação do projeto.
Dias atrás o economista Paulo Nogueira Batista Júnior, em outro artigo, também destacava estas condições.

Acontece na bela e doce Porto Alegre ...

O cantor e compositor Ricardo Vilas há vários anos divide sua carreira entre a França e o Brasil. Em maio deste ano, ele estará em Porto Alegre apresentando seu mais novo disco, Meu Caro Amigo. O CD, 24º álbum de sua carreira, traz participações e acompanhamentos de Wagner Tiso, Francis Hime, Lenine, Teca Calazans e outros músicos.
Ricardo Vilas fundou e integrou o Momento Quatro com Zé Rodrix, David Tygel e Maurício Maestro. O grupo defendeu com Edu Lobo a vitoriosa Ponteio no Festival da TV Record em 1967.

Após ser exilado em 1969, Ricardo percorreu um rico caminho como compositor e intérprete na Europa, ao lado de Teca Calazans e de outros grandes músicos. Na volta ao Brasil nos anos 80, ele dirigiu o Globo de Ouro, foi diretor musical do Sítio do Picapau Amarelo e produziu trilhas sonoras para várias novelas da TV Globo. Também teve músicas suas gravadas por intérpretes como Simone, Angela Maria, Nana Caymmi, Joyce, Sa & Guarrabira, Claude Nougaro.
Atualmente Ricardo faz mestrado em etnomusicologia na Universidade de Paris 8, onde estuda as conexões entre música e política no Brasil. Aliás, política é um assunto que sempre mobilizou o compositor. Militante desde a juventude nos anos 1960, fez parte do grupo de jovens ativistas que foram trocados pelo embaixador estadudinense Charles Elbrinck em 1969 e que tiveram como destino um longo exílio no exterior. Além de Ricardo, estavam no avião Hércules 56 da FAB que rumou ao México outros ativistas políticos como Fernando Gabeira, Flávio Tavares, Vladimir Palmeira, Franklin Martins e José Dirceu.
A presença de Ricardo Vilas em Porto Alegre recebe o apoio do
IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre
, da Adufrgs – Associação dos Docentes da UFRGS e do Sindbancários de Porto Alegre.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Aprendiz da truculência

O governo de Yeda CrusiusCredo se notabiliza por muitos ineditismos não só de maus feitos políticos como de hábitos políticos truculentos. Daria para fazer um rosário de considerações a respeito, o que não é o propósito na presente ocasião.
O Secretário Estadual de Planejamento, Ariosto Culau, fiel ao estilo “cirurgia a frio” da governadora, se saiu com essa sobre sua colega de secretariado Vera Calegaro, que está ameaçada de demissão:
Na área de meio ambiente, o governo espera muito mais, espera que se tenha uma visão de desenvolvimento sustentável e não só de defesa única e exclusiva dos recursos ambientais. A Vera é altamente qualificada, mas se esperava outro papel da secretaria.
- Não tem free-lancer no governo. Ou se compromete com o projeto, ou sai.
” [extraído da coluna de Rosane de Oliveira].
O Secretário, um jovenzinho tecnocrata afeiçoado ao estilo “mando e desmando” lá “das Brasília”, com sua atitude mais realista que a Rainha, cresce no conceito do governo estadual.
Com o ascenso da truculência, desce a civilidade política.

Rendida às chantagens

O assunto da demissão da Secretária do Meio-Ambiente do RS revelou pelo menos três aspectos graves:
i] a rendição de Yeda às chantagens feitas pelas mega-empresas do eucalipto, à revelia das normas, proteções legais e zoneamento ambiental, e

ii] o dano de Yeda à imagem do Ministério Público, pois o convite ao procurador de justiça para a titularidade da pasta do Meio-Ambiente, na forma e nas condições em que se deu, se assemelha a uma tentativa de adulação da instituição – outra vez para atender às chantagens das mega-empresas;
iii] o desprezo de Yeda pelas instituições de Estado, como a FEPAM, novamente para corresponder às chantagens das mega-empresas.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Biocombustiveis: relatório da FAO aponta riscos à segurança alimentar

Para que o debate estratégico sobre os biocombustíveis não se restrinja ao duelo entre os puro-ideológicos que são contra e os xiita-religiosos que são a favor, vale ler notícia sobre o relatório preocupado da FAO, entregue ao Presidente Lula quando da sua recente estada no Chile, final do mês passado.
A notícia pode ser lida no saite último segundo, clicando aqui.

Prestígio de palanque

Há quem aprecie, por muitas razões e dentre as importantes a vaidade e o exibicionismo, subir em palanques - sejam de comícios, manifestações públicas, assembléias ou shows artísticos. Em algumas bandas, estar no palanque é demonstração de prestígio. E, como se sage, goza de prestígio aquele que é prestigiado no seu habitat.
O sinistro - e não menos presitigiado - Delúbio Soares esteve lá, no palanque da CUT em comemoração ao 1º de Maio em São Paulo.
Logo ele, que não faz nenhuma falta, não faltou ao 1º de Maio ...

terça-feira, 1 de maio de 2007

Só falta você

Tá certo que os tempos são outros e que em lugar de discursos radicais, do rock e pop rebelde e de multidões empunhando bandeiras e reivindicações as celebrações do 1º de Maio tenham se transformado em chacretes animadas pelo pagode do Bráulio ou outros do gênero.
Mas bem que o Lula poderia ter participado das festividades em São Bernardo do Campo. Se tivesse dado uma esticadinha depois do enterro do Otávio Frias e permanecido em São Paulo desde a tardinha de segunda-feira [30/04], encontraria tempo para tanto.

É a primeira vez, desde 1979, que Lula deixa de participar da missa em São Bernardo alusiva ao dia internacional do trabalhador. Na verdade, em outra ocasião - em 1980, preso pela ditadura militar - também se ausentou da missa, porém sua família o representou.
Da primeira vez que participou da missa como Presidente da República, em 1º de Maio de 2003, Lula fez as seguintes declarações:
"Podem ficar certos de que a cada 1º de Maio eu estarei aqui, nesta igreja, neste mesmo horário, para, a cada ano, ir prestando contas das coisas que nós vamos fazer"
"Quero dizer a vocês, companheiros da Pastoral Operária, que podem ficar certos que todo 1º de Maio, às 9 horas da manhã, o presidente da República estará aqui para prestar contas do que estamos fazendo neste país".

Sinais de que os tempos são outros e de que o 1º de Maio no século XXI em nada lembra o passado.

Privilégio de Excelência

Se depender da vontade pessoal e da pressão da família, o ministro do Superior Tribunal de Justiça [STJ] Paulo Medina pede aposentadoria e assim passa a receber integralmente um dos salários mais altos do setor público no país - 23,2 mil reais.
O privilégio em questão é para alguém que, no cargo de Ministro do STJ, facilitou as coisas para a máfia do jogo dentro da instituição, concedendo sentenças judiciais favoráveis aos interesses do crime organizado.
Não bastassem os fartos indícios já existentes, foram publicadas hoje gravações em que Sua Excelência cometia outra irregularidade, de antecipar voto em julgamento e orientar advogado de réu a respeito de procedimento a ser adotado em julgamento de seu interesse na Côrte.
Se não houver nenhuma ação política e jurídica, é bem possível que tudo acabe da forma de sempre: o Brasil terá um novo Lalau endinheirado e bem aposentado às custas da Dona Maria e de todo o povo brasileiro.

Secretário se confunde sobre quem o chefia

O Secretário da Segurança do RS, José Francisco Mallmann, parece pensar que ainda trabalha na Polícia Federal - órgão vinculado administrativamente ao Ministério da Justiça.
Ao lado da governadora Yeda CrusiusCredo, Mallmann entregou ao Ministro Tarso Genro [que foi seu chefe até a cedência ao governo estadual] um pacote de sessenta e seis projetos. Num valor total de 262 milhões de reais, os recursos bancariam simplesmente todas as iniciativas da área de segurança estadual. A mordida feita equivale ao triplo do investimento do governo estadual na área da segurança!!

Não só o Secretário Mallmann parece se confundir sobre quem é seu chefe, como a governadora imagina que além da cedência do delegado Mallmann para a chefia da Secretaria de Segurança, o governo federal fará tudo o que ela é incapaz de fazer.
Como se vê, governar é mais complexo que fazer promessas mistificadoras na campanha eleitoral.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Instâncias comprometidas

Por mais que se infunda no senso comum a idéia de que [teoricamente] a justiça é isenta e imparcial, a cada dia abundam episódios que comprometem a presumível “inocência” do judiciário.
Novo exemplo – outra vez nada alvissareiro - ocorre nestes dias, em que juízes do trabalho e ministros do Tribunal Superior do Trabalho promovem feriadão de primeiro de maio e realizam congresso [sic] em luxuoso hotel de praia em Natal – RN.
Detalhe: com todas as despesas de viagem, de alimentação, dos lanchinhos, das mordomias e luxúrias bancadas pela FEBRABAN, a poderosa Federação Brasileira dos Bancos. Com isso, não fica muito difícil intuir-se o quão isentas devem ser as posições da magistratura do trabalho nos litígios entre bancários e banqueiros.
Definitivamente, o judiciário brasileiro – em todas as suas especialidades e jurisdições – dá reiteradas mostras de desmoralização e de distanciamento da realidade do país. E não só devido ao envolvimento de magistrados com a máfia do jogo e o crime organizado, mas também porque eles se auto-concedem salários nababescos, só querem habitar prédios faraônicos, se protegem com privilégios absurdos e códigos corporativos e não raro têm atitudes de déspotas perante o público usuário dos serviços judiciais.
Para o bem da democracia brasileira, urge uma reforma do judiciário que republicanize a justiça, tornando-a ágil, "justa", próxima aos anseios da sociedade e submetida ao controle público.

Não é aceitável situação como, por exemplo, de presidente da mais alta côrte eleitoral do país [TSE] se comportando como feroz líder partidário de oposição.
O Poder Judiciário não pode ter, dentre suas fileiras, aqueles que perdem a isenção e a razão tanto por se filiarem ao crime organizado como por se filiarem a movimentos partidários ou empresariais.

sábado, 31 de março de 2007

Henry Sobel ter gosto apurado

Henry Sobel assumiu ter sido ele mesmo - e não um sósia seu - o autor do furtivo episódio das gravatas em Nova York.
O alegado transtorno de humor que o acometeu, não tirou do rabino o senso estético e tampouco prejudicou seu apurado gosto. Só foram encontradas gravatas das chiques marcas Louis Vuitton, Gucci e Giorgio Armani.
Fosse um humilde personagem do povo acometido por depressão, seu destino provavelmente teria sido outro, mesmo que o objeto de furto fosse um saquinho de pipoca para saciar a fome.

quinta-feira, 29 de março de 2007

O sentido da coisa

Desde ontem, com a mudança de nome do PFL para DEMocratas [sic], o Brasil se divide entre aqueles e os não-democratas.
Como ensinou Michel Foucault, “as palavras dão sentido às coisas”. Mas não no caso dos neo-DEMocratas, cujo qualificativo [democrata] está para aquela caterva assim como o socialismo esteve para Adolfo, aquele do
Partido Nacional Socialista Alemão dos Trabalhadores.

segunda-feira, 26 de março de 2007

LF Veríssimo e o tempo brasileiro

O tempo brasileiro, decididamente, parece ser convertido em qualquer coisa que não um processo histórico. Principalmente quando se trata de fenômenos políticos e sociais.
Também pudera. No Brasil, a máxima analogia histórica que alguns governantes conseguem fazer é com jogos de futebol. Ou melhor [ou pior], com jogos do Corinthians, dos anos 1980.
Luis Fernando Veríssimo, na coluna de hoje, interpreta o singular sentido do "tempo brasileiro".

sexta-feira, 23 de março de 2007

De volta

Biruta do Sul retorna, depois de um esticado tempo de uso e abuso das faculdades próprias da espécie: duas orelhas, dois olhos e uma única boca. Observar, ouvir e pouco falar. Para tentar entender, com muita dificuldade, o sentido tenebroso dos tempos atuais. E dos que virão.

E agora, qual o plano?

Durante muito tempo do primeiro mandato do presidente Lula, os petistas e o conjunto da esquerda brasileira confiavam, incrédulos, que por detrás das opções conservadoras adotadas pelo governo havia algum “plano secreto” de Lula e da então direção do PT. Plano esse que, decerto, levaria o país ao encontro com seu destino de justiça, igualdade, democracia e distribuição de renda.

Era crível se supor, à época, a existência de alguma estratégia inteligente que pudesse justificar tanto a busca desmedida por apoio congressual, como a coabitação das forças de centro-direita e direita num governo capitaneado pelo PT, eleito com mais de 52 milhões de votos. A realidade, contudo, demonstrou não só não haver nenhuma estratégia - menos ainda inteligente -, como também expôs a falta de um raciocínio sobre a contraditória realidade do Brasil e acerca da complexa dinâmica política, cultural e social do país e dos interesses fundamentais em disputa na sociedade brasileira.

Somente agora, decorridos três meses desde o início do segundo mandato, o presidente conclui a montagem do ministério, alicerçado numa amplíssima aliança partidária. A fotografia da esplanada dos ministérios exibe a heterodoxa constelação onde coexistem, lado a lado, o PT e seus históricos aliados juntamente com setores peemedebistas que até ontem integravam o raivoso bloco tucano-pefelista de oposição. Sem esquecer ex-ministros e integrantes dos governos Sarney, Collor e FHC e também os personagens que atuaram na linha de frente na ditadura militar, que hoje são “conselheiros do Planalto”.

A equação aliancista do governo tem o mérito de isolar política e institucionalmente o principal pólo reacionário do país, estruturado em torno do PFL e do PSDB. Também evitará, como se viu nesses dias, obstáculos e dificuldades no Congresso, eleito como o locus principal de apoio do governo em detrimento da sustentação social decorrente da democratização radical do Estado. A aliança governamental estará dificultando, também, a volta ao poder de Estado em 2010 daquele campo ideológico que produziu políticas destrutivas para o país. Lula busca, desse modo, assegurar sua sucessão em termos favoráveis para, quem sabe, poder conquistar um terceiro mandato em 2014 – um sonho pessoal de consumo de quem “surfa” no “lulismo”, um fenômeno acima e à parte dos partidos políticos, inclusive do próprio PT.

É notório que a formação da aliança se baseou em critérios distintos dos aplicados no primeiro mandato, e dessa vez o governo buscou o compromisso institucional e político dos partidos com o PAC. Isso é importante, mas ainda está longe de informar uma fisionomia programática e ideológica nítida do governo Lula II, pois o PAC nada mais é que uma espécie de glossário de obras do plano plurianual de investimentos que o governo constitucionalmente é obrigado a apresentar para definir metas e ações do próximo quadriênio.

Os petistas, a esquerda brasileira e a imensa maioria do povo que elegeram Lula aguardam atitudes e programas do governo que condensem uma idéia de nação e de futuro decente para o povo brasileiro, muito além da mística do PAC. Mesmo que o governo seja composto com tal amplitude partidária e ideológica, o mínimo que se espera é a apresentação de perspectivas estratégicas com reformas democráticas e realização de políticas voltadas ao social para a superação das indignas disparidades existentes no país.

Sem esse delineamento programático estratégico, corre-se o risco de que os petistas - tal como muitos dos demais integrantes da aliança governamental – tristemente conduzam ministérios como capitanias hereditárias: preservando empregos, cargos e fatias do poder.

Já não há mais incredulidade e estupefação. Os últimos anos de “irrelevância da política”, na expressão de Francisco de Oliveira, balançaram sonhos e esperanças muito antigos, que hão de ser renovados no futuro. Ninguém espera um “plano secreto”. Mas, diante da arquitetura de poder do governo Lula II, o desejável seria que ao menos fosse explicitado: e agora, qual o plano?

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Feliz governo velho

Jeferson Miola, integrante do IDEA - Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre

No primeiro dia de 2007 toma posse no Rio Grande um governo que nasce findo. O denominado “novo jeito de governar” revelou ainda cedo o que muito fora dito sobre si nas eleições: que inova unicamente na arte de ludibriar a sociedade através de fantasias fabricadas com o auxílio do marketing eleitoral. Nas eleições passadas, foi abundante o uso de bordões e clichês para mistificar a realidade e fraudar a vontade popular. O exagero no uso de fórmulas mistificadoras ficou evidente na comparação ridícula que os apoiadores da então candidata Yeda faziam entre ela e as heroínas Ana Terra e Anita Garibaldi!! [sic]

A governadora, logo que eleita, também revelou uma singular predisposição em produzir conflito e desagregação no interior da própria aliança partidária que a elegeu. Inclui-se aí o isolamento imposto ao vice-governador, preço pago pela sinceridade com que ele expõe seus propósitos políticos e sua visão programática. Nos últimos dias, dois “futuros” Secretários de Estado “se demitiram” antes mesmo de serem nomeados. Um prodígio inédito na política gaúcha.

Com a apresentação do pacotaço contendo medidas radicalmente contrárias às promessas de campanha, Yeda removeu o véu que encobria a última nesga do disfarce eleitoral do “novo jeito de governar”. A governadora quer impor mais do mesmo veneno: aumento cavalar de impostos, remoção de estímulos à agricultura e às exportações, arrocho do funcionalismo, aperto do custeio da saúde, educação, segurança e ao mesmo tempo a preservação de bilionários benefícios fiscais para um punhado de mega-empresas. Ao invés de induzir os setores dinâmicos e tradicionais para retomar o crescimento da economia gaúcha e assim recompor as finanças estaduais, a proposta tem um viés puramente fiscalista.

O pacotaço – com ou sem remendos - poderá ser aprovado na Assembléia Legislativa, onde a governadora possui maioria. Será, parafraseando o vice-governador Paulo Feijó, “um desastre; um erro estratégico de médio e longo prazo e causa da debandada de empresas e empregos do Rio Grande”. Os partidários do governo que nasce findo se apressam em mistificar novamente a realidade, desta vez sustentando a “inevitabilidade” das medidas – como se no período eleitoral a situação fosse diferente – e enaltecendo a “coragem” da governadora em aplicá-las.

Ninguém, mesmo apoiado em maioria parlamentar, no marketing e na propaganda entorpecente consegue, contudo, mistificar para sempre a realidade, a política e a história. As fórmulas agora defendidas como “inevitáveis, corajosas e heróicas” foram aplicadas desde sempre pelos mesmos personagens que hoje compõe o governo Yeda, e estão na raiz da grave crise da economia e das finanças gaúchas. Melhor seria para o presente e para o futuro do Rio Grande se não precisássemos nos deparar com um governo já obsoleto antes mesmo de ser empossado. É uma lástima.

Novo jeito de comprar

A governadora Yeda e sua aliança conservadora não estão inovando só na arte de ludibriar o povo.
Agora no Rio Grande quem compra bombacha recebe pantalha.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Feijó avalia pacote do seu governo: desastre, erro estratégico, etc etc

O vice-governador eleito Paulo Feijó não economiza adjetivos para caracterizar o pacote encaminhado à Assembléia Legislativa a pedido da governadora eleita Yeda Crusius. Em entrevista à Rádio Gaúcha após a publicação do pacote [clique para acessar a página e selecionar a audição da entrevista], o vice-governador caracterizou o pacote como "desastre", "erro estratégico", "erro de médio e longo prazo", causa para a "debandada de empresas e empregos" do Rio Grande, proposta de burocratas que "nunca criaram um emprego e que não têm condições de dirigir o Estado", etc etc etc.
Só não comentou sobre a monumental fraude política que é a sua governadora e que foram as promessas feitas na eleição.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

A deformidade dos salários

Jeferson Miola, integrante do IDEA - Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre

No Brasil o salário mínimo do povo trabalhador e aposentado sofrerá um reajuste de 8,5% e atingirá o valor de R$ 380 a partir de abril de 2007. No mesmo Brasil, deputados federais e senadores se auto-concederam um reajuste de 91% no próprio salário, que passaria para R$ 24.500 não fosse a reação pública a essa indecência. Não se pode esquecer também que os edis se distinguem dos mortais por receberem 15 salários anuais, e não 13.

Com o aumento dos salários de deputados federais e senadores, aumenta automaticamente a remuneração dos deputados estaduais e vereadores de todo o país, vinculada constitucionalmente a de seus pares federais. Aumenta, em conseqüência, o enorme disparate entre a renda da população e daqueles eleitos para representá-la. Com o indecente aumento – indecente na forma privilegiada de legislar em interesse próprio e no valor fixado – os parlamentares buscam equivalência com os integrantes do Poder Judiciário, que já percebem salário de R$ 24.500.

A repulsa da sociedade à tentativa dos parlamentares deve servir para a reflexão sobre a verdadeira deformidade na remuneração do setor público processada ao longo de décadas. Como pode haver um teto salarial [que ao invés de teto funciona como remuneração efetiva] de R$ 24.500 no Judiciário se o mais importante funcionário público do País, eleito por 58 milhões de brasileiros/as, percebe cerca da metade deste valor?

Os privilégios no Legislativo, Judiciário e Ministério Público de arbitrar o próprio salário, independentemente da realidade nacional, criaram castas de funcionários públicos com salários muito superiores à média paga no Executivo. As enormes diferenças reproduzem a natureza desigual e injusta da sociedade brasileira, que ostenta a maior taxa de concentração de renda do mundo e a mais escandalosa desigualdade social e econômica.

Este momento de inquietação pública bem que podia estimular um movimento cívico para se discutir a fixação, por exemplo, de um teto salarial para todo o setor público em no máximo 30 vezes o valor do salário mínimo. Igualmente seria salutar para a democracia a discussão pública e transparente acerca dos salários pagos a funcionários de empresas estatais e em instituições financiadas com recursos do erário, como as do Sistema “S” e o Sebrae.

Os brasileiros que vivem com salário mínimo – aquelas 80% de famílias do nosso povo – poderiam confiar, desse modo, que o Brasil finalmente possa se encontrar com um destino de justiça e menos desigualdade.

[IN]Dignísima Mídia

Nunca a mídia brasileira ocupou o centro do debate público e da luta política como nas eleições gerais de 2006. Isso não quer dizer que no passado o comportamento da mídia tenha sido menos faccioso e partidário que neste ano. Muito ao contrário. A mídia monopolista e oligárquica brasileira, escorada nos esquemas do poder dominante, sempre esteve por trás dos importantes acontecimentos históricos da política no Brasil criando o “clima” na sociedade em favor das soluções dos poderosos: na campanha udenista que conduziu Getúlio Vargas ao suicídio, na desmoralização implacável de JK, na tentativa de impedir a posse de Jango em 61, no golpe militar de 64, no acobertamento da repressão durante a ditadura, no acordo conservador no Congresso contra as DiretasJá, na manipulação para eleger Collor de Mello em 89, na blindagem do desastre neoliberal tucano-pefelista durante 8 anos, para fixar citações mais emblemáticas.

A diferença, neste ano, é que a mídia “saiu do armário” por inteiro. Atuou como projeto político-partidário com lado definido e objetivo claro de combater a esquerda, os setores progressistas e todos aqueles que representam algum obstáculo aos seus interesses. Substituiu o jornalismo pela publicidade vil contra seus adversários. Criou bordões e clichês que foram convertidos em palavras de ordem do conservadorismo. Subverteu as normas jurídicas do Estado democrático de direito segundo as quais cabe ao acusador o ônus da prova, impondo aos que acusou levianamente o ônus de provar a própria inocência. Militou abertamente na campanha de Alckmin – levando a eleição presidencial para o segundo turno – e de candidatos aos governos estaduais.

A esta extraordinária ousadia e petulância da mídia oligárquica do Brasil, tendo a Rede Globo e suas afilhadas à frente, correspondeu também a mais fantástica derrota já imposta à própria mídia pela opinião pública, pois a imensa maioria pobre do país soube discernir o que estava em jogo.

A revista Carta Capital, ainda durante o processo eleitoral, em três reportagens de Raimundo Pereira desnudou a trama montada pela Rede Globo para derrotar Lula, favorecer Alckmin e impulsionar a aliança conservadora tucano-pefelista em todos os estados do país. A carta de demissão do repórter Rodrigo Viana [clique para ler] da Rede Globo, publicada por esses dias de dezembro, comprova o quão grave foi a atitude editorial da império das comunicações do Brasil.

Também durante as eleições aconteceu uma verdadeira insurgência eletrônica através da internet com listas de discussão, contra-informação, redes de e-mails e principalmente blógues pessoais e de colunistas políticos isentos e honestos.

No âmbito estadual, foi no Paraná que houve o enfrentamento mais consciente e sistemático do papel desempenhado pela imprensa durante as eleições. Após a eleição para o exercício do segundo mandato à frente do governo paranaense, conquistado apesar da férrea campanha em contrário da imprensa local, o Governador Roberto Requião apresentou o balanço A IMPRENSA DO PARANÁ E A ELEIÇÃO [clique para ler o texto na íntegra]. É um documento com informações objetivas a respeito da cobertura da imprensa e da editorialização feita pela mídia paranaense contra o Governador Roberto Requião e a favor do candidato Osmar Dias.

Quem formula esta análise faz parte de um time vencedor, portanto não se trata de “choro de derrotado”, mas antes disso uma advertência acerca da lacuna existente na sociedade brasileira, em que a atuação descontrolada e anti-republicana de certa [IN]Digníssima Mídia pode comprometer a própria democracia no Brasil. É uma contribuição da experiência do Paraná para que a sociedade brasileira possa dar passos decisivos no sentido da democratização, desconcentração e moralização da imprensa no país.

Em uma série de mais quatro notas sobre a [IN]Digníssima Mídia além dessa, Biruta do Sul publicará correspondências de Benedito Pires Trindade, Secretário de Imprensa do Paraná, que documentam a guerra ocorrida naquele Estado da Federação.

Quando o passado não é história

Domingo, dia 17 de dezembro, o filho gremista pergunta para o pai, também gremista:
- Pai, porque os colorados estão comemorando?
- Porque eles foram campeões do mundo, diz um conformado pai.
- Mas pai, nós também somos campeões do mundo, né?
- Sim!, exclama imediatamente um animado pai. Ao fundo, foguetório.
- Pai, tem vídeo teu no youtube na comemoração e fotos da festa do Mundial?
- Não, guri. Naquela época não existia youtube e câmera digital. Aliás, nem internet tinha.
- Não???? Bah, que estranho... E o Inter ganhou do Barcelona, aquele time que vemos todos os domingos na tv, né? E nós, de quem ganhamos?
- Do Hamburgo, 2x1 na prorrogação.
- Hamburger? Que time é este?
- HamburGO. Na época era o campeão europeu.
- E depois?
- Nunca mais ganhou nada, hoje é time médio na Alemanha. Eles foram com time misto, tavam mal no Alemão.
- Mas eram bons? Tinham craques que nem o Ronaldinho, o Deco, o Eto'o?
- Claro, tinha o... Rollf e o Magath!

Confuso, mas confiando no pai, o guri diz: - Hm, tá bom... Ah, este Hamburger era que nem o Once Caldas da Colômbia, né?
- Como você pergunta coisas! Já falei que é HAMBURGO, com GÊ-Ó no final! O que mais tu quer saber, hein?
- Contra quem jogamos nas semifinais? Um time da Ásia?
- Não, guri. Na época não tinha isto, era um jogo só da Europa contra a América do Sul.
- Hm, entendi.. Então na época, só haviam descoberto dois continentes?
- Mas saco (nesta hora o pai já está bem irritado com o interrogatório)! Não, é que não tinha representantes dos outros continentes. Era só 1 jogo, e só entre eles.

Tentando amenizar, mas muito curioso ainda , o menino pergunta: - Pai, tem imagem de TV da entrega da nossa taça do Mundial?
- Tenho! Peraí, tenho que pegar o videocassete betamax que tá no sótão e instalar na TV velha da sala. O pai vai rápido, todo feliz e instala em 10 minutos. A imagem tá ruim, mas dá para ver a entrega direito.

Neste momento, passa uma horda de colorados na frente do prédio gritando: "colorado, colorado: nada vai nos separar..."

- Pai, quem é este japonês que tá entregando a taça pro nosso time? Era o presidente da FIFA na época? Quem era antes do Blatter?
- Hmm, não lembro. Deixa eu ver o que tá escrito na tela. Ah, tá ali. "Toyota Maintenance Manager", então é o Gerente de Manutenção da Toyota.
- Entendi tudo então pai! Então quer dizer que também somos campeões do mundo, mas na época não tinha internet nem câmera digital, e gravado em um sistema que não existe mais. Que ganhamos de um time que era zebra na Europa, que não tinha semifinal e o mundo do futebol só tinha dois continentes. E que o prêmio pela conquista foi entregue por um funcionário subalterno da patrocinadora do jogo...

O pai suspira, escutando pela milésima vez ao fundo ".. o teu presente diz tudo, trazendo a torcida alegres emoções..." e diz: "é, vai ser difícil convencer o outro..."

Auxílio ao turista




terça-feira, 19 de dezembro de 2006

"Rede Globo defende Platão, mas detesta Freud!"

Platão foi assessor do Ministério da Saúde na época tucana de José Serra/Barjas Negri, e esteve implicado com a máfia das ambulâncias, a famiglia Vedoin e Abel Pereira. Os chefes da Rede Globo, porém, preferiram ocultar do distinto povo brasileiro a existência de Platão e seus laços obscuros.
Ma a Rede Globo não poupou Freud, incriminado sem cometer crimes e jogado à opinão pública como alguém que deveria provar inocência até prova em contrário.
A revelação é do repórter Rodrigo Viana, que pediu demissão da Rede Globo e denunciou, em carta [leia aqui], a trama montada pelo império televisivo para levar a eleição ao segundo turno e tentar derrotar Lula.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

“Nós, contra o homem da Globo”

Estará em Porto Alegre nesta terça-feira 19/12 o autor das reportagens da revista Carta Capital denunciando a trama montada pela Rede Globo para levar a eleição presidencial ao segundo turno.

Raimundo Pereira, um nome identificado com a história da mídia alternativa no país durante o período militar [Opinião, Movimento], participará do simpósio Ângulos da cena brasileira em análise, que acontecerá na Casa dos Bancários - Rua General Câmara [Rua da Ladeira], nº 424. Atualmente, Raimundo faz parte da Revista Reportagem / Oficina de Informações, uma publicação mensal que se diferencia pela qualidade e radicalidade das análises. No saite da Oficina se encontra, por exemplo, a matéria Nós, contra o homem da Globo, “a história da formidável peleja entre os ‘nanicos’ Antônio Carlos Queiroz e Raimundo Rodrigues Pereira contra Ali Kamel, diretor-executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo, gigante da mídia brasileira.”.

Em síntese: Raimundo Pereira participa do simpósio Ângulos da cena brasileira em análise, 19/12 às 19 horas, na Casa dos Bancários.

Anistia não é amnésia

Porto Alegre foi a primeira cidade do país a sediar uma manifestação de homenagem às famílias de Criméia Almeida e César e Maria Teles, que processam judicialmente o coronel aposentado Carlos Alberto Brilhante Ustra pela prática de tortura no período em que coordenou o DOI/CODI em São Paulo, durante a ditadura militar. Em edições anteriores do Biruta do Sul pode-se encontrar mais detalhes sobre a ação declaratória impetrada contra o torturador e seus significados para a revisão do absurdo benefício de indulto concedido aos agentes da repressão.

O deputado petista Raul Pont, cuja proposta de realização do evento foi acolhida por várias organizações civis, instituições públicas e partidos políticos, criticou a cobertura “desmemoriada” e conivente da mídia que reproduz a falsidade do torturador Brilhante Ustra, que se diz vítima de calúnia e difamação neste processo. Recentemente, o torturador esteve em Porto Alegre lançando o livro com sua versão e muitas mentiras sobre os fatos. Procedimento, aliás, idêntico ao do ditador Pinochet, que em entrevista revelada após sua recente morte diz que “nunca ordenou que fosse feito o mal” [sic].

Raul Pont lembrou que Brilhante Ustra, quando exercia o cargo de adido militar do Brasil em Montevidéo nos anos iniciais do governo Sarney, foi denunciado pela atriz e ex-deputada Bete Mendes como sendo um dos seus algozes. A denúncia de Bete Mendes foi propagada pela mídia alternativa na época, ganhando destaque no jornal Em Tempo [exemplar levado por Raul ao evento, na foto ao lado] e foi objeto de um duro pronunciamento de Raul na tribuna da Assembléia Legislativa gaúcha.

Maria Amélia, Criméia e César lembraram, em depoimentos emocionantes, que a Lei de Anistia beneficia somente os presos políticos, que foram julgados e condenados, tendo a pena anulada após a promulgação da Lei em 1979. Os torturadores, ao contrário, não têm direito aos benefícios previstos na Lei de Anistia, e devem ser julgados pelos cruéis crimes praticados. Esta tem sido a trilha que todas sociedades latino-americanas estão adotando. Com a contribuioção desta ação declaratória, o Brasil dá um passo importante na construção da verdadeira história do país.

*** *** ***

Texto publicado no Painel do Leitor da Folha de S.Paulo de 29/11/06 por Edson Luis de Almeida Teles:

“Tortura

‘O artigo de Jarbas Passarinho ("A tortura e o terrorismo", "Tendências/ Debates", 28/11) obriga-me a prestar um testemunho de infância. Sou "obrigado", porque o faço com pesar, pois não me é fácil expor estes sentimentos.

Fui preso, aos 4 anos de idade, em minha casa. Assistia ao "Vila Sésamo", programa infantil na TV, e fui interrompido pelos agentes do senhor Ustra, diga-se do DOI-Codi, que invadiram nossa casa com suas metralhadoras e palavras ofensivas.

Estávamos eu, minha irmã de 5 anos e minha tia, grávida de sete meses. Colocaram-nos no camburão e nos levaram ao "escritório" deste cidadão que hoje dá-se a escrever livros falseando sobre parte das mais horríveis na história do Brasil.

dentro do DOI-Codi, fui levado a um lugar onde pude ver meus pais torturados. Por uma janelinha, a voz materna que meus ouvidos estavam acostumados a escutar me chamava. Porém, quando eu olhava, não podia reconhecer aquele rosto, verde/arroxeado pelas torturas que o oficial do Exército, coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, havia infligido à minha mãe.

Era ela, mas eu não a reconhecia. Essa cena eu não esqueço, não porque arquitete uma vingança imaginária contra o coronel Ustra.

Ela não é uma informação da qual disponho, mas uma marca que talvez por meio da terapia de meu testemunho público possa acalmar, deslocar para espaços periféricos de minha memória. Reitero minha confiança na Justiça de conquista de uma reparação histórica e moral.

Prefiro, como fez José Carlos Dias, o testemunho que vale a memória. Pelo direito à verdade!’

EDSON LUIS DE ALMEIDA TELES, um dos autores do processo da família Teles contra o coronel Ustra (São Paulo, SP)

domingo, 17 de dezembro de 2006

O mundo é vermelho ...

SC Internacional de Porto Alegre, campeão mundial interclubes de 2006.

"Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda a terra"

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Ângulos da cena brasileira em análise

A eleição presidencial de 2006, principalmente durante o segundo turno, evidenciou alguns aspectos que marcarão o conflito político e de classes no Brasil no próximo período. Se sobressaem [1] o comportamento parcial e tendencioso da mídia, [2] a pregação odiosa da direita e a vilania contra Lula, o PT e as forças populares, [3] a deslegitimação do animus golpista em razão da formidável vitória de Lula e [4] a interpelação popular e anti-neoliberal do discurso de Lula nas eleições.

Além disso, a derrota do conservadorismo e da direita brasileira foi acompanhada da mais espetacular derrota da mídia no Brasil, inexitosa na tentativa de manipulação do debate público à feição do udenismo ressuscitado. A consciência do povo brasileiro acerca das melhorias propiciadas pelo governo Lula – ainda que limitadas e contraditórias – não foi entorpecida pela mídia e menos ainda escravizada pelo poder oligárquico.

A partir desses pressupostos, o simpósio Ângulos da cena brasileira em análise buscará refletir sobre as tarefas postas para a esquerda no segundo governo Lula e, principalmente, sobre as perspectivas para a realização das reformas sociais urgentes e necessárias em meio às tensões e contradições intrínsecas a um governo de coalizão.

Segundo governo este que se desenrola num cenário continental e internacional mais favorável ao avanço da consciência cívica mundial de oposição à hegemonia norte-americana e ao neoliberalismo e propício à maior integração de projetos solidários entre os povos.

Os conferencistas do simpósio serão Dilermando Toni – PcdoB, Miguel Rossetto – PT, Raimundo Pereira – Revista Reportagem e Roberto Amaral – PSB.

O simpósio acontece na próxima terça 19/12 às 19 horas na Casa dos Bancários, sendo uma realização do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre e SindBancários - Sindicato dos Bancários de Porto Alegre com o apoio do SINTRAJUFE/RS, CPERS, Federação dos Bancários e CUT/RS.

Acontece em Porto Alegre para que nunca mais aconteça na história da humanidade

Na próxima segunda 18/12 ocorrerá um ato de homenagem à família Teles, que promoveu ação judicial declaratória contra o torturador Brilhante Ustra. Biruta do Sul publicou vários apontamentos sobre o assunto, que podem ser revistos no índice ao lado em 12set e de 24nov avaliando os significados desta inédita ação para o debate acerca dos crimes da repressão no Brasil.

A homenagem acontece na Casa dos Bancários às 17h de segunda, sendo promovido por vários partidos políticos, organizações civis, associações de mortos e familiares de desaparecidos, parlamentares e instituições públicas.

Deputação ou depravação?

Depois do hercúleo e heróico esforço para aumentar em OITO REAIS o salário mínimo do povo brasileiro [que passará de R$ 367 para R$ 375], as excelências legislativas “das Brasília” se auto-concederam um aumento de ONZE MIL SEISCENTOS E CINQUENTA E TRÊS REAIS, de molde que o “subsídio” mensal dos deputados e senadores passará de R$ 12.847 para R$ 24.500.

Com o merecido aumento do “subsídio” mensal, nos quatro anos da próxima legislatura as excelências legislativas “das Brasília” receberão R$ 1.470.000 - contando, além do “subsídio” mensal, a regalia de mais três “subsídios” no ano e não se considerando as demais regalias indiretas do mandato. Os ONZE MIL SEISCENTOS E CINQUENTA E TRÊS REAIS significarão R$ 699.180 a mais no bolso das excelências legislativas “das Brasília” nos próximos quatro anos.

Por outro lado, o povo brasileiro do salário mínimo, agraciado por seus representantes parlamentares com um aumento de OITO REAIS, ao cabo dos próximos quatro anos [período de duração do mandato das excelências legislativas “das Brasília”] terá embolsado R$ 19.500 de salários, aí considerado o percebimento do 13º. Com o generoso aumento de OITO REAIS concedido pelos seus representantes parlamentares, o povo brasileiro embolsará R$ 416 a mais nos próximos quatro anos.

A decisão conjunta adotada pelas mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, de tão obscena, deve promover uma reforma na língua portuguesa, reconhecendo a sinonímia entre as palavras deputação e depravação [e, por extensão, entre deputado e depravado], incorporando nessa categoria os/as nobres senadores/as.

A decisão das excelências legislativas “das Brasília” é motivo de alegria, alegria na Assembléia Legislativa gaúcha, cujo “subsídio” mensal dos parlamentares passará automaticamente para R$ 18.300, sem necessidade de decisão e/ou votação, pois os edis anteriormente agiram com sabedoria, estabelecendo a vinculação dos seus ganhos em 75% do que recebem as excelências legislativas “das Brasília”. Aumentou lá, aumenta cá!! Quem sabe não seja este um motivo a ser comemorado pelo povo gaúcho do salário mínimo, que poderá ser agraciado com a ampliação da rede de albergues no Estado.

Em artigo na Carta Maior, Marco Weissheimer pergunta: Alguém aprendeu algo com a crise política?. Leia o artigo e responda à pergunta.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Inaugura na bela e doce capital

Amanhã, 15/12 às 18:30 horas haverá a inauguração de novo espaço cultural em Porto Alegre, o Mundo Paralelo, que terá café, bar e loja de empreendimentos da economia popular e solidária. O Mundo Paralelo se localiza na Casa dos Bancários, a sede do Sindicato dos Bancários que está abrigada no antigo casarão restaurado na Rua da Ladeira [General Câmara] número 424.
Com este novo investimento que se incorpora ao já existente auditório, a Casa dos Bancários tem tudo para se tornar um importante centro político, cultural, intelectual e social da bela e doce capital de todos/as os/as gaúchos/as. A diretoria do Sindicato pretende concluir no próximo ano a Sala de Exibições, com capacidade para 98 lugares.
Vida longa à Casa dos Bancários. Vida longa ao Mundo Paralelo - e que seja infinitamente melhor que o atual.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Agora só falta o Britto ...

Apesar da reiterada insinceridade da governadora eleita Yeda Crusius, desde que o mundo é mundo se sabia que os disfarces utilizados por ela na eleição - “novo jeito de governar” e “choque de gestão” – não passavam de truque eleitoral.

A poucos dias da posse, a fotografia do governo está praticamente completa, e revela que Yeda foi mais realista que a rainha. Na reedição do velho modo neoliberal de destruir, entregará áreas importantes para figurinhas manjadas que fizeram parte do governo Britto – Berfran, Proença, Bonow, ... Britto, bem lembrado, foi aquele governador que destruiu o Estado privatizando funções públicas [pedágios], entregando patrimônio estatal, doando dinheiro público para transnacionais e demitindo massivamente funcionários de funções essenciais.

Britto tem sua trajetória marcada pela destruição: depois do Estado do Rio Grande, devastou fábricas e empregos da mega-indústria de calçados que presidiu. Hoje, sem ocupação definida, poderá ser uma alma a rondar outra vez a atmosfera do Piratini.

Parafraseando Pagina/12, Biruta do Sul deixa uma pergunta perturbadora: o quê haverá feito o povo gaúcho para merecer isso?!?!?!

Acontece na bela e doce capital

Desde o último 11/12 até 16/12 acontece em Porto Alegre a 8ª Feira Estadual de Economia Popular Solidária. A feira congrega produtores/as associados/as, cooperativados/as, individuais, agricultores/as e “agroindustriais” familiares de várias regiões do Rio Grande, oferecendo principalmente alimentos, artesanato, bebidas, vestuário a preços honestos e qualidade certificada.
Vale conferir a Feira, que acontece no Largo Glênio Peres, das 8:30h às 20h.

Avermelhando o planeta ...

Vêm do oriente os ventos que colorem de vermelho o planeta ...
Vâmo vâmo Inter!!!

Quá Quá Quá!!! Com gol do Pato!!!

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Não precisa ser, mas tem de ter gratidão

O presidente Lula até pode, de fato, não se considerar alguém de esquerda, muito embora o governo por ele capitaneado - com todos limites, contradições e avanços – ainda tem situado o Brasil à esquerda na política internacional e diminuído as desigualdades e injustiças sociais no plano interno.

É certo que a esquerda não-dogmática do país – de inserção social, partidária ou intelectual - tem demonstrado sapiência e noção estratégica para compreender perfeitamente a complexidade do momento histórico e saber discernir de que lado o jogo deve ser jogado.

Até por isso o presidente poderia expressar melhor gratidão pela esquerda, esta condição honrosa que para muitos independe de idades, gerações e principalmente de circunstâncias. Afinal, foram os valores, os compromissos e o discurso de um mundo melhor, portados pela esquerda, que o elegeram presidente para mudar o Brasil. Duas vezes.

Enquanto isso, nas portas do inferno ...


Gilberto Maringoni, uma dessas maravilhosas obras do cartunismo brasileiro, flagrou o rebuliço no inferno causado pela notícia da chegada do sanguinário Pinochet. A charge do Maringa está acompanhada de ótimas notícias no saite da Carta Maior.

¿QUE HABRÁ HECHO EL INFIERNO PARA MERECER ESTO?

Uma das manchetes mais inspiradas ontem foi do diário argentino Página/12, sugerindo que ainda está por existir um lugar para abrigar o facínora Pinochet. Nem para o inferno o sanguinário merece ir.

Quando da morte do ditador argentino Leopoldo Galtiéri em janeiro de 2003, o título de capa do Página/12 foi “Sólo llora Johnnie Walker”, numa clara alusão ao alcoolismo que marcou a vida do sanguinário ditador ao lado da crueldade da repressão. Numa matéria de dentro do jornal, outro título inspiradíssimo daquela edição do Página/12: “Murió el amigo del whisky y la tortura.

Santa diferença do Página/12 em relação à mídia tupiniquim!!!


segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Governo de coalizão precisa da força do povo

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br


A semana que passou foi grifada com uma significativa derrota política do governo Lula, que amargou a eleição do deputado pefelista Aroldo Cedraz [afilhado político de ACM] para o cargo de Ministro do Tribunal de Contas da União [TCU]. No mínimo, foi uma derrota da crença do governo em buscar obsessivamente maioria congressual sem politizar a relação com a ampla maioria social que o elegeu.

Lula pertence à rara galeria de governantes mundiais que ostenta um portfólio de quase 60 milhões de sufrágios populares e uma das maiores votações proporcionais já obtidas no planeta com 61% da preferência do eleitorado nacional. Entretanto, este capital social e eleitoral parece valer pouco na definição da estratégia de sustentação do governo com vistas à implementação das reformas democráticas e populares que o Brasil necessita.

Nesses dias em que a humanidade se livra para sempre do facínora chileno [Pinochet], nunca é demais lembrar a importância de que governos progressistas e de esquerda combinem [i] a adesão do povo que almeja mudanças com o [ii] equilíbrio institucional amplo, que inclui arranjos parlamentares para constituição de maiorias.

Todas as sinalizações de Lula e do PT para a montagem do segundo governo, todavia, evidenciam a persistência do mesmo erro cometido durante o primeiro mandato, em que a governabilidade foi concebida fundamentalmente nos limites da relação com o Congresso Nacional. Não houve equilíbrio [e poderá não haver no segundo mandato] entre a busca de maioria parlamentar e a implementação de formas de deliberação pública e de comprometimento programático na sociedade que poderia ocorrer, por exemplo, com mecanismos de democracia participativa e de outros canais de participação social e de interlocução com os movimentos sociais e de relação com demais agentes políticos sub-nacionais.

A derrota sofrida pelo governo na indicação do Ministro do TCU pode ser encarada como sinal da desarticulação do PT no Congresso e da barganha da base aliada nas negociações, mas não pode ser recusada enquanto demonstração dos limites de compromissos dos setores partidários da aliança formada no governo de coalizão. Não pode haver confiabilidade absoluta nessa sustentação congressual pelo simples fato de que não haverá 100% de fidelidade dos novos aliados com as propostas do governo - mesmo que hoje a feitura das alianças ocorra a partir da pactuação transparente e de “bases programáticas” [expressão de dirigentes do PT], porque são grandes as contradições programáticas com os partidos da coalizão.

Alianças parlamentares para sustentação de um governo de esquerda se justificam quando ajudam a concretizar os compromissos programáticos e as mudanças que superem as desigualdades e as graves injustiças sociais do país. Podem ser mediações políticas que ajudam a concretizar o projeto do governo; mas jamais se pode iludir com a idéia de que após constituídas se bastam em si mesmas. É essencial, junto com a viabilização de maioria de apoio do governo no parlamento, o estabelecimento de estratégias de irradiação da participação popular nos rumos e no controle do governo e do Estado.

O povo organizado, consciente e participante pode ser o aliado fundamental para que o parlamento e os parlamentares possam desenvolver políticas de interesse do país e da maioria da sociedade. O povo pode ser, também, o mais fiel sujeito político capaz de obstruir as tentativas da direita e do conservadorismo em desestabilizar e destituir o governo Lula. Se não existir equilíbrio entre a sustentação congressual e a relação organizada com a sociedade, o governo poderá ter prejuízos importantes. No primeiro mandato, mesmo sem nunca ter necessitado maioria de 2/3 no Congresso o governo cedeu tudo à chamada base aliada, que não evitou a derrota para a presidência da Câmara dos Deputados e também não impediu as CPI´s ilegais montadas pelo conservadorismo tucano-pefelista para atacar implacavelmente Lula e o governo com o apoio do oligopólio midiático. Esta é uma lição que deve ser levada em consideração.