sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Acontece em Porto Alegre para que nunca mais aconteça na história da humanidade

Na próxima segunda 18/12 ocorrerá um ato de homenagem à família Teles, que promoveu ação judicial declaratória contra o torturador Brilhante Ustra. Biruta do Sul publicou vários apontamentos sobre o assunto, que podem ser revistos no índice ao lado em 12set e de 24nov avaliando os significados desta inédita ação para o debate acerca dos crimes da repressão no Brasil.

A homenagem acontece na Casa dos Bancários às 17h de segunda, sendo promovido por vários partidos políticos, organizações civis, associações de mortos e familiares de desaparecidos, parlamentares e instituições públicas.

Deputação ou depravação?

Depois do hercúleo e heróico esforço para aumentar em OITO REAIS o salário mínimo do povo brasileiro [que passará de R$ 367 para R$ 375], as excelências legislativas “das Brasília” se auto-concederam um aumento de ONZE MIL SEISCENTOS E CINQUENTA E TRÊS REAIS, de molde que o “subsídio” mensal dos deputados e senadores passará de R$ 12.847 para R$ 24.500.

Com o merecido aumento do “subsídio” mensal, nos quatro anos da próxima legislatura as excelências legislativas “das Brasília” receberão R$ 1.470.000 - contando, além do “subsídio” mensal, a regalia de mais três “subsídios” no ano e não se considerando as demais regalias indiretas do mandato. Os ONZE MIL SEISCENTOS E CINQUENTA E TRÊS REAIS significarão R$ 699.180 a mais no bolso das excelências legislativas “das Brasília” nos próximos quatro anos.

Por outro lado, o povo brasileiro do salário mínimo, agraciado por seus representantes parlamentares com um aumento de OITO REAIS, ao cabo dos próximos quatro anos [período de duração do mandato das excelências legislativas “das Brasília”] terá embolsado R$ 19.500 de salários, aí considerado o percebimento do 13º. Com o generoso aumento de OITO REAIS concedido pelos seus representantes parlamentares, o povo brasileiro embolsará R$ 416 a mais nos próximos quatro anos.

A decisão conjunta adotada pelas mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, de tão obscena, deve promover uma reforma na língua portuguesa, reconhecendo a sinonímia entre as palavras deputação e depravação [e, por extensão, entre deputado e depravado], incorporando nessa categoria os/as nobres senadores/as.

A decisão das excelências legislativas “das Brasília” é motivo de alegria, alegria na Assembléia Legislativa gaúcha, cujo “subsídio” mensal dos parlamentares passará automaticamente para R$ 18.300, sem necessidade de decisão e/ou votação, pois os edis anteriormente agiram com sabedoria, estabelecendo a vinculação dos seus ganhos em 75% do que recebem as excelências legislativas “das Brasília”. Aumentou lá, aumenta cá!! Quem sabe não seja este um motivo a ser comemorado pelo povo gaúcho do salário mínimo, que poderá ser agraciado com a ampliação da rede de albergues no Estado.

Em artigo na Carta Maior, Marco Weissheimer pergunta: Alguém aprendeu algo com a crise política?. Leia o artigo e responda à pergunta.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Inaugura na bela e doce capital

Amanhã, 15/12 às 18:30 horas haverá a inauguração de novo espaço cultural em Porto Alegre, o Mundo Paralelo, que terá café, bar e loja de empreendimentos da economia popular e solidária. O Mundo Paralelo se localiza na Casa dos Bancários, a sede do Sindicato dos Bancários que está abrigada no antigo casarão restaurado na Rua da Ladeira [General Câmara] número 424.
Com este novo investimento que se incorpora ao já existente auditório, a Casa dos Bancários tem tudo para se tornar um importante centro político, cultural, intelectual e social da bela e doce capital de todos/as os/as gaúchos/as. A diretoria do Sindicato pretende concluir no próximo ano a Sala de Exibições, com capacidade para 98 lugares.
Vida longa à Casa dos Bancários. Vida longa ao Mundo Paralelo - e que seja infinitamente melhor que o atual.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Agora só falta o Britto ...

Apesar da reiterada insinceridade da governadora eleita Yeda Crusius, desde que o mundo é mundo se sabia que os disfarces utilizados por ela na eleição - “novo jeito de governar” e “choque de gestão” – não passavam de truque eleitoral.

A poucos dias da posse, a fotografia do governo está praticamente completa, e revela que Yeda foi mais realista que a rainha. Na reedição do velho modo neoliberal de destruir, entregará áreas importantes para figurinhas manjadas que fizeram parte do governo Britto – Berfran, Proença, Bonow, ... Britto, bem lembrado, foi aquele governador que destruiu o Estado privatizando funções públicas [pedágios], entregando patrimônio estatal, doando dinheiro público para transnacionais e demitindo massivamente funcionários de funções essenciais.

Britto tem sua trajetória marcada pela destruição: depois do Estado do Rio Grande, devastou fábricas e empregos da mega-indústria de calçados que presidiu. Hoje, sem ocupação definida, poderá ser uma alma a rondar outra vez a atmosfera do Piratini.

Parafraseando Pagina/12, Biruta do Sul deixa uma pergunta perturbadora: o quê haverá feito o povo gaúcho para merecer isso?!?!?!

Acontece na bela e doce capital

Desde o último 11/12 até 16/12 acontece em Porto Alegre a 8ª Feira Estadual de Economia Popular Solidária. A feira congrega produtores/as associados/as, cooperativados/as, individuais, agricultores/as e “agroindustriais” familiares de várias regiões do Rio Grande, oferecendo principalmente alimentos, artesanato, bebidas, vestuário a preços honestos e qualidade certificada.
Vale conferir a Feira, que acontece no Largo Glênio Peres, das 8:30h às 20h.

Avermelhando o planeta ...

Vêm do oriente os ventos que colorem de vermelho o planeta ...
Vâmo vâmo Inter!!!

Quá Quá Quá!!! Com gol do Pato!!!

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Não precisa ser, mas tem de ter gratidão

O presidente Lula até pode, de fato, não se considerar alguém de esquerda, muito embora o governo por ele capitaneado - com todos limites, contradições e avanços – ainda tem situado o Brasil à esquerda na política internacional e diminuído as desigualdades e injustiças sociais no plano interno.

É certo que a esquerda não-dogmática do país – de inserção social, partidária ou intelectual - tem demonstrado sapiência e noção estratégica para compreender perfeitamente a complexidade do momento histórico e saber discernir de que lado o jogo deve ser jogado.

Até por isso o presidente poderia expressar melhor gratidão pela esquerda, esta condição honrosa que para muitos independe de idades, gerações e principalmente de circunstâncias. Afinal, foram os valores, os compromissos e o discurso de um mundo melhor, portados pela esquerda, que o elegeram presidente para mudar o Brasil. Duas vezes.

Enquanto isso, nas portas do inferno ...


Gilberto Maringoni, uma dessas maravilhosas obras do cartunismo brasileiro, flagrou o rebuliço no inferno causado pela notícia da chegada do sanguinário Pinochet. A charge do Maringa está acompanhada de ótimas notícias no saite da Carta Maior.

¿QUE HABRÁ HECHO EL INFIERNO PARA MERECER ESTO?

Uma das manchetes mais inspiradas ontem foi do diário argentino Página/12, sugerindo que ainda está por existir um lugar para abrigar o facínora Pinochet. Nem para o inferno o sanguinário merece ir.

Quando da morte do ditador argentino Leopoldo Galtiéri em janeiro de 2003, o título de capa do Página/12 foi “Sólo llora Johnnie Walker”, numa clara alusão ao alcoolismo que marcou a vida do sanguinário ditador ao lado da crueldade da repressão. Numa matéria de dentro do jornal, outro título inspiradíssimo daquela edição do Página/12: “Murió el amigo del whisky y la tortura.

Santa diferença do Página/12 em relação à mídia tupiniquim!!!


segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Governo de coalizão precisa da força do povo

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br


A semana que passou foi grifada com uma significativa derrota política do governo Lula, que amargou a eleição do deputado pefelista Aroldo Cedraz [afilhado político de ACM] para o cargo de Ministro do Tribunal de Contas da União [TCU]. No mínimo, foi uma derrota da crença do governo em buscar obsessivamente maioria congressual sem politizar a relação com a ampla maioria social que o elegeu.

Lula pertence à rara galeria de governantes mundiais que ostenta um portfólio de quase 60 milhões de sufrágios populares e uma das maiores votações proporcionais já obtidas no planeta com 61% da preferência do eleitorado nacional. Entretanto, este capital social e eleitoral parece valer pouco na definição da estratégia de sustentação do governo com vistas à implementação das reformas democráticas e populares que o Brasil necessita.

Nesses dias em que a humanidade se livra para sempre do facínora chileno [Pinochet], nunca é demais lembrar a importância de que governos progressistas e de esquerda combinem [i] a adesão do povo que almeja mudanças com o [ii] equilíbrio institucional amplo, que inclui arranjos parlamentares para constituição de maiorias.

Todas as sinalizações de Lula e do PT para a montagem do segundo governo, todavia, evidenciam a persistência do mesmo erro cometido durante o primeiro mandato, em que a governabilidade foi concebida fundamentalmente nos limites da relação com o Congresso Nacional. Não houve equilíbrio [e poderá não haver no segundo mandato] entre a busca de maioria parlamentar e a implementação de formas de deliberação pública e de comprometimento programático na sociedade que poderia ocorrer, por exemplo, com mecanismos de democracia participativa e de outros canais de participação social e de interlocução com os movimentos sociais e de relação com demais agentes políticos sub-nacionais.

A derrota sofrida pelo governo na indicação do Ministro do TCU pode ser encarada como sinal da desarticulação do PT no Congresso e da barganha da base aliada nas negociações, mas não pode ser recusada enquanto demonstração dos limites de compromissos dos setores partidários da aliança formada no governo de coalizão. Não pode haver confiabilidade absoluta nessa sustentação congressual pelo simples fato de que não haverá 100% de fidelidade dos novos aliados com as propostas do governo - mesmo que hoje a feitura das alianças ocorra a partir da pactuação transparente e de “bases programáticas” [expressão de dirigentes do PT], porque são grandes as contradições programáticas com os partidos da coalizão.

Alianças parlamentares para sustentação de um governo de esquerda se justificam quando ajudam a concretizar os compromissos programáticos e as mudanças que superem as desigualdades e as graves injustiças sociais do país. Podem ser mediações políticas que ajudam a concretizar o projeto do governo; mas jamais se pode iludir com a idéia de que após constituídas se bastam em si mesmas. É essencial, junto com a viabilização de maioria de apoio do governo no parlamento, o estabelecimento de estratégias de irradiação da participação popular nos rumos e no controle do governo e do Estado.

O povo organizado, consciente e participante pode ser o aliado fundamental para que o parlamento e os parlamentares possam desenvolver políticas de interesse do país e da maioria da sociedade. O povo pode ser, também, o mais fiel sujeito político capaz de obstruir as tentativas da direita e do conservadorismo em desestabilizar e destituir o governo Lula. Se não existir equilíbrio entre a sustentação congressual e a relação organizada com a sociedade, o governo poderá ter prejuízos importantes. No primeiro mandato, mesmo sem nunca ter necessitado maioria de 2/3 no Congresso o governo cedeu tudo à chamada base aliada, que não evitou a derrota para a presidência da Câmara dos Deputados e também não impediu as CPI´s ilegais montadas pelo conservadorismo tucano-pefelista para atacar implacavelmente Lula e o governo com o apoio do oligopólio midiático. Esta é uma lição que deve ser levada em consideração.

La muerte de un canalla

Por Mario Benedetti
Domingo, 10 de diciembre de 2006

Los canallas viven mucho, pero algún día se mueren

Obituario con hurras
Vamos a festejarlo
vengan todos
los inocentes
los damnificados los que gritan de noche
los que sueñan de día
los que sufren el cuerpo
los que alojan fantasmas
los que pisan descalzos
los que blasfeman y arden
los pobres congelados
los que quieren a alguien
los que nunca se olvidan
vamos a festejarlo
vengan todos
el crápula se ha muerto
se acabó el alma negra
el ladrón
el cochino
se acabó para siempre
hurra
que vengan todos
vamos a festejarlo
a no decir
la muerte
siempre lo borra todo
todo lo purifica
cualquier día
la muerte
no borra nada
quedan
siempre las cicatrices
hurra
murió el cretino
vamos a festejarlo
a no llorar de vicio
que lloren sus iguales
y se traguen sus lágrimas
se acabó el monstruo prócer
se acabó para siempre
vamos a festejarlo
a no ponernos tibios
a no creer que éste
es un muerto cualquiera
vamos a festejarlo
a no volvernos flojos
a no olvidar que éste
es un muerto de mierda.

domingo, 10 de dezembro de 2006

Estadio Chile

Em 12 de setembro de 1973, no dia seguinte ao golpe militar, o músico Victor Jara foi preso na Universidade onde trabalhava e levado diretamente para o Estádio Nacional do Chile, onde foi torturado, ultrajado, teve as mãos amputadas e foi finalmente fuzilado quatro dias depois.

Durante os poucos dias em que esteve confinado no Estádio, escreveu o poema que foi levado por companheiros soltos para sua esposa Joan Jara:

Somos cinco mil
en esta pequeña parte de la ciudad
Somos cinco mil
¿Cuántos seremos en total
en las ciudades y en todo el país?
Sólo aquí, diez mil manos que siembran
y hacen andar las fábricas.

¡Cuánta humanidad
con hambre, frío, pánico, dolor,
presión moral, terror y locura!

Seis de los nuestros se perdieron
en el espacio de las estrellas.

Un muerto, un golpeado como jamás creí
se podría golpear a un ser humano.
Los otros cuatro quisieron quitarse todos los temores
uno saltando al vacío,
otro golpeándose la cabeza contra el muro,
pero todos con la mirada fija de la muerte.
¡Qué espanto causa el rostro del fascismo!
Llevan a cabo sus planes con precisión artera
sin importarles nada.
La sangre para ellos son medallas.
La matanza es acto de heroísmo.
¿Es éste el mundo que creaste, Dios mío?
¿Para esto tus siete días de asombro y de trabajo?
En estas cuatro murallas sólo existe un número
que no progresa,
que lentamente querrá más la muerte.

Pero de pronto me golpea la conciencia
y veo esta marea sin latido,
pero con el pulso de las máquinas
y los militares mostrando su rostro de matrona
lleno de dulzura.

¿Y México, Cuba y el mundo?
¡Que griten esta ignominia!
Somos diez mil manos menos
que no producen.
¿Cuántos somos en toda la Patria?
La sangre del compañero Presidente
golpea más fuerte que bombas y metrallas.
Así golpeará nuestro puño nuevamente.

¡Canto que mal me sales
cuando tengo que cantar espanto!
Espanto como el que vivo
como el que muero, espanto.
De verme entre tanto y tantos
momento del infinito
en que el silencio y el grito
son las metas de este canto.
Lo que veo nunca vi,
lo que he sentido y lo que siento
hará brotar el momento...

Um facínora que se vai

O ditador golpista Augusto Pinochet morreu com o privilégio de não ter nenhum ajuste de contas com a justiça chilena. Com a morte do sanguinário ditador, se foi um dos piores facínoras latino-americanos ainda remanescentes. Ele se foi, contudo, sem pagar um segundo da sua vida com uma condenação merecida, devida, porém nunca recebida.

Mas se não foi julgado e condenado, pelo menos a morte do ditador não significa o esquecimento ou o indulto eterno pela barbárie praticada. Perdoar ou indultar o facínora [e todos repressores da sua laia que agiram nos países do nosso continente] é tão criminoso quanto o crime bárbaro que foi cometido por ele [e os da sua laia] contra seu próprio povo.

A presidenta chilena Michele Bachelet, cujo pai foi morto pela repressão de Pinochet, não concederá ao ditador honras de Estado na cerimônia de sepultamento. A declaração do governo brasileiro, de outra parte, é elogiável por relembrar o pesadelo histórico do período da ditadura chilena, e também por não reconhecer Pinochet como alguém que mereça manifestação solene de parte do Estado brasileiro.

Com o avanço das esquerdas no continente latino-americano, cresce a consciência histórica de que é fundamental o julgamento dos crimes da repressão do passado para um futuro de reconciliação. Oxalá seja o destino desejado por Salvador Allende em seu último pronunciamento feito na Rádio Magallanes instantes antes de sua morte no 11 de setembro de 1973:

Trabajadores de mi patria: Tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición, pretende imponerse. Sigan ustedes, sabiendo, que mucho más temprano que tarde, de nuevo, abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre, para construir una sociedad mejor.

sábado, 9 de dezembro de 2006

Michael Moore envia carta ao povo e ao Congresso dos Estados Unidos

Michael Moore, conhecido cineasta estadunidense autor de Tiros em Columbine e Fahrenheit 9/11 dentre outras importantes produções cinematográficas, publicou no seu saite [www.michaelmoore.com] uma carta enviada ao Congresso e ao povo dos Estados Unidos exigindo a retirada das tropas estadunidenses de ocupação do Iraque, bem como o pagamento de indenizações ao Iraque.

Michael Moore é uma das vozes mais críticas ao governo de George W. Bush Júnior [ou Mister Danger, como se refere a ele o Presidente Hugo Chávez] e com sua atuação desempenha um papel importante na formação de uma consciência alternativa no reino da alienação. Adiante, a carta:


Amigos,

Hoje (27/11) marca o dia em que permanecemos no Iraque mais tempo que aquele que levamos para combater na Segunda Guerra Mundial.

É isso mesmo. Nós fomos competentes para derrotar a Alemanha Nazista, Mussolini e o Império Japonês inteiro em menos tempo que a única superpotência mundial gastou para tentar tornar segura a estrada que liga o aeroporto de Bagdá ao centro da cidade.

E nós não conseguimos fazer isso. Após 1.437 dias, no mesmo tempo que levamos para irromper pela África do Norte, conquistar as praias da Itália, conquistar o Pacífico Sul e libertar toda a Europa Ocidental, nós não pudemos, após 3 anos e meio, conquistar sequer uma simples estrada e proteger a nós mesmos de bombas caseiras, feita de latinhas, colocadas em buracos nas rodovias. Sem contar que uma viagem de táxi do aeroporto até Bagdá, de 25 minutos, custa 35 mil dólares e o motorista não te dá sequer um mísero capacete para sua proteção.

A culpa desse fracasso se deve a nossas tropas? Dificilmente. Não importa o quanto de tropas, de helicópteros ou de democracias nos cuspamos das nossas armas, nada irá "vencer, a guerra no Iraque". Ela é uma guerra perdida. Perdida porque jamais teve o direito de ser vencida, perdida porque começou por homens que jamais estiveram em uma guerra, homens que se escondem atrás daqueles que foram enviados para lutar e morrer..

Vamos ouvir o que o povo iraquiano está dizendo, de acordo com uma pesquisa recente feita pela Universidade de Martland:

- 71% de todos os iraquianos querem os EUA fora do Iraque.

- 61% de todos os iraquianos apóiam os ataques da resistência contra as tropas americanas.

Sim, a vasta maioria dos cidadãos iraquianos acham que nossos soldados devem ser mortos e massacrados! Então, o que diabos nós ainda estamos fazendo lá? Vamos interpretar como se não tivessemos compreeendido a deixa? Existem diversos modos de libertar um país. Freqüentemente os cidadãos se rebelam e se libertam a si próprios. Foi assim que nós fizemos.

E você também pode fazer isso de modo não violento, usando a desobediência civil. Foi assim que a Índia fez.

Você pode também fazer com que o mundo inteiro boicote o regime de um país até que ele caia no ostracismo e capitule.

Foi isso que aconteceu com a África do Sul.

Ou, você pode simplesmente esperar que eles cansem e caiam fora, cedo ou tarde, como as legiões do rei fizeram (Algumas só porque estavam com muito frio). Isso aconteceu no vizinho Canadá.

O único modo que não funciona é invadir um país e dizer a seu povo "Estamos aqui para libertar vocês", enquanto eles não faziam nada para libertar-se.

Onde estavam todos esses homens suicidas enquanto Saddam Hussein oprimia o povo? Onde estavam os "insurgentes" que plantam bombas nas estradas quando o comboio do maligno Saddam Hussein passeava por elas? E acho que o velho Saddam era um déspota cruel - mas não tão cruel a ponto de milhares arriscarem seus pescoços contra ele.

"Ah não Mike, eles não podiam fazer isso! Saddam os mataria!" Sério? você acha que o rei George não mataria quem se insurgisse contra ele? Você acha que Patrick Henry e Tom Paine tinham medo? Isso não os impediu de lutar.

Quando dezenas de milhares de pessoas não têm a inclinação de sair às ruas e derramar seu sangue para remover um ditador, isso deve servir como uma boa pista de que eles não estão desejando participar de alguma libertação promovida de fora.

Uma nação pode ajudar outro povo a remover um tirano (Foi o que os franceses fizeram por nós em nossa revolução), mas depois disso, você cai fora. Imediatamente! Os franceses não ficaram e nos disseram como deveriamos constituir nosso governo.

Eles não disseram "não estamos indo embora porque nós queremos os seus recursos naturais".

Eles nos deixaram à nossa própria sorte e nós levamos seis anos para fazer uma eleição depois da partida deles.

E daí tivemos uma sangrenta guerra civil. Isso foi o que aconteceu e a História está cheia desses exemplos. Os franceses não disseram: "Oh, é melhor ficar na América, de outro modo eles vão se matar uns aos outros discutindo essa história de escravagismo".

O único caminho que leva uma guerra de libertação ao sucesso é ter por trás dela o apoio de seus próprios cidadãos - e um numeroso grupo de Washingtons, Jeffersons, Franklins, Gandhis e Mandelas liderando a insurreição. Onde estão esses faróis da liberdade no Iraque? Essa é uma piada e tem sido uma piada desde o início. Sim, nós eramos a piada, mas com 655.000 iraquianos mortos como resultado da nossa invasão - segundo a Universidade John Hopkins - eu acho que a piada de mau gosto agora é deles. Pelo menos eles foram libertados, permanentemente.

Por isso não quero ouvir nenhuma outra palavra sobre enviar ainda mais tropas (acorda Estados Unidos, John McCain está maluco!), ou sobre "realocá-las", ou esperar mais quatro meses para começar a " vencer o prazo" delas.

Só existe uma única solução e ela é simples: retirada! Agora. Comecem hoje à noite. Vamos cair fora de lá o mais rápido que pudermos.

Quanto mais pessoas de boa vontade e consciência não quiserem acreditar nisso, quanto mais mortes nós teremos para aceitar a derrota, nada poderemos fazer para reparar o dano que cometemos. O que aconteceu, aconteceu.

Se você dirigiu bêbado, atropelou e matou uma criança, não haverá nada no mundo que você possa fazer para devolver a vida àquela criança.

Se você invadiu e destruiu um país, lançando o povo a uma guerra civil, não há nada que você possa fazer até que a fumaça dissipe e o sangue derramado seque. Então, talvez, você possa acordar e ver a atrocidade que cometeu e depois ajudar os sobreviventes a tentar melhorar suas vidas.

A União Soviética caiu fora do Afeganistão em 36 semanas. Saíram assim e tiveram perdas pesadas na retirada.

Eles compreenderam o erro que cometeram e removeram suas tropas. Depois, veio uma guerra civil. Os maus venceram.

Mais tarde, nós derrubamos os maus e tudo viveu melhor depois disso. Veja! No fim, a coisa funciona! A responsabilidade pelo fim dessa guerra cabe agora aos democratas. O Congresso puxa as cordinhas e a Constituição diz que só o Congresso pode declarar a guerra. O senhor Reid e a senhora Nancy Pelosi têm agora o poder para colocar um fim a essa loucura. Se fracassarem nisso, a ira dos eleitores recairá sobre eles. Nós não estamos brincando senhores democratas e se vocês não acreditam em nós, toquem em frente e continuem essa guerra por outro mês. Nós lutaremos contra vocês ainda mais forte que fizemos contra os republicanos. A página de abertura de meu site na Internet tem uma foto de Nancy Pelosi e Henry Reid, feitas a partir de fotos de soldados americanos que morreram lutando a Guerra de Bush.

Mas que será a partir de agora a Guerra de Bush contra os Democratas, a menos que alguma outra rápida ação seja tomada.

Essas são nossas exigências:

1 - Tragam as tropas para casa já! Não em seis meses. Agora! Deixem de procurar um meio de vencer. Nós não podemos vencer. Nós perdemos.

Às vezes se perde. Essa é uma dessas vezes. Sejam corajosos e admitam isso.

2 - Peçam desculpas a nossos soldados e façam melhor. Digam a eles que nos desculpem porque eles foram usados para lutar uma guerra que não tinha nada a ver com a nossa segurança nacional. Nós precisamos assegurar que cuidaremos deles e que eles sofrerão o mínimo possível. Os soldados incapacitados fisica e psicologicamente receberão os melhores cuidados e uma compensação financeira significante. As famílias dos soldados que morreram merecem as maiores desculpas e precisam ser cuidadas para o resto das suas vidas.

3 - Devemos nos expiar das atrocidades que perpetramos contra o povo do Iraque. Há poucos males piores que fazer a guerra baseados em uma mentira, invadir outro país porque você quer o que é deles e que está enterrado no solo. Agora muitos mais irão morrer. Seu sangue estará em nossas mãos, não interessa em quem votamos. Se você paga impostos, contribuiu para os 3 bilhões de dólares por semana que gastamos para levar o Iraque para o Inferno onde está o país agora. Quando a guerra civil tiver terminado, nós deveremos ajudar a reconstruir o Iraque.

Nós não podemos nos redimir se não fizermos isso.

Por último, há uma coisa que eu sei. Nós, americanos, somos melhores do que as coisas que fizeram em nosso nome. A maioria de nós ficou estarrecida e zangada com o que aconteceu em 11 de setembro e perdeu a cabeça. Nós não pensamos direito e jamais olhamos um mapa.

Porque somos mantidos na estupidez graças ao nosso sistema patético de educação e à nossa mídia preguiçosa, não sabemos nada de História.

Nós não sabemos que somos os caras que financiaram e armaram Saddam Hussein por muitos anos, inclusive quando ele massacrou os curdos.

Ele era o nosso cara. Nós não sabíamos o que era um sunita ou um xiita, sequer havíamos escutado essas palavras.

De acordo com o National Geographic, 80% dos adultos do nosso país não sabem localizar o Iraque no globo terrestre.

Nossos líderes jogaram com nossa estupidez, nos manipularam com suas mentiras e nos amedrontaram até a morte.

Mas, no fundo, somos um povo de bom coração. Aprendemos devagar, mas a bandeira de "missão cumprida" nos atingiu de modo ímpar e cedo começamos a fazer algumas perguntas. Depois, começamos a ficar espertos. No último dia 7 de novembro, nós ficamos loucos e tentamos consertar nossos erros.

A maioria agora conhece a verdade. A maioria agora sente uma tristeza e culpa profundas e uma esperança de qualquer coisa que seja feita, será melhor e colocará tudo nos eixos.

Infelizmente, não é assim. Então precisamos aceitar as conseqüências de nossas ações e fazer o melhor para que o povo iraquiano possa até pensar em pedir auxílio a nós no futuro. Pedimos a eles que nos perdoem.

Pedimos aos democratas que nos escutem e que saiamos do Iraque agora!

Do seu, Michael Moore

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

O Fidel Castro que Eu conheço

Hoje, 06/12, será exibido o documentário O Fidel que Eu conheço no Discovery, canal 51 de TV por assinatura. O documentário leva o mesmo nome do ensaio escrito por Gabriel García Márquez, cujas passagens do belíssimo texto transcrevemos adiante [quem desejar o texto completo, é só solicitar]:

"... Fatigado de conversar, descansa conversando. Escreve bem e gosta de fazê-lo. O maior estímulo de sua vida é a emoção do risco. A tribuna de improvisador parece ser seu meio ecológico perfeito. Começa sempre com voz quase inaudível, com um rumo incerto, mas aproveita qualquer chispa para ir ganhando terreno, palmo a palmo, até que dá uma espécie de grande fisgada e se apodera da audiência. É a inspiração: o estado de graça irresistível e deslumbrante, que só negam aqueles que não tiveram a glória de vivê-lo. É o antidogmático por excelência. ..."

"... Ninguém pode ser mais obsessivo do que ele quando se propõe a levar a fundo qualquer coisa. Não há um projeto colossal ou milimétrico, no qual não se empenhe com uma paixão encarniçada. E, em especial, tem que enfrentar a adversidade. Em nenhuma outra situação parece melhor disposto, de melhor humor. Alguém que crê conhecê-lo bem disse para ele certa vez: 'As coisas devem andar muito mal, porque você está radiante.' ... "

"... Sua visão da América Latina no futuro é a mesma de Bolívar e Martí, uma comunidade integrada e autônoma, capaz de mover o destino do mundo. O país do qual mais sabe, depois de Cuba, é os Estados Unidos. Conhece a fundo a índole de sua gente, suas estruturas de poder, as segundas intenções de seus governos, e isto o ajudou a suportar a tormenta incessante do bloqueio. ..."

"... Escutei-o, em suas escassas horas de nostalgia, evocar as coisas que poderia ter feito de outro modo para ganhar mais tempo na vida. Ao vê-lo incomodado pelo peso de tantos destinos alheios, perguntei o que mais gostaria de fazer neste mundo, e ele me respondeu imediatamente: ficar parado em uma esquina."

domingo, 3 de dezembro de 2006

Em nome da justiça e da história

Teve início uma campanha [texto adiante] de apoio à ação judicial declaratória impetrada pela família Maria Amélia e César Teles contra Brilhante Ustra, torturador responsável pelo DOI-CODI em São Paulo no período mais escabroso da repressão militar. A vitória da família Teles cria um novo paradigma jurídico e institucional acerca do julgamento dos crimes ocorridos no período ditatorial, colocando o Brasil na mesma trilha dos demais países do continente latino-americano.

Para que nunca mais aconteça, para que não se esqueça, todo apoio à família Teles! Para tanto, basta enviar email para apoioafamiliateles@gmail.com.


São Paulo, 23 de novembro de 2006

Tendo sofrido seqüestro e tortura entre 1972 e 1973, Maria Amélia de Almeida Teles (62 anos) e seus familiares – o marido César Teles (62), os filhos Janaína Teles (39) e Édson Teles (38), e a irmã Criméia de Almeida (61) abriram processo contra Carlos Alberto Brilhante Ustra, o "Tibiriçá", hoje com 74 anos, coronel reformado do Exército, que comandou o DOI-Codi de São Paulo entre setembro de 1970 e janeiro de 1974.

Trata-se de ação declaratória impetrada pelo advogado Fábio Konder Comparato junto à 23ª Vara Cível do Foro Central de São Paulo, exigindo o reconhecimento de ocorrência de danos morais e físicos, em processo que não envolve punição criminal ou indenização pecuniária.

Os abaixo-assinados em anexo prestam integral apoio a essa causa, por considerá-la atributo fundamental da democracia e por entender que a ofensa aos direitos humanos, como praticada durante a ditadura militar, não está sujeita a prescrição.

Os interessados em assinar a moção favor enviar seu nome ou instituição que representa para o e-mail apoioafamiliateles@gmail.com. A lista dos abaixo-assinados será atualizada a cada três dias.

Cordialmente,

Grupo de Apoio a Família Teles

sábado, 2 de dezembro de 2006

Biruta está em Cuba - com o coração e pela internet

As festividades pelos 50 anos de desembarque do Granma em Cuba e do aniversário de 80 anos de Fidel Castro podem ser acompanhadas ao vivo pela Rádio Habana Cuba, Rádio Rebelde e pela TV Cubavisión Internacinal.

As fotografias são do Granma durante desfile militar e na Praça da Revolução.

Todas las voces en La Habana

“Todas las voces en La Habana

POR MIREYA CASTAÑEDA —de Granma Internacional

Todas las voces todas, / todas las manos

todas, / toda la sangre puede / ser canción

en el viento; / canta conmigo canta, /

hermano americano, / libera tu esperanza /

con un grito en la voz.


Se presentía algo sui géneris. Artistas de tres continentes unidos en un escenario al aire libre. La canción comprometida, el folklore, y hasta la música bailable. La convocatoria provenía de un nombre excepcional: Guayasamín.

La Fundación creada por el Pintor de Iberoamérica, y dirigida ahora por sus familiares, coordinaba el homenaje de la música por el aniversario 80 del presidente Fidel Castro y Todas las voces todas en La Habana fue un suceso mayor.

Se trata del tercer concierto con este título, los dos anteriores, en Quito, tuvieron como objetivo recaudar fondos para continuar la construcción de La capilla del Hombre, magna idea del maestro Guayasamín.”

***

Durante a exposição do pintor pintor equatoriano Oswaldo Guayasamín no Museo Nacional de Bellas Artes de La Habana realizada no bojo das homenagens ao aniversário de Fidel, o Ministro de Cultura de Cuba, Abel Prieto, fez uma das tantas declarações que dimensionam o sentido histórico e universal da vida de Fidel:

"Ha habido reflexiones y debates con una gran carga emotiva. Las palabras que se han oído continuamente son solidaridad, hermandad. Es muy valioso que todo el mundo haya estado y nos hayan traído visiones de la gran obra del Comandante desde distintos ángulos, desde distintos puntos de vista. Cuando se haga el libro del coloquio va a ser una sorpresa ver la cantidad de material en términos testimoniales, de argumentos, incluso para los cubanos que hemos estado tan cerca de la obra de Fidel. La dimensión universal del Comandante en toda su plenitud ha sido expuesta no por nosotros, sino por amigos que han venido de todo el mundo".

50 anos de Granma

Em 02 de dezembro de 1956, a bordo do iate Granma, Fidel Castro, Che Guevara e outros 80 camaradas de armas desembarcaram na província de Oriente, em Cuba, dando início à formação do Exército Rebelde que em 1º de janeiro de 1959 consumou a Revolução Cubana, esta epopéia socialista latino-americana que povoa desde então o imaginário de gerações humanistas e militantes em todo o mundo.

Juntamente com as comemorações alusivas aos 50 anos de desembarque do Granma em Cuba, se celebram os 80 anos de idade do Comandante Fidel Castro, completados em 13 de agosto passado. Mais de mil e quinhentas personalidades, ativistas, pensadores, políticos, cineastas, artistas, intelectuais e militantes de todas as partes do mundo participam das festividades apesar da ausência do comandante, que convalesce no hospital.

A imprensa internacional sonega o acontecimento, do qual participam o ator francês Gerard Depardieu, os presidentes René Preval do Haiti, Evo Morales da Bolívia, Daniel Ortega da Nicarágua e tantas outras representações. Emir Sader representa oficialmente o Partido dos Trabalhadores e, subjetivamente, também se faz representada toda “nuestra raza” que não foi extinta, como desejam os fascistas brasileiros.

Viva Fidel! Viva Cuba!
Hasta la victória, siempre!

A Lei de Anistia deve ser revista?

A Folha de São Paulo de hoje, 02/12, publica os artigos “Direito à verdade e à justiça” de Hélio Bicudo e Flávia Piovesan e “Revisão para tudo ficar como está?” de Tércio Sampaio Ferraz Júnior, em resposta à pergunta “A Lei de Anistia deve ser revista?”, na seção Tendências/Debates do jornal.

Desde setembro passado, com a ação declaratória da família Telles contra Brilhante Ustra, Biruta do Sul tem publicado notas sobre o assunto, das quais vale ler “Julgar torturadores e reescrever a verdadeira história”, “Os significados da ação declaratória contra Brilhante Ustra” e “Fim da lei de caducidade no Uruguay”.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

A onipotência da mídia e a onipotência do Ministro

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br

É espantoso como o Ministro do Supremo Tribunal Federal [STF], Marco Aurélio de Mello, que também acumula o cargo de Presidente do Tribunal Superior Eleitoral [TSE], descumpre regras elementares do mundo jurídico, as quais deveriam ser rigorosamente observadas por quem exerce função nas mais elevadas instâncias jurisdicionais da República.

Nas eleições, as atitudes do Ministro por muito pouco não produziram conseqüências imprevisíveis à normalidade democrática e ao processo eleitoral. Antes de se portar como magistrado, Marco Aurélio foi um destacado artífice político. Emitiu sistematicamente opiniões políticas, fez declarações controvertidas acerca da crise política e, pior que tudo, irresponsavelmente lançou suspeitas de instalação de grampos telefônicos no TSE, o que posteriormente foi comprovado não ter ocorrido. Mais: Marco Aurélio chegou a insinuar o mando do Executivo na ação!

Ainda no primeiro turno das eleições, quanto mais subia a temperatura da campanha eleitoral, mais combustível o Ministro do TSE ateava na crise. Marco Aurélio nunca escondeu sua ânsia em impugnar a candidatura Lula ou, no mínimo, deslegitimar a reeleição do presidente Lula e assim contribuir para o reforço das teses golpistas empreendidas pelo reacionarismo tucano-pefelista com a propagação pela mídia lacerdista. Tudo isso pensado na circunstância de uma vitória esquálida de Lula no primeiro turno.

Nos pronunciamentos em cadeia de rádio e televisão proferido à toda a Nação convocando o povo brasileiro a votar, Marco Aurélio não conseguiu conter seu ímpeto militante e fez proselitismo político-eleitoral em favor de “mudança”, ou seja, em favor de Alckmin.

A biografia de Marco Aurélio de Mello em 2006 mostra uma pessoa talhada na parcialidade, na desobediência às normas e à moral, na incúria administrativa e no abuso dos atos praticados. Faltam ao cidadão Marco Aurélio, por isso, predicados para ser Ministro de qualquer coisa, menos ainda do STF ou do TSE.

Na recente incursão de Marco Aurélio no debate público, o Ministro-sem-predicados-de-ser-Ministro defende o descumprimento do teto salarial no Poder Judiciário se a remuneração astronômica dos agentes do Judiciário “foi alcançada legitimamente” [sic]. Marco Aurélio, com sua peculiar lógica de raciocínio, considera que possa haver legitimidade – e sabe Deus, justiça - na auto-atribuição pelo Judiciário de um super-salário de mais de R$ 30 mil reais - num país de salário mínimo quase cem vezes menor.

Não raro muitos desses que advogam em causa própria proferem sentenças criminalizadoras do povo e de suas organizações que lutam por direitos legítimos, historicamente subtraídos. No Brasil do século XXI, um monumental abismo separa o imperativo de construção da justiça social e da democracia política e cidadã do obscurantismo que rege a mídia e o Poder Judiciário, insuscetíveis ao controle público e democrático.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Mensagem de Fidel nas celebrações dos 80 anos

Desde o último 28/11 até o próximo 10/12, mais de mil e quinhentas personalidades, intelectuais, pensadores, ativistas políticos e sociais, amigos, amigas de Cuba e do povo cubano se reúnem em Havana e no interior do país para as celebrações do aniversário de 80 anos do comandante da revolução e do povo cubano Fidel Castro.

As festividades, que incluem concertos, mostras de vídeo, exposições artísticas, encontros, debates e manifestações literárias, foram organizadas pela Fundação Guayasamín, fundada pelo artista e irmão de fé do Fidel, Oswaldo Guayasamín, do Equador.

No dia 02 de dezembro, as celebrações terão um significado especial: nesta mesma data, há exatos 50 anos, em 1956, Fidel e seus companheiros revolucionários - com Che Guevara ao seu lado – desembarcaram na costa cubana a bordo do iate Granma provenientes do exílio no México.

Na seqüência, a mensagem de Fidel aos convidados de todo o mundo que estão em Cuba para as celebrações dos 80 anos do comandante e dos 50 anos do Desembarque do Granma, publicado no jornal cubano Granma:


Mensagem do presidente cubano aos participantes da celebração de seu 80º aniversário

Queridos compatriotas e queridos amigos do mundo inteiro:

Neste período de tempo, trabalhei intensamente para garantir em nosso país o cumprimento dos objetivos do Proclama de 31 de julho.

Agora estamos perante um adversário que tem levado os Estados Unidos a um desastre tal, que, quase com certeza, o próprio povo norte-americano não lhe permitirá terminar seu mandato presidencial.

Ao dirigir-me aos senhores, intelectuais e personalidades prestigiosas do mundo, estava diante de um dilema: não podia reuni-los num local pequeno. Somente o teatro Karl Marx tinha capacidade para todos os visitantes e eu não estava ainda em condições, segundo os médicos, de me defrontar com tão colossal encontro.

Optei a variante de me dirigir a todos os senhores, por este meio. É bem conhecido meu pensamento martiano sobre as glórias e as honras, quando ele disse que cabiam em um grão de milho.

A generosidade dos senhores, na verdade, me espanta. Há muitas pessoas que gostaria de mencionar aqui, mas prefiro não fazê-lo e peço-lhes desculpa por apenas mencionar um nome: o de Oswaldo Guayasamín, uma vez que ele conseguiu sintetizar muitas das melhores virtudes dos que estão aqui presentes.

Ele me fez quatro retratos. O primeiro que pintou em 1961 desapareceu. Busquei por todo lado e nunca o achei. Quanto sofri quando soube a pessoa excepcional que era Guayasamín. O segundo foi em 1981 e ainda é conservado na Casa de Guayasamín na Havana Velha. O terceiro, em 1986, é conservado na "Fundação Antonio Núñez Jiménez da Natureza e do Homem". Quando nos conhecemos, quão longe estávamos ele e eu de imaginar que o quarto retrato seria um presente de aniversário em agosto de 1996.

Quão inspiradoras foram suas palavras quando disse: "Em Quito e em qualquer canto da Terra deixem uma luz acesa, voltarei tarde"

De Oswaldo Guayasamín escrevi um dia, ao inaugurar a Capela do Homem: "Foi a pessoa mais nobre, transparente e humana que eu conhecera. Criava à velocidade da luz e sua dimensão como ser humano não tinha limites"

Enquanto o planeta existir e os seres humanos respirarem, a obra dos criadores existirá.

Hoje, ademais, graças à tecnologia, as obras e os conhecimentos que o homem criou ao longo de milhares de anos estão ao alcance de todos, embora ainda não se conheçam os efeitos que as radiações de bilhões de computadores e telefones celulares terão sobre os seres humanos.

Há poucos dias, a prestigiosa organização Fundação Mundial para a Vida Silvestre (WWF International, por suas siglas em inglês), fixada na Suíça e considerada mundialmente como a mais importante ONG que controla o meio ambiente global, declarou que o conjunto de medidas aplicadas por Cuba para proteger o meio ambiente a tornavam o único país da Terra que cumpre os requisitos mínimos de desenvolvimento sustentável. Isso constituiu uma honra estimulante para nosso país, mas de pouca repercussãomundial, em face do peso de sua economia. Por isso, no passado dia 23, enviei uma mensagem ao presidente Chávez em que disse:

"Querido Hugo:

Ao adotar um Programa Integral de Poupança de Energia, você se converterá no mais prestigioso defensor mundial do meio ambiente.

"O fato de a Venezuela ser o país com maiores reservas de petróleo é de grande relevância e o converterá em um exemplo que levará todos os demais consumidores de energia a fazerem o mesmo, poupando quantias avultadas de investimento.

"Ao igual que Cuba, produtora de níquel, mobiliza recursos de bilhões de dólares para seu desenvolvimento, a Venezuela, com suas exportações de combustíveis, poderia mobilizar trilhões de dólares.

"Se os países industrializados e ricos conseguissem o milagre de reproduzir no planeta, daqui a várias dezenas de anos, a fusão solar, depredando antes o meio ambiente com emanações de combustíveis, como será que os povos pobres, que constituem a imensa maioria da humanidade, poderão viver nesse mundo.

"Até a vitória sempre!"

Por último, queridos amigos que tiveram a imensa honra de visitarem nosso país, despido-me com profunda dor por não ter podido agradecer-lhes pessoalmente e abraçá-los. Temos o dever de salvar nossa espécie.


Fidel Castro Ruz

28 de novembro de 2006

Mídia entorpecente

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br

Finalmente a imprensa gaúcha é forçada a noticiar a verdadeira situação administrativa e financeira em que o Estado do Rio Grande do Sul está sendo deixado pela mesma composição partidária que assumirá o comando do governo gaúcho em 1º de janeiro próximo, entretanto com Yeda-Feijó em lugar de Rigotto-Holfeldt.

Durante os últimos quatro anos o governador Rigotto foi protegido por uma cobertura parcial e conivente de toda a grande mídia gaúcha – desta feita, não só do grupo RBS – que ocultou da sociedade a grave crise tanto da administração pública como da economia gaúcha.

É ululante dizer que faltou compromisso analítico e independência à mídia local para identificar os nexos de causalidade entre esta realidade de colapso econômico e administrativo do Rio Grande e o fracassado modelo implementado, com aumento indiscriminado de impostos, Fundopem concentrado para mega-empresas, manutenção de privilégios, abandono de estratégias de desenvolvimento, sucateamento da UERGS e da educação profissionalizante. A situação das finanças públicas do Rio Grande é gravíssima e vinha sendo denunciada em vão pela oposição nos últimos três anos, mas somente agora é revelada na sua dramaticidade real. Na eleição, porém, foi categoricamente desmentida por Rigotto com a complacência da mídia.

A ausência de compromisso crítico e independente da imprensa esterilizou o verdadeiro debate público que o Rio Grade deveria ter realizado em busca de alternativas para o desenvolvimento regional diante dos formidáveis estímulos criados pelo governo Lula, que aportou recursos, investimentos púbicos e privados como não ocorreu no Estado nas últimas duas décadas.

Ao contrário disso, a discussão da crise foi editorializada para não favorecer o PT e o sentimento oposicionista na população. Prevaleceu a tese simplista de atribuir peso absoluto ao clima e ao câmbio pela determinação da crise, abstraindo os equívocos e as responsabilidades do governo estadual e das forças conservadoras cujas opções de governo atrasam o Estado. Essas duas variáveis atravessam os tempos, e nem por isso impediram o crescimento do Estado durante os governos de Alceu Collares e de Olívio Dutra, mas foram tratadas como fatalidades incontornáveis para o governador Rigotto.

Diante da exposição pública do descalabro do Estado – mesmo porque não há que temer riscos eleitorais porque a eleição já passou – a mídia fica obrigada a publicar esta realidade. E o faz, contudo, desde uma perspectiva fragmentária e alienante, dificultando a compreensão totalizante pela população e o conhecimento, por exemplo, de que uma única empresa abocanhou hum bilhão de reais em benefícios fiscais.

Diante das fragilidades já expostas pela governadora eleita, a transferência da responsabilidade da crise gaúcha para o governo federal poderá fazer parte do cardápio da mídia gaúcha, que ao invés de informar e instruir a sociedade, entorpece mentes e consciências, da mesma maneira que faz a grande mídia monopolista do país. Aquela, foi derrotada juntamente com o conservadorismo tucano-pefelista.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Equador: política latino-americana num país dolarizado

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre - jmiola@uol.com.br


Rafael Correa, que integrou a frente de esquerda na disputa à eleição presidencial do Equador, derrotou o direitista Álvaro Noboa, o empresário mais rico do país que foi apoiado pelo governo norte-americano nas eleições.

O Equador é um país marcado pelo conflito político que é intrínseco aos países que adotaram o [des]ajuste neoliberal. Em apenas 6 anos, três presidentes neoliberais do Equador foram pacificamente depostos ou tiveram seus mandatos encurtados após levantes populares. A deposição de governantes neoliberais se tornou um fato corriqueiro na América Latina desde os anos 1990, em que os adeptos do Consenso de Washington não só foram derrotados, como também implicados em processos penais ou fugidos dos próprios países – Salinas do México, Fujimori do Peru, Pérez da Venezuela, Menem da Argentina.

No Equador, o último a ser deposto foi o então “nacionalista” Lúcio Gutierrez, um coronel do exército que foi eleito presidente com o apoio da esquerda política e social e das populações indígenas, que representam praticamente a metade da população do país. Logo no início do mandato, Gutierrez iniciou a aplicação de medidas anti-populares e anti-nacionais, culminando com a adoção do dólar como moeda oficial do país e a realização de acordo bilateral de livre comércio com os EUA. Da empolgação militante à desesperança foi um passo, e o Equador se tornou mais um exemplo do fracasso das experiências neoliberais do continente. Por isso, abrigou o primeiro Fórum Social das Américas, em julho de 2004, realizado na capital Quito.

A eleição de Rafael Correa, da Aliança País, envereda o Equador para o caminho da soberania e da auto-determinação. É a retomada de uma hipótese de desenvolvimento com sustentabilidade a partir das vocações próprias do país, que possui riquezas de subsolo [principalmente petróleo], forte inclinação agrícola, rica produção cultural, costa litorânea no oceano pacífico, integração amazônica e forte potencial turístico.

Rafael Correa antecipou alguns nomes que constituirão o governo central, e dentre eles há de se destacar a presença de Alberto Acosta [crítico da dolarização], Gustavo Larrea [dirigente de esquerda], Ricardo Patino [crítico do pagamento da dívida], Carlos Pareja Yanuzzelli [revisor de contrato lesivo firmado com empresa norte-americana, que acarretou a suspensão do tratado de livre comércio com os EUA]. É de se esperar a divulgação de outras representações que integrarão o governo de Correa, como do Pachakuchi [partido indígena de esquerda].

No país da economia dolarizada, a política pendeu para os ventos esquerdizantes que sopram em toda a América Latina, o que é mais um assombro para George W. Bush Júnior – o Mister Danger, como costuma se referir a ele o presidente Hugo Chávez. No último ano e meio, Bush amargou a derrota eleitoral de seus aliados na Bolívia, na Nicarágua, no Brasil e no Equador. Só não perdeu no México mediante uma escandalosa fraude contra López Obrador, o que cria um ambiente de instabilidade e de sério conflito.

No próximo final de semana, o calendário eleitoral de 2006 no continente se encerrará com a vitória de Hugo Chávez para o exercício de um novo mandato na Venezuela, dando mais um passo decisivo dos povos latino-americanos para a continuidade da erosão do império e do imperialismo.