segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Danielle Mitterrand e o Fórum Social

Jeferson Miola*
Artigo publicado no Jornal Zero Hora em 25/11/2011**  

Era 23 de junho de 2000 quando tivemos o privilégio de conhecer pessoalmente Danielle Mitterrand. Foi num encontro mantido no modesto escritório da Fundação France-Liberté, localizado na Rua de Milan, em Paris. O motivo do nosso encontro com ela: apresentar-lhe o que então ainda era uma ambiciosa ideia e que posteriormente se converteria num poderoso empreendimento da sociedade civil mundial: o Fórum Social Mundial, cuja primeira edição finalmente se concretizaria entre os dias 25 e 30 de janeiro de 2001 em Porto Alegre.

Naquela viagem, nos dirigíamos a Genebra, Suíça, onde lançaríamos a convocatória mundial do Fórum num evento da sociedade civil organizado no marco da reunião da ONU para avaliar os resultados da Cúpula de Desenvolvimento Social de 1995, o Copenhagen+5. Estávamos, o então vice-governador do Estado Miguel Rossetto e eu, que posteriormente assumiria a incumbência de coordenador executivo do FSM. A passagem por Pa ris com uma brevíssima parada de não mais de 15 horas não foi fortuita. Ali pretendíamos nos encontrar com Danielle Mitterrand com a pretensiosa missão de demonstrar-lhe o imperativo histórico da iniciativa nascente, e receber em contrapartida seu engajamento e seu entusiasmo.

Aquela mulher de posições claras e decididas, com as cicatrizes marcantes de quem testemunhou grande parte do século tenebroso da Europa das guerras, do holocausto e das humilhações, prontamente se associou à convocatória. Um gesto de coerência com toda sua trajetória de vida; uma atitude de confiança no futuro e uma outra prova de abnegação de quem, durante sua vida, sempre se engajou em projetos de mudanças e nas lutas pela justiça social e pelos direitos humanos em praticamente todos os continentes.

Desse modo, numa circunstância nada acidental, Danielle Mitterrand se tornou uma das primeiras personalidades influentes do mundo a emprestar seu n ome e sua imagem à construção do Fórum Social Mundial e às ideias generosas de um “outro mundo possível” que embalaram multidões e ajudaram a construir governos progressistas e de esquerda vigentes hoje em muitos países, principalmente da América do Sul.

Àquela altura da vida, com seus 77 anos de idade, sua biografia já estaria escrita. Ela, uma mulher que na juventude enfrentou corajosamente o nazismo na Resistência Francesa e que depois esteve no centro da política e do poder da segunda potência europeia acompanhando as impressionantes mudanças na Europa do pós-guerra, não precisava provar mais nada na vida. Contudo, com a mesma perseverança e coragem que denunciava a hipocrisia dos costumes e da moral conservadora, prestou um importante apoio à construção do Fórum.

Uma figura assim marcante e singular como Danielle Mitterrand é não só um elogio à vida, mas também a comprovação de que o esforço de constru ção de um mundo libertário, justo e tolerante não pode prescindir dos melhores seres humanos enquanto vivam.

* Jeferson Miola foi coordenador executivo do Fórum Social Mundial, exerce a função de Coordenador da Secretaria do Mercosul em Montevideo, Uruguay

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O PT em Porto Alegre em 2012

Jeferson Miola
1.       Porto Alegre é a cidade que propiciou ao PT realizar a mais rica, a mais original e a mais exuberante experiência de construção política nos anos iniciais de sua afirmação como projeto político de esquerda.
A capital gaúcha foi governada pelo PT com seus aliados consecutivamente de 1989 a 2004. Durante aquela etapa inicial de afirmação do PT e do amadurecimento da sua presença na vida institucional do Brasil, Porto Alegre foi uma fonte de irradiação das principais experiências administrativas, gerenciais e políticas do Partido.
O êxito das gestões petistas explica a transcendência do PT para a cidade, habilitando-o a governar Porto Alegre em quatro dos sete mandatos desde a retomada das eleições diretas nas capitais e nas áreas de segurança nacional [1985]. Não por acaso, dois dos quatro prefeitos do PT posteriormente se tornaram governadores do Rio Grande do Sul.

2.      O PT e Porto Alegre se constituíram numa referência para a esquerda nacional e internacional, um espaço de concretização de políticas emancipadoras e um território de vivência democrática radical e inovadora.
Naqueles tempos neoliberais em que se proclamava a inevitabilidade da globalização excludente, a inexistência de alternativas ao neoliberalismo e o fim da história, o PT processou em Porto Alegre referências estratégicas de grande alcance.

3.      A pertinência e a legitimidade conquistadas pelo PT lhe conferiram um papel central em Porto Alegre. Mesmo quando não venceu as eleições, o PT polarizou o debate acerca do futuro da cidade em acirradas disputas de segundo turno, conquistando praticamente metade dos votos.
Nas eleições de 2012, portanto, mesmo se eventualmente quisesse, seria problemático para o PT se abster de apresentar um programa de governo e um projeto de futuro para Porto Alegre. A eventual decisão de não apresentar-se com candidatura própria não seria bem compreendida e assimilada socialmente. Pela razão de que o PT, mais que qualquer outro Partido, é parte ativa na construção das principais soluções e projetos experimentados na cidade em mais de duas décadas.
Com o PT, Porto Alegre se cosmopolitizou, se preparou para a execução dos importantes projetos desenvolvidos atualmente com apoio federal e assumiu um papel cultural marcante no debate público local e mundial a partir das importantes produções simbólicas e concretas produzidas.
O PT, assim, se tornou parte do imaginário do povo porto-alegrense; uma identificação inegável com a história de Porto Alegre, cuja solidez de vínculo resistiu às mais violentas tentativas de destruição macarthista engendradas contra si.

4.      Uma eventual ausência de candidatura própria do PT somente seria compreensível no caso de viabilidade de aliança eleitoral unitária entre o PT, PDT e o PCdoB [e demais aliados] em primeiro turno, hipótese que se demonstra inviabilizada.
No contexto dos governos presididos pelo PT no RS e no Brasil com Tarso e Dilma, seria desejável concretizar em Porto Alegre uma coalizão do PT com Fortunati e Manuela, cujos partidos integram nossos governos e, mais importante, pertencem a estruturas partidárias fundamentais na constituição de um bloco histórico democrático e popular que se reivindica do socialismo. A realidade política, contudo, indica a inviabilidade deste desejo no primeiro turno das eleições do próximo ano.
O atual prefeito, além de legitimidade, tem a prerrogativa de disputar a reeleição para seguir governando a cidade. A deputada Manuela é detentora de um quinhão eleitoral que lhe credencia a pleitear o cargo em condições competitivas. E o PT, com a experiência e o legado de 16 anos governando a cidade, é não só legítimo como responsável em contribuir no debate eleitoral.

5.      A participação do PT nas próximas eleições não será um mar de facilidades. Para compensar as dificuldades que advirão, se deveria buscar construir uma aliança que confira tempo de TV, competitividade eleitoral e expressão social e eleitoral.
O maniqueísmo anti-PT tampouco tirou férias, e será uma arma poderosa para impregnar de preconceito, de estigma e de acusação hegemonista contra o PT nas próximas eleições. Contra o preconceito e a intolerância, o melhor remédio são a claridade de idéias, a modéstia, a humildade e a desmistificação política.
Mesmo assim, num ambiente difícil e adverso - como, aliás, o PT sempre foi temperado -, existe a possibilidade de vencermos as eleições. E a ambição do PT deve ser a de conquistar Porto Alegre para governá-la novamente. Esta é, inclusive, uma possibilidade plausível e muito realista, que dependerá da qualidade da trajetória eleitoral a ser construída, como aprendemos no processo recente de preparação da vitória do Tarso ao governo estadual.

6.      O PT tem militância, estrutura, tradição, programa, política e candidatos/as potentes para participar das próximas eleições com expectativas positivas de vitória. Alguns aspectos são fundamentais para tanto, e o primeiro deles deve ser a escolha da melhor candidatura.
Uma candidatura que seja a expressão da mais ampla unidade partidária e também da mais fecunda identidade com o povo de Porto Alegre. Um/a candidato/a que conecte a população com a memória das Administrações Populares como referências que positivamente superaremos porque, diferentemente das gestões anteriores quando no Estado e na União estavam os governos neoliberais que se opunham ferrenhamente ao nosso projeto, num eventual futuro governo usufruiremos das condições promissoras de um novo Brasil com Dilma e de um novo Rio Grande com Tarso.
Necessitamos de um/a candidato/a que recupere a narrativa do que foi a invenção do Orçamento Participativo, do PoA em Cena, do Fórum Social Mundial, das grandes obras, dos direitos sociais, dos sistemas e serviços públicos qualificados, do planejamento para o futuro e da visão de largo prazo que prepararam a cidade para receber os investimentos para a Copa do Mundo. Uma candidatura, enfim, que consiga demonstrar aos olhares da gente do presente que, se fizemos o que fizemos diante de governos neoliberais contrários ao nosso projeto, muito mais e melhor poderemos fazer nesta etapa virtuosa do Brasil e do Rio Grande.

7.      A eleição em uma cidade não é somente a projeção de grandes temas ou de variantes estratégicas de futuro, por mais relevantes que possam ser. A eleição numa cidade é o momento no qual se deve demonstrar um profundo conhecimento acerca do seu dinamismo, do seu território, das necessidades do seu povo, do cotidiano, da vida das pessoas humildes, das demandas acumuladas, das tarefas imediatas e também da conexão do cotidiano com um ideal estratégico e de futuro.
Nossa candidatura deve ser a expressão desta espécie de relação intimista e de intimidade com Porto Alegre. Uma candidatura que exprima o conhecimento profundo da cidade, das necessidades da sua gente e das tarefas que poderemos assumir para melhorar a vida das pessoas. Um/a candidato/a, enfim, que palmilhe cada rua, cada beco, cada bairro, cada edifício, cada casebre como se vivesse uma vida aldeã, numa dimensão comunitária plena, de reconhecimento recíproco com seus integrantes e com laços de profunda empatia.
Os processos eleitorais em Porto Alegre ensinaram que a cidade também se manifesta e opina em relação aos temas amplos da política. A cidade que clamava pelo “fora Collor” nas eleições de 1992 foi a mesma que tempos depois nos rechaçou porque reprovava as posturas equivocadas de alguns petistas. Por isso nosso/a candidato/a deve ser, também, alguém cuja biografia seja socialmente identificada com os valores e princípios da ética na política que sempre balizaram a conduta do PT.

8.      Vencer em Porto Alegre não é uma obsessão; é uma possibilidade política realista. É um objetivo político legítimo, decorrente da conjuntura eleitoral que nos obriga a estar lado a lado com nosso povo oferecendo uma visão presente e de futuro para a cidade. E vencer em Porto Alegre seria uma conquista de importância para o PT e para a dinâmica política da esquerda gaúcha e brasileira.
Assim como seria importante vencer em Porto Alegre, igualmente importante será o esforço por preservar e soldar uma aliança duradoura do campo democrático e popular em caso de vitória.
Por isso é importante que nossa candidatura seja portadora desta grandeza exigida, que possua estatura e experiência política necessária à interlocução permanente com nossos aliados ocasionalmente postos em lados distintos. Alguém que tenha reconhecida autoridade política para promover, depois das eleições e, num eventual governo conquistado, a aproximação e a convivência com as forças partidárias do nosso campo político-ideológico de transformação social.
9.      O PT tem candidatos temperados para o exercício desta importante tarefa partidária em consonância com estas exigências. Os ex-prefeitos Olívio Dutra e Raul Pont são, inegavelmente, expressões desta possibilidade. Assim como a companheira Maria do Rosário, que acumulou identidades com a cidade e com o povo porto-alegrense nos representando na eleição de 2008. Cabe ao PT desenvolver um esforço para sensibilizar e comover um desses três valorosos companheiros a experimentar o desafio da conquista de Porto Alegre em 2012.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Yeda, o Coronel Mendes e o colono sem-terra Elton

Durante seu recolhimento de avestruz no Palácio das Hortências em Canela, dentre as raras visitas que a Governadora Yeda recebeu naqueles dias, uma muito intrigante foi a do Coronel Mendes. Vale recordar que o Coronel Mendes, de atuação truculenta, covarde e impiedosa com os movimentos sociais, quando esgotado o prazo legal no Comando da Brigada Militar, foi premiado por Yeda como Juiz [sic] do famigerado Tribunal Militar do RS.

O clima, naquela primeira semana de agosto, era de denúncias da corrupção e do descalabro do governo, acompanhado de manifestações sociais vigorosas, promovidas por organizações civis.

Quando se encontraram em Canela, Yeda e Coronel Mendes devem ter delineado os planos de atuação das polícias, as operações de guerra e as medidas repressivas que seriam adotadas em reação ao cenário desfavorável e de mobilização social intensa. Afinal, é assim que fazem governantes desmoralizados, enfraquecidos e intolerantes com o que lhe é adverso: praticam a violência drástica.

O colono sem-terra Elton Brum da Silva, que fazia parte da ocupação da Fazenda Southall, foi alvejado no peito com tiros de espingarda doze da Brigada Militar. Eltom se tornou, com o drama da sua morte, a primeira e visível vítima fatal do política repressiva inconseqüente delineada por Yeda e o Coronel Mendes.

É absolutamente inaceitável a execução de uma ordem de desocupação de homens, mulheres e crianças com contingentes exagerados e de Polícia de Choque e policiais portando armas e munições letais. Para quê? Se existem munições não-letais, para quê usar as letais, isso se comprovadamente fosse o caso de usá-las? Para quê? Mil vezes: para quê, Governadora Yeda e Coronel Mendes?

O governo Yeda, que matou a moral, a ética e a dignidade da política, acabou de assassinar o colono Elton. Lamento a naturalização que se faz da quebra dos valores democráticos, substituindo-os também naturalmente pela opressão e selvageria oficiais.

A mídia tem parcela importante de responsabilidade nisso. A mídia, que tanto glamourizou o Coronel Mendes como um Rambo heróico e sempre espetacularizou suas ações violentas, deveria ser um vetor de educação democrática, não de sacralização da violência estatal contra o povo como método de contenção numa sociedade civilizada.
***
Complemento às 15:55 h: as informações são de que Elton foi morto covardemente, pelas costas e com tiro à queima-roupa.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Carta da Marina ao PT

A íntegra da carta enviada por Marina Silva ao Presidente do PT neste cataclísmico19 de agosto de 2009.
A fidalguia da Marina em todo o processo que vivenciou nos últimos longos tempos de reflexões foi expressa outra vez nesta carta, onde não faltaram lealdade ao PT, reverência à história do PT e agradecimentos a petistas [porém sem menção de agradecimento específico ao presidente de honra {e de fato} do PT sarneyzado, o Presidente Lula].

Caro companheiro Ricardo Berzoini,

Tornou-se pública nas últimas semanas, tendo sido objeto de conversa fraterna entre nós, a reflexão política em que me encontro há algum tempo e que passou a exigir de mim definições, diante do convite do Partido Verde para uma construção programática capaz de apresentar ao Brasil um projeto nacional que expresse os conhecimentos, experiências e propostas voltados para um modelo de desenvolvimento em cujo cerne esteja a sustentabilidade ambiental, social e econômica.

O que antes era tratado em pequeno círculo de familiares, amigos e companheiros de trajetória política, foi muito ampliado pelo diálogo com lideranças e militantes do Partido dos Trabalhadores, a cujos argumentos e questionamentos me expus com lealdade e atenção. Não foi para mim um processo fácil. Ao contrário, foi intenso, profundamente marcado pela emoção e pela vinda à tona de cada momento significativo de uma trajetória de quase trinta anos, na qual ajudei a construir o sonho de um Brasil democrático, com justiça e inclusão social, com indubitáveis avanços materializados na eleição do Presidente Lula, em 2002.

Hoje lhe comunico minha decisão de deixar o Partido dos Trabalhadores. É uma decisão que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade. Tenho certeza de que enfrentarei muitas dificuldades, mas a busca do novo, mesmo quando cercada de cuidados para não desconstituir os avanços a duras penas alcançados, nunca é isenta de riscos.

Tenho a firme convicção de que essa decisão vai ao encontro do pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que há muitas décadas apontam objetivamen te os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida.

Tive a honra de ser ministra do Meio Ambiente do governo Lula e participei de importantes conquistas, das quais poderia citar, a título de exemplo, a queda do desmatamento na Amazônia, a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental, a criação de 24 milhões de hectares de unidades de conservação federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro. Entendo, porém, que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas.

É evidente que a resistência a es sa mudança de enfoque não é exclusiva de governos. Ela está presente nos partidos políticos em geral e em vários setores da sociedade, que reagem a sair de suas práticas insustentáveis e pressionam as estruturas políticas para mantê-las.

Uma parte das pessoas com quem dialoguei nas últimas semanas perguntou-me por que não continuar fazendo esse embate dentro do PT. E chego à conclusão de que, após 30 anos de luta socioambiental no Brasil - com importantes experiências em curso, que deveriam ganhar escala nacional, provindas de governos locais e estaduais, agências federais, academia, movimentos sociais, empresas, comunidades locais e as organizações não-governamentais - é o momento não mais de continuar fazendo o embate para convencer o partido político do qual fiz parte por quase trinta anos, mas sim o do encontro com os diferentes setores da sociedade dispostos a se assumir, inteira e claramente, como agentes da luta por um Brasil justo e sustentável, a fazer prosperar a mudança de valores e paradigmas que sinalizará um novo padrão de desenvolvimento para o País. Assim como vem sendo feito pelo próprio Partido dos Trabalhadores, desde sua origem, no que diz respeito à defesa da democracia com participação popular, da justiça social e dos direitos humanos.

Finalmente, agradeço a forma acolhedora e respeitosa com que me ouviu, estendendo a mesma gratidão a todos os militantes e dirigentes com quem dialoguei nesse período, particularmente a Aloizio Mercadante e a meus companheiros da bancada do Senado, que sempre me acolheram em todos esses momentos. E, de modo muito especial, quero me referir aos companheiros do Acre, de quem não me despedi, porque acredito firmemente que temos uma parceria indestrutível, acima de filiações partidárias. Não fiz nenhum movimento para que outros me acompanhassem na saída do PT, respeitando o espaço de exercício da cidadania política de cada mil itante. Não estou negando os imprescindíveis frutos das searas já plantadas, estou apenas me dispondo a continuar as semeaduras em outras searas.

Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.

Saudações fraternas.

Marina Silva

terça-feira, 18 de agosto de 2009

O fator Marina

Jeferson Miola

Anunciaram e garantiram
Que o mundo ia se acabar;
Por causa disso a minha gente
Lá de casa se botou a rezar ...

“E o mundo não se acabou”, Adriana Calcanhoto [letra Assis Valente]

Para além da guerra de bugios que domina o noticiário de Brasília, um movimento de grande impacto ganha contorno nos bastidores da política nacional: a preparação da candidatura presidencial de Marina Silva pelo PV.

Enquanto os holofotes se concentram no lodaçal do Senado, a mídia pouco repercute o frisson político gerado por tal hipótese. Mas o clima é o que em física se chama “estado de ebulição”. A razão é ponderável: a candidatura Marina embaralha o jogo eleitoral de 2010, tido até então como a reedição do confronto PT versus PSDB.

A cada dia multiplicam-se as operações políticas visando dissuadí-la da decisão de candidatar-se. Ato, aliás, que implicaria sua saída do PT. Além de afetar eleitoralmente a candidatura Dilma, também teria o efeito colateral de animar a conhecida aspiração de Ciro Gomes, significando mais dispersão eleitoral na base do Governo Lula. O peso real que terá nas eleições, contudo, é incerto e ainda difícil de ser aferido.

Mesmo se não confirmar a candidatura, a mera cogitação de Marina Silva como candidata abre, por si, o debate a respeito da dimensão ecológica e ambiental no desenvolvimento do país. É um debate crucial e inadiável, porque estamos diante duma ameaça concreta à civilização humana em decorrência da devastação acelerada do planeta. Até 2001, cientistas previam que a persistência do padrão predatório de produção e consumo do sistema capitalista ocasionaria importantes catástrofes no mundo nos próximos séculos. Nos últimos anos, todavia, as previsões científicas anteciparam os sombrios prognósticos já para os próximos 30 anos ou até antes deste prazo.

O Brasil não está fora deste preocupante roteiro, porém possui condições privilegiadas em todos os aspectos. O país pode, por isso, liderar a aplicação de estratégias de desenvolvimento sócio-ambiental de efeito exemplar para todo o mundo. Com a consciência, entretanto, de que os conceitos desenvolvimentistas e produtivistas fazem parte do problema, e não das soluções requeridas nesta época de dramática crise civilizacional e de comprometimento da própria existência humana no futuro próximo.

A dimensão ambiental é, cada vez mais e de modo imperativo, indissociável da economia, da cultura, da moral e da política. Por esse motivo, necessita ser incorporada ao raciocínio acerca de uma outra nação, uma outra economia, uma outra cultura e uma nova organização da sociedade. Devem ser inventadas formas aceitáveis de produção e consumo para a satisfação das necessidades humanas com racionalidade e equilíbrio. O capitalismo e as antigas experiências do leste europeu – em verdade duas inteirezas do mesmo equívoco - demonstram-se modelos histórica e humanamente fracassados diante deste desafio.

O melhor dos mundos para o PT é a permanência de Marina. Em qualquer cenário, no entanto, Marina já se tornou o fator diferencial do período. A agenda sócio-ambiental finalmente assumirá a centralidade que nossa época exige. Até por uma questão de sobrevivência.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A Guernica de 1937 é a Gaza do século 21

Em 27 de abril de 1937, precisos 72 anos atrás, a cidade santa dos bascos, Guernica, era duramente bombardeada pela ditadura do Generalíssimo Franco com o apoio da força aérea nazista de Hitler. Na época, uma tríade inaugurava um período de atrocidades e monstruosidades da Europa para o mundo: a Espanha era governada ditatorialmente por Franco, a Alemanha por Hitler, e a Itália por Mussolini.

Cidade histórica de forte valor simbólico para a cultura e para a nacionalidade basca, a minúscula Guernica, habitada por aproximadamente sete mil habitantes, foi exemplarmente agredida, e serviu como uma espécie de ante-sala, um “test drive” dos horrores nazi-fascistas. Reduzida a pó, cinzas e destroços materiais e humanos depois dos ataques estúpidos da artilharia aérea alemã, Guernica foi celebrizada pelo pintor Pablo Picasso, na tela que leva o mesmo nome.


Emocionante reportagem publicada pelo jornalista sul-africano George Steer, enviado do The Times [de Londres] em Guernica, escrita no dia seguinte ao massacre, dava conta da tragédia daqueles dias com a dramática descrição:
Às duas horas da manhã de hoje, quando visitei a cidade, seu conjunto era uma visão horrível, ardendo de ponta a ponta. O reflexo das chamas podia ser visto nas nuvens de fumaça acima das montanhas a dez milhas de distância. Durante toda a noite, casas caíam até que as ruas se tornassem longas pilhas de destroços vermelhos impenetráveis. Muitos dos sobreviventes civis faziam a longa jornada de Guernica a Bilbao em antigas e sólidas carroças de fazendas bascas puxadas por bois. Essas carroças levando altas pilhas de todo o tipo de pertences domésticos que pudessem ser salvos da conflagração obstruíam as estradas noite adentro. Outros sobreviventes foram evacuados em caminhões do governo, mas muitos eram forçados a permanecer em torno da cidade incendiada deitados em colchões ou procurando por parentes e crianças perdidas, enquanto unidades dos bombeiros e da polícia basca motorizada, sob orientação pessoal do ministro do Interior, Senhor Monzon e sua esposa, continuavam o trabalho de resgate até o amanhecer.”.
A reportagem completa do The Times, traduzida para o português, pode ser lida no Via Política.

A Guernica de 1937 tem na Gaza do século 21 a persistência duma idêntica monstruosidade assassina que insiste em não ter fim.

domingo, 26 de abril de 2009

Mais além do cretinismo parlamentar

Jeferson Miola
Diante de escândalos como os que envolvem, por exemplo, “suas excelências” do Congresso Nacional, sempre há o risco da generalização de responsabilidades e da despolitização da análise. Até porque amaldiçoar a política e os políticos é o esporte predileto dos privatistas de toda espécie, que propugnam a superioridade do mercado e da esfera privada em relação à esfera pública, à política e à democracia.

Com a ausência de vozes parlamentares insurgentes a toda a patifaria e canalhice de “suas excelências” do Congresso Nacional, entretanto, é inevitável o total descrédito da política brasileira atual e dos atuais mandatários.

A desfaçatez das Mesas da Câmara e do Senado na preservação das mordomias e regalias com “outras técnicas” diversionistas, é acompanhada do “silêncio cretino” de parlamentares dos quais, no mínimo, se esperaria uma reação sensata e de maior espírito público. A sensação, tristemente, é de captura ampla, generalizada.

Neste quadro de deterioração do exercício da função pública, me inclino seriamente, nas eleições de 2010, a somente votar em candidato/a que, no bojo de sua ação parlamentar e além de outros compromissos políticos gerais de esquerda, também assumir com prioridade determinados compromissos de mandato, como:

- ampla reforma política com adoção de listas partidárias, federação de partidos, financiamento público, fidelidade partidária, proibição de coligações proporcionais e cláusula de barreira;

- obrigatoriedade de quotas mínimas de mulheres e afro-descendentes em listas partidárias;

- adoção do unicameralismo, com a conseqüente extinção do Senado Federal;

- mudanças do sistema de voto eletrônico, introduzindo a impressão de comprovantes de votação e a amostragem obrigatória do escrutínio;

- revisão da periodicidade e dos calendários eleitorais, unificando datas e ampliando a duração de mandatos para pelo menos cinco anos;

- revogabilidade de mandatos executivos e legislativos, mediante mecanismos periódicos e/ou circunstanciais para a revisão da representação eletiva;

- redução do número de deputados federais, estaduais e vereadores e eliminação das distorções quanto ao número de parlamentares por unidades da federação;

- adoção de princípios plebeus e não-profissionais para o exercício de mandatos, com o rechaço dos “mecanismos acessórios” e não-essenciais, que são, em verdade, fontes de corrupção e de “captura” pelos privilégios e facilidades;

- reforma ampla do judiciário, com extensão e magnitude equivalentes à reforma política necessária e exigida.

sábado, 18 de abril de 2009

Cretinismo parlamentar

Por Jeferson Miola, publicado no Jornal Zero Hora em 18 de abril de 2009.

O fenômeno do cretinismo parlamentar é tão antigo quanto pernicioso à representação pública e à democracia. Nos longínquos 1851 e 1852, Marx e Engels já se referiam a ele como “aquela doença peculiar” “... que mantém os elementos contagiados [ou seja, os parlamentares] firmemente presos a um mundo imaginário, privando-os de todo senso comum, de qualquer recordação de toda compreensão do grosseiro mundo exterior ...”.

Os privilégios dos deputados e senadores brasileiros revelam que eles vivem, de fato, “firmemente presos a um mundo imaginário”, alheio à realidade do país e do cidadão comum que os elegeu como representantes. No mundo em que se enclausuraram, “suas excelências” vivem num reino distinto.

Recebem dinheiro para se tratarem por fora do SUS ou de planos privados de saúde; ganham quinze polpudos salários por ano; alguns usam a gandaia de passagens aéreas até para a turma da namorada; fazem turismo no estrangeiro; emprestam telefone oficial para filhas usarem em viagem ao exterior; recebem três mil reais de auxílio moradia, mais de quatro mil de quota telefônica e quinze mil de “verba indenizatória”; e se valem de toda a sorte de regalias.

A sedução material é irmã-gêmea do cretinismo parlamentar. As condições especialíssimas que se autoconcedem os parlamentares geram distorções gritantes, assemelhando um mandato parlamentar a um negócio. O de deputado federal, por exemplo, gira um orçamento anual de R$ 1,5 milhão e pode empregar até 25 funcionários com salários entre 710 e 9.500 reais. Exibe um vigor econômico superior à realidade da grande maioria das micro e pequenas empresas brasileiras, que segundo o IBGE faturam até R$ 1,1 milhão ao ano e empregam em média sete trabalhadores remunerados com entre 2 e 3,1 salários mínimos.

Assim como é deplorável esta realidade, é lastimável a reação diversionista dos congressistas, que agem pensando que o povo e a imprensa são otários. Reforçam o irrealismo do luxo e da ostentação do poder no país – também visível no Executivo e no Judiciário -, que é baseado na suntuosidade de mansões, choferes, carrões, salários nababescos, carteiraços, mordomias e desmandos.

O esforço da sociedade para garantir o funcionamento das instituições e da democracia deveria ser correspondido com austeridade e espírito plebeu, aproximando a realidade dos “representantes” populares com a de seus “representados”. Agindo da forma como vêm agindo, contudo, os parlamentares ficam cada vez mais “firmemente presos a um mundo imaginário”, ensimesmados na sua onipotência, onisciência e imunidade, tratando o Brasil como sua capitania hereditária.

quarta-feira, 4 de março de 2009

AGACIEL Maia. De trás pra diante: LEICAGA

Quinhetos e picos de anos não são nada na permanente descoberta do verdadeiro Brasil das velhas oligarquias.

Nestes dias, o povo brasileiro é informado que o Senado da República [instituição carcomida, que sequer deveria existir] possuía um Diretor-Geral no cargo há 14 anos que coleciona tantas suspeitas de corrupção quanto o exagerado tempo de duração de sua capitania hereditária no Senado. Mas só agora caiu, quando foi exposta a situação duvidosa de uma mansão de valor entre R$ 5 e R$ 6 milhões averbada em nome do irmão, um Deputado Federal - outra excelência das Brasília.

O nome do Diretor-Geral do Senado, não fosse um deboche, seria cômico: lendo-o de trás pra diante, pode-se tratá-lo como LEI-CAGA. Ou, quem sabe, no berço de sua origem oligárquica de presunção da eterna impunidade, não queira dizer: Andando e Cagando pra Lei. Confesso uma certa curiosidade em saber o que passava pela mente do progenitor de LEI-CAGA, quando resolveu batizá-lo como AGACIEL. Qual seria o profundo sentido existencial, simbólico e principalmente premonitório que reservava ao seu filhinho posto no mundo para dele tirar todo o proveito?

Sabe-se também que o distinto Diretor-Geral administrava a verba bilionária de R$ 2,7 bilhões ao ano do Senado.
Tirante o escândalo do LEI-CAGA em si, há outro escândalo não explorado: o orçamento do Senado permite concluir-se que:

- o povo brasileiro assiste sair pelo ralo anualmente R$ 2.700.000.000,00 para sustentar uma instituição de duvidosíssima valia para a democracia;

- cada uma das 81 excelências senatoriais custa anualmente ao povo brasileiro o valor de R$ 33.333.333,00.

- cada uma das 81 excelências senatoriais custam por mês o valor de R$2.777.778,00.

- o povo brasileiro dispende todo santo dia, para cada uma das 81 excelências senatoriais, o valor de R$ 92.593,00.

Boa oportunidade para discutir-se a reforma política completa, incluindo no cardápio o unicameralismo, com a extinção do Senado Federal.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

“Experimentalismo” voyeurista

Jeferson Miola
A primeira experiência de administração petista no município de Canoas traz a marca do “experimentalismo” político. Com o peso no contexto econômico e político gaúcho – a cidade ostenta o segundo PIB municipal do Estado, ficando somente atrás da capital Porto Alegre; e é a quarta mais populosa do Rio Grande do Sul, com 323.705 habitantes [FEE, 2006] – é inevitável que o “experimentalismo” da gestão petista-pepista [PT-PP] em Canoas estimule a polêmica política.

A aliança tendo o PP no cargo de Vice-Prefeita, considerada pelos petistas de Canoas como “condição fundamental para se vencer as eleições”, causou mal-estar e controvérsia entre vários setores do PT [mas sem que houvesse qualquer vedação das instâncias partidárias, é bom dizer]. Afinal, sempre é difícil compreender a idéia de coalizão governamental do PT com o PP no Rio Grande do Sul, um partido conservador que faz do combate ferrenho ao PT sua profissão de fé, e ocupa postos chaves no governo Yeda Crusius. Além disso, a implicação de importantes dirigentes do PP nos escândalos de corrupção do Detran reforçariam a distância entre as duas agremiações.

Numa nova e ousada aposta, o prefeito Jairo Jorge nomeia Cézar Busatto como Secretário Especial de Inovação e Projetos Estratégicos. A biografia de Cézar Busatto não deixa dúvidas de sua incompatibilidade atávica com o PT: foi um dos principais artífices do desastre neoliberal do governo Britto no Rio Grande do Sul, de cujos efeitos o Estado padece e continuará sofrendo por muitos anos vindouros. E Busatto foi um dos que idealizou o combate odioso e rancoroso como método de oposição e demonização do PT e para a desconstituição simbólica do partido.

O novo Secretário de Inovação [sic] de Canoas, quando Chefe da Casa Civil do também desastroso Governo Yeda, nas confissões feitas ao Vice-Governador expôs o abismo que separa sua prática política de tudo o que o PT defende. E ele ainda demonstrou que, em matéria de inovação, é adepto ortodoxo do velho habitus político.

O prefeito Jairo Jorge tem liberdade de compor o governo da maneira que melhor julgar, porém a nomeação de Busatto esgarça totalmente a mais básica racionalidade política. É difícil compreender. Seria o mesmo que o Presidente Lula, o rei da “elasticidade política”, nomear seu algoz Arthur Virgílio [PSDB] Ministro de Estado do seu governo!! Seria simplesmente incompreensível.

Para alguns do PT, o pragmatismo virou finalidade, o objetivo último da política, a maneira mais segura para vencer, mesmo sem se saber o que significa vencer e para quê vencer. O pragmatismo prescinde o pensamento teórico, a estratégia, o programa, o debate fecundo e a idéia da construção histórica e paciente de uma hegemonia de esquerda. Este parece ser, cada vez mais, o PT.

O PT não morreu, como proclamava faceira a direita lacerdista e fascista em 2005. Esse era o sonho de consumo dos aliados de Busatto, que festejavam o “fim da raça” dos petistas. O PT, desde então, está cada vez mais vivo e mais forte. Nas eleições de 2006 e 2008, foi um dos partidos que mais cresceu. Ampliou prefeituras governadas e o número de vereadores e deputados eleitos. Se espraiou para todo o interior do país.
O PT é muito maior e bem mais forte que no início do governo Lula. A questão, contudo, é: qual PT cresceu e vem vingando forte?! O novo PT cada vez evoca menos – ou não mais evoca - os fundamentos que lhe deram origem e que explicavam as “razões militantes” e as “razões da política” para uma geração inteira de esquerda do país. Por isso é de se perguntar qual a aprendizagem política de muitos jovens petistas que se integram – e se entregam de alma – a responsabilidades e tarefas institucionais no marco da desconstituição teórica, ideológica e programática verificável na experiência petista-pepista de Canoas.

Com suas inovações e “experimentalismos”, Canoas pelo menos tem o mérito de expor uma fisionomia que é marcante do PT [ou do pós-PT]. E o faz como numa espécie de espetáculo voyeurista, explícito.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Brasil deveria propor Conselho de Segurança na Faixa de Gaza

A visita que faz o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, a Palestina e Israel, apesar de válida e importante, poderia ser substituída por um gesto mais agudo de diplomacia, se o Brasil deseja se credenciar como poder ativo e de influência efetiva na diplomacia internacional.

Por exemplo, o Brasil poderia tomar a iniciativa de propor a instalação do Conselho de Segurança da ONU na Faixa de Gaza até que as resoluções das Nações Unidas, sistematicamente descumpridas por Israel com a complacência dos EUA, fossem cumpridas. No mínimo, a presença do Conselho de Segurança e de autoridades de todo o mundo impediriam o prosseguimento do banditismo genocida que está em curso na Faixa de Gaza.

Agora que finalmente o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-Moon, pretende ir ao Oriente Médio fazer novos “apelos” de cessar-fogo, ganharia ainda maior transcendência uma proposta dessa natureza feita pelo governo brasileiro. Aliás, seria até uma forma de compensar o imperdoável atraso do maior dirigente da ONU, que sinaliza a viagem somente depois de feroz destruição e quase mil mortes contabilizadas, a imensa maioria crianças e civis palestinos.

Seria, enfim, uma tentativa digna diante da indecência com que as Nações Unidas se curvam aos mais flagrantes crimes de guerra que estão sendo cometidos por Israel.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Genocídio na Palestina e desesperança com Obama

A cada novo tom mais belicista e mais genocida das declarações das autoridades israelenses, mais o atual sistema de nações se mostra inválido e indecente. O assassínio tramado contra o povo palestino, a pretexto da exterminação do grupo Hamas, revela que os dirigentes do Estado de Israel passaram à fase de experimentação a terceiros das técnicas empregadas pelos nazistas na segunda guerra mundial: confinamento, isolamento, humilhação, campos de concentração e mortes de forma cruel e covarde.

O mapa do mundo contemporâneo é o mapa das guerras e de conflitos bélicos em todos os continentes. Na Ásia [Tibete, Índia e Paquistão, Afeganistão], na África [Congo, Zimbábue, Nigéria], na Europa [Bálcãs, Chechênia, Georgia], Oriente Médio [Iraque, Israel, Palestina, Irã] e na América Latina [Colômbia, México], espocam conflitos graves que não são solucionados porque as maiores potências e suas mega-empresas estão diretamente envolvidas e têm interesses econômicos e geopolíticos diretos. É da natureza mesma do capitalismo experimentar as transformações de longo prazo em contextos de crises, guerras e desordens.

No caso do Oriente Médio, não haverá solução enquanto os Estados Unidos e o conjunto das principais nações do globo não intervierem diretamente no conflito. Intervenção para retomar as resoluções da ONU consensualmente aprovadas e nunca cumpridas por Israel desde 1967 e para estabelecer as condições fundamentais de coexistência dos dois Estados, duas Nações e dois Povos com soberania e sem agressão.

Esta realidade, porém, parece estar muito distante. O silêncio de Barak Obama a respeito das agressões dos últimos dias, supera o protocolo e a formalidade de quem não é ainda o presidente em exercício dos EUA e assume a forma de uma cumplicidade desapontadora das expectativas mundiais que se ergueram com sua eleição.

Um dos melhores jornalistas do mundo e melhor e mais experimentado de todos os correspondentes de guerra, Robert Fisk, do jornal britânico The Independent, tem argumentos sólidos para crer-se que as decepções do dia seguinte com Obama poderão ser equivalentes às enormes ilusões alimentadas na véspera.

Em artigo publicado no Página12 da argentina, Robert Fisk escreve o artigo “
Con Obama no esperen progresos: “Si documentar es, como sospecho, dejar constancia de las irresponsabilidades de la humanidad, los últimos días de 2008 constatan mi visión. Empecemos con el hombre que no va a cambiar Medio Oriente, Barack Obama, quien como era predecible fue la “persona del año” de la revista Time. Ahí, oculta en una larga y tediosa entrevista, está la única frase que Obama le dedica al conflicto árabe-israelí: “Veremos si podemos construir sobre el progreso que ya se logró, aunque sea a nivel de conversaciones, en torno del asunto israelo-palestino; ésa será una prioridad”.
¿De qué habla este hombre? ¿Construir sobre el progreso? ¿Cuál progreso? Con otra guerra civil a punto de estallar entre Hamas y la Autoridad Palestina (AP), con Benjamin Netanyahu como contendiente para ser el próximo primer ministro, con el monstruoso muro israelí en Cisjordania y los israelíes construyendo cada vez más nuevas colonias en tierras árabes, mientras los palestinos siguen disparando cohetes sobre Sderot, ¿Obama cree que hay "progreso" sobre el cual construir?


Não haverá paz no mundo enquanto não houver uma solução digna envolvendo o povo palestino e pacificando o Oriente Médio. Infelizmente 2009 começou mais cedo, prenunciando os tempos tenebrosos que seguirão e vencerão a sensatez.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A “saga cármica” de Yeda

A derrota do governo Yeda Crusius na tentativa de prorrogação dos contratos de pedágios por mais quinze anos traz conseqüências consideráveis para os dois anos que lhe restam.

Este mais recente fracasso repete o que parece ser a “saga cármica” do governo Yeda: encerrar cada ano como se chegasse ao fim do mundo. Foi assim em dezembro de 2006 quando, antecipando-se ao início do próprio governo, tentou manter o tarifaço, mas amargou uma derrota e sofreu a defecção de três secretários indicados. Tudo se repetiu em dezembro de 2007 quando tentou, outra vez sem sucesso, aumentar os impostos. E neste final de 2008, com a “ordem de retirada” daquele que seria “a jóia da coroa” da segunda metade do mandato, colhe novamente uma derrota de grande significação.

Como de hábito, o governo Yeda despeja a culpa em terceiros pelos seus erros e derrotas sofridas. Desta vez, a choradeira foi contra o governo federal, acusado de supostamente ter “interferido na autonomia federativa”, “politizado o tema” e blá-blá-blá.

A verdade, contudo, é que a responsabilidade exclusiva da derrota foi do Palácio Piratini, que esqueceu que não poderia fazer mesuras e cortesias para empresas de pedágios com estradas alheias. Ofereceu uma mercadoria que não poderia entregar: 900 quilômetros de estradas federais cuja delegação ao Estado do Rio Grande do Sul vence em 2021 – antes, portanto, do prazo desejado pelo governo para a prorrogação dos pedágios, que seria até 2028.

Melhor faria o governo se aprendesse com os sucessivos erros que gera. Mas faz ao contrário; prefere deliberadamente a linha de conflito e de acusações, para assim encontrar supostos culpados aos quais tenta distribuir as responsabilidades do próprio fracasso. Além de insensata, esta atitude não resolve os dilemas do governo, que sai politicamente debilitado com a perda do projeto dos pedágios.

Independente dos problemas, das limitações e das absolutas inconveniências do projeto de prorrogação dos pedágios, o fato é que o governo vislumbrava a possibilidade de realização de um portfólio mínimo – porém propagandisticamente vistoso – de obras rodoviárias que teriam muita valia na recomposição de sua imagem profundamente desgastada.

Para um governo que cada vez mais carece de resultados reais em lugar de conflitos, truculência e chavões vazios, não deixa de ser uma derrota importante. Se é verdade que as poucas obras rodoviárias previstas teriam a propriedade de compactar a base de sustentação do governo em tempos pré-eleitorais, o que dizer da travessia política num ambiente de escassez de investimentos e obras e de abundância de problemas e confusões?

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Chico Fraga, Coronel Mendes e um certo tipo de mídia

A revelação da conversa que o controvertido Coronel Mendes, do tucano governo gaúcho de Yeda Crusius, manteve com o não menos controvertido Chico Fraga, integrante do tucano governo canoense de Ronchetti, é estarrecedora e esclarecedora.

Estarrece pelo fato de que o Coronel, um aparente linha-dura-moralista-da-ordem-e-dos-bons-modos, desfrutando de considerável intimidade, pediu favor a um agente público que, ao que se vê, é um verdadeiro “globtrotter” em escândalos e irregularidades com verbas públicas e que, presumivelmente, tem força e poder junto ao governo Yeda. E também influência para indicar uma espécie de Mariza Abreu da segurança pública – alguém com arrogância, violência, soberba, truculência, inaptidão ao diálogo e autonomia para afrontar permanentemente a sociedade.

E esclarece a simbiose que existe entre um suposto e alegado tipo de “jornalismo colunista” e o modus operandi de determinados segmentos conservadores. Este pseudo jornalismo em verdade se revela cada vez mais uma prática criminosa de atacar pessoas, destruir imagens públicas e infundir preconceitos contra pessoas de esquerda e organizações civis com as quais discordam politicamente.
Ao mesmo tempo que impressiona que tal comportamento “jornalístico” subsista impunemente, apavora a idéia de que seus autores comportem-se como verdadeiros psicopatas homicidas, movidos tão somente por ódio bruto contra inimigos imaginários.

A pergunta é: quem os sustenta?

O “subprime” chegou antes na Chácara das Pedras

A crise do sistema hipotecário dos Estados Unidos, que arrastou o mundo na maior crise do capitalismo desde 1929, parece ter apresentado um primeiro espasmo em Porto Alegre, precisamente no Bairro Chácara das Pedras, no agora remoto ano de 2006.

Terá sido a governadora Yeda Crusius a primeira e rara brasileira a se beneficiar da corrosão do “subprime” nos Estados Unidos? [“subprime” = título imobiliário de alto risco que faz parte da orgia financeira especulativa].

Uma explicação plausível da ciência – a estas alturas do campeonato não é recomendável “comprar-se” as explicações do mercado, sobretudo o imobiliário – pode indicar que sim, a governadora fez um negócio da China: comprou por 700 – 800 mil reais, no final de 2006, a casa que em março de 2006 era anunciada por R$ 1,450 mil. Além da pechincha do preço, o Senhor Laranja, vendedor do imóvel , que paradoxalmente alegava razões de urgência para a venda a preços tão módicos, parcelou o pagamento.

Com a chegada definitiva dos efeitos da crise no Brasil, muitos amigos e pessoas conhecidas que residem na Chácara das Pedras e na Vila Jardim receiam que, a partir dos parâmetros da transação imobiliária feita pela governadora, seus imóveis sejam desvalorizados a ponto de terem de indenizar potenciais compradores.

domingo, 7 de dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

“Campeão total”, campeão de todas as conquistas

No Brasil, o Inter é, desde hoje, o maior campeão de títulos internacionais. Conquistou para todo o povo brasileiro, hoje, a Copa Sulamericana, título inédito que os maiores e melhores times do país almejavam.
Para superar esta sua própria condição de “campeão total”, só se o Inter participasse de certames em outros continentes. Poderia, por exemplo, criar uma sucursal na Europa e assim aditar novas conquistas ao portfólio de “campeão total”.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Após o desastre de Yeda, 2010 no horizonte

Jeferson Miola
Fracasso retumbante
O governo de Yeda Crusius é, inapelavelmente, um retumbante fracasso. Um governo que, em verdade, se confunde com uma farsa, auto-inviabilizada desde muito cedo. Símbolo dessa realidade foram as demissões de secretários antes mesmo de tomarem posse, ainda em dezembro de 2006. O governo tucano que é, todavia, adornado com a plumagem pluripartidária do PMDB, PP, DEM, PTB e PPS, inaugurou uma etapa tenebrosa e sem precedentes na política gaúcha.

A alta rotatividade de secretários demitidos é um recorde sem concorrência em toda a história do Rio Grande. A opção pelo conflito e pelo enfrentamento permanentes são a preferência da Governadora e de agentes políticos do governo. E tratam-se não só de conflitos com setores da sociedade e do funcionalismo – a condução fascista da Brigada Militar é a maior prova disso – como também de conflitos internos ao próprio governo, caracterizado na ruptura entre a Governadora e seu Vice-Governador e nas muitas demissões de Secretários por desavenças.

Quanto aos compromissos eleitorais, é um governo que fraudou as principais – senão todas - promessas. O tal “novo jeito de governar” confirmou-se como uma mera empulhação de época de eleição, substituído pelo autoritarismo, falta de diálogo, truculência, violência e suspeitas de corrupção. A mentira de equilibrar as finanças sem aumento de impostos foi desmascarada duas semanas após as eleições com a tentativa frustrada de manter as alíquotas de ICMS elevadas.

O programa de irrigação, alardeado como solução milagrosa para todas as mazelas do Rio Grande, não saiu do papel porque na realidade nunca existiu, apesar da Governadora ter criado uma Pasta específica para a área. Nas áreas sociais, para as quais a candidata prometia o nirvana ao povo gaúcho, promoveu o desfinanciamento com conseqüente desmonte de estruturas e serviços públicos essenciais.

O polêmico projeto de prorrogação dos contratos de pedágio é um caso raro de compromisso de campanha que está sendo mantido – sabe-se lá quais possam ser as razões para tal “fidelidade programática”. Este foi, aliás, um ponto inexplorado no debate eleitoral de 2006, que fora apresentado no programa da então candidata Yeda Crusius eufemisticamente como “Novos Equilíbrios para os Pedágios de Consórcios que diminuam o custo para o usuário de automóveis e ônibus.” [Item 4 do Capítulo Transportes e Sistemas Logísticos, página 15].

A repactuação da dívida pública do Estado seria uma medida meritória em meio ao oceano de desastres, não fosse a enorme variação cambial, que não só gerará novos encargos à dívida, como também prejudicará as finanças públicas no médio prazo. É de se sublinhar, neste caso, a inconsistência gerencial e a imperícia do governo, que não adotou as cautelas recomendáveis principalmente em se tratando de contratos indexados por moeda estrangeira, tendo arrogantemente desprezado alertas neste sentido.

Uma mirada realista para o governo Yeda, portanto, alude a uma situação de desastre político e administrativo; dum fracasso incontestável. Julgamento que vale tanto para as áreas específicas como em relação ao conjunto da “obra”. É uma das experiências mais fracassadas de governo no Rio Grande do Sul devido aos métodos empregados para governar, às opções e às políticas empregadas.

Ordem unida contra o PT
Mesmo sendo o fracasso que é, mesmo envolvido em suspeitas de corrupção, mesmo produzindo crises quase diariamente, instabilidades, desatinos, conflitos e violência, o governo Yeda consegue conservar sustentação parlamentar, política e midiática. Pela razão fundamental de que este é o governo do conservadorismo – do PSDB, PMDB, DEM, PPS, PTB, PP -, da direita econômica gaúcha e da mídia conservadora, e porque seu eventual soçobramento beneficiaria naturalmente o PT e a esquerda.

Em 2006, diante da hipótese de eleição de Olívio Dutra e do retorno da opção democrático-popular na condução do Palácio Piratini, a direita gaúcha – política, empresarial e midiática – preferiu a aventura desastrosa de Yeda. Era um desastre anunciado. A crônica política sabia, os pássaros sabiam, todos sabiam que Yeda não representava mais que bordões e clichês vazios, fantasiosos, destituídos de sentido. Ela transformou a política num fetiche e intencionalmente despolitizou a política para poder criminalizar seu oponente do segundo turno que fez política e a disputa eleitoral com seriedade e decência.

A política no Rio Grande do Sul, nos últimos anos, tem sido assim: constrói-se uma união não a favor do Estado e do desenvolvimento, mas uma união contra o PT; contra a possibilidade do PT voltar a ocupar posições de destaque no poder e equilibrar o jogo político regional. Mesmo que o PT eventualmente porte as melhores idéias e propostas para o desenvolvimento e para o progresso, encontram formas de demonizá-lo e satanizá-lo como um mal a ser evitado. Fazem do combate ideológico do PT uma religião monoteísta.

Em artigo neste espaço analisando o abafamento do impeachment da Governadora, foi dito que o reacionarismo gaúcho “não quer o melhor para o Rio Grande, mas sim conservar os seus melhores interesses e privilégios. Eles não pensam no que poderia melhorar a vida de todos, mas naquilo que não atrapalhe os seus objetivos. Eles não fazem política a favor de alguma coisa, mas contra o PT. Eles sempre optam por planos para derrotar o PT, e nunca por projetos para governar o Estado ou as cidades - mesmo que os planos contra o PT sejam prejudiciais ao povo e ao futuro, e mesmo que os projetos do PT sejam o melhor para a sociedade. Muitos deles fazem política com ódio e preconceito contra o PT, e têm medo daquele PT autêntico e programático que operou importantes transformações em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul. Foi assim que elegeram Yeda, com a idéia fantasiosa, mítica e vazia do “novo jeito de governar”; a reedição estadual da fraude “nirvanesca” que aplicaram com Fogaça em Porto Alegre para derrotar o PT. O Rio Grande e Porto Alegre ficaram pior com eles, mas como o que lhes interessa é ‘tirar’ o PT e não deixá-lo voltar, então para eles a coisa está boa e deve continuar, mesmo que a população os repugne.” [
Eles têm medo de quê? - Biruta do Sul, 19/06/2008].

A melancolia até o fim
O governo Yeda é, neste final de 2008, o alívio de ter já passado metade do mandato, mas o fardo de ter outra metade que, tudo indica, será de um vazio político até o encontro com seu fim melancólico. Ao que parece, a segunda parte do governo tende a ser a reedição duma Yeda Crusius descrita em 1993 por um conhecido colunista gaúcho quando a então Ministra do Planejamento de Itamar vagava na Esplanada dos Ministérios em Brasília sem poder e cumprindo papel ornamental: “um ente ficto, um ectoplasma tecnocrático, uma utopia dirigencial, uma avacalhação mais completa ...”.

Não seria implausível, contudo, que com a eventual abertura do estoque de escândalos pendentes que ficaram suspensos do debate público durante o período eleitoral – a começar, por exemplo, pela elucidação das condições de compra da casa da Governadora -, se retome uma conjuntura de maiores enfrentamentos e questionamentos da continuidade deste governo.

Antecipação do clima eleitoral de 2010
O fracasso do governo Yeda, por mais retumbante que seja, não significa, em nenhuma hipótese, que o bloco conservador, que é herdeiro e partícipe deste governo fracassado, está antecipadamente derrotado na sucessão de 2010. Os próprios “sócios” do desastre, o PMDB em proeminência, por ora avaliam ser conveniente permanecer no governo a abandoná-lo, apesar da caracterização negativa que dele se faça e dos péssimos índices de aprovação popular que ostenta.

As razões para se manterem juntos transcendem às conveniências parasitárias na máquina estatal, confessadas pelo ex-Chefe da Casa Civil de Yeda nas gravações de conversas mantidas com o Vice-Governador. É que este é exatamente o mesmo bloco social, econômico, partidário e midiático que vem polarizando com a alternativa de esquerda no Rio Grande do Sul pelo menos desde a eleição estadual de 1994, e que estará novamente unido em 2010. Além disso, são importantes os indícios de força desses partidos nas eleições municipais, sendo o PMDB o de maior visibilidade, com vitórias na capital, em Caxias do Sul e em outros centros urbanos de importância regional.

Se o coesionamento e a unidade de todo o conservadorismo em torno do governo Yeda é um fato contingente, a antecipação dos raciocínios eleitorais é outra imposição circunstancial do presente contexto político. O fracasso do governo forçosamente antecipa as equações com vistas às eleições de 2010, com a tendência de que o PMDB e o PT galvanizem o debate sucessório, mesmo que o PSDB tenha recentemente afirmado a candidatura re-eleitoral de Yeda.

O PMDB, alinhando do centro e centro-direita à direita do espectro partidário, reproduzindo o mesmo campo de alianças de quando governou com Britto e depois com Rigotto – nas duas vezes tendo o PSDB na vice-governança. E o PT, buscando alinhar posições do centro e centro-esquerda à esquerda, se esforçando para assegurar a companhia do trabalhismo e dos aliados históricos.

O PT tem boas chances de reconquistar o Piratini nas eleições de 2010, e essa é uma tarefa prioritária para que o partido e a esquerda gaúcha, governando o Rio Grande com políticas inovadoras e populares, possam recuperar capacidade de disputa hegemônica na sociedade gaúcha. Seria bom se o PT conseguisse emplacar, já no início de 2009, um planejamento estratégico com o objetivo de avançar na construção de relações partidárias e com setores da sociedade, das bases programáticas, de alianças e da melhor indicação de candidatura dentre os importantes e experientes quadros que o Partido pode oferecer para a construção de um projeto progressista, democrático e popular no Rio Grande do Sul.

Tomara que a reiterada ausência de balanços políticos de parte do PT – nestes dias, por exemplo, completa o primeiro mês da eleição em Porto Alegre sem que os filiados e simpatizantes da sigla sejam brindados com avaliações sobre o processo –não tem anule a capacidade de aprender-se com os processos equivocados do passado.

A legítima ambição de vencer em 2010 para desenvolver o Rio Grande e para melhorar a vida do povo gaúcho demanda um trabalho de diálogo, compreensão, consensos e muita unidade política interna que demanda, em última instância, tempos, ritos e processos políticos de qualidade distinta da que o PT vem se valendo nos últimos anos.

Se quiser vencer em 2010, a opção que se organizará em torno do PT não poderá resultar de invenções de última hora ou de arranjos determinados por processos internos dilacerantes e esterilizadores de força política. É fundamental que já ao raiar de 2009 iniciem-se os esforços e processos para a construção do que poderá ser a possibilidade concreta da vitória em 2010: um programa, amplas relações na sociedade, alianças coerentes e a mais potente candidatura.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Noam Chomsky em entrevista ao Rebelión

La crisis financiera marca el fin de un modelo cultural cuya doctrina es el fundamentalismo del libre mercado

Entrevista de Noam Chomsky ao Rebelión.

La crisis financiera actual representa también la crisis de un modelo cultural que tiene como principal doctrina al fundamentalismo del libre mercado, aseguró en entrevista Noam Chomsky (Philadelphia, 1928), calificado como el intelectual más influyente del planeta por las revistas Foreign Policy y Prospect Magazine en 2005.
“Donde la liberación financiera ha tenido lugar, a menudo resulta ser desastrosa, un hecho que debe ser suficientemente familiar en América Latina”, dijo el lingüista y profesor emérito del Instituto Tecnológico de Massachusetts.
“Este modelo intelectual ha sufrido un duro golpe. Ha sido modificado radicalmente por la intervención del Estado, el mismo tipo de intervención que ha sido prohibida para los países pobres. El modelo será objeto de nuevas modificaciones de acuerdo a los intereses de los centros de poder económico que en gran medida controlan la política estatal”.
Estados Unidos (EU) ha destinado 700 mil millones de dólares para salvar a los bancos, el ex presidente de la Reserva Federal Alan Greenspan dijo que cometió un error al confiar en el libre mercado, el Premio Nobel de Economía Joseph Stiglitz comparó la caída del sistema financiero con la caída del Muro de Berlín, a diario pierden las bolsas de valores y se dice que lo peor está por llegar.

-¿Cuál es la magnitud de la actual crisis económica?
Nadie sabe qué tan grave será. Y no es una sola crisis: hay varias. Una es la crisis financiera que se encuentra en las primeras páginas. Otra es la recesión en la economía real, es decir, la economía productiva. Una tercera, en EU, es la inminente crisis del ineficiente y costoso sistema privado de atención a la salud, que socavará el presupuesto federal a menos que se aborde en serio. Estos interactúan de manera compleja.
No veo ninguna utilidad en compararla con el Muro de Berlín. Ese fue un paso crucial para la caída de la URSS. No hay indicios de que las instituciones del Estado capitalista estén enfrentando un destino similar, excepto sectores como los bancos de inversión y algunas otras en el sector financiero, y por muy diferentes razones, sectores industriales como el automotriz en EU.

-¿Cuáles son las lecciones de esta crisis?
La más inmediata es que el fundamentalismo de mercado fue un desastre, lo cual no debería sorprender a los latinoamericanos o a otros sometidos a esta disciplina. Más específicamente, la liberalización financiera conduce al desastre. También, que la liberalización es un serio golpe c ontra la democracia. Otra lección subraya la sensible observación del principal filósofo social estadounidense del siglo 20, John Dewey: la política es “la sombra que las grandes empresas proyectan sobre la sociedad”.

-¿Será el ocaso del poder de los Estados Unidos y el inicio de la hegemonía de China o la India?
Es muy poco probable, a pesar de que la crisis puede llevar adelante el proceso de diversificación de la economía mundial. Los EU tienen enormes ventajas, aparte de su abrumador poderío militar. Europa tiene una economía de escala comparable, pero es heterogénea, y ha sido renuente a dar un paso adelante en los asuntos mundiales, prefiere permanecer bajo la sombra de EU. China y la India han estado creciendo, al igual que otros países de Asia que desafían la ortodoxia neoliberal, pero tienen enormes problemas internos. Un indicador está dado por el Índice de Desarrollo Humano de la ONU: China ocupa el lugar 81; India, el 128 (apenas por encima de Laos y Camboya). Y eso es sólo la superficie.

-¿Es la crisis de las finanzas o la crisis de un modelo cultural?
Es la crisis de un “modelo cultural” si por esto nos referimos a un sistema doctrinal: el fundamentalismo del libre mercado. Pero, a pesar de las pretensiones, esa doctrina nunca fue aceptada por los mismos centros de poder occidentales, pese a que fueron felices en predicarlo a los demás. Esto es un patrón histórico que se remonta por siglos, y es un importante factor en la creación del Tercer Mundo en las regiones colonizadas.
Autor de “Hegemonía o supervivencia. La estrategia imperialista de EU”, Chomsky menciona que Ronald Reagan, quien es reconocido como el “sumo sacerdote de los libres mercados”, incrementó el tamaño del gobierno, rescató el Continental Illinois Bank y fundó el consorcio Sematech para salvar a la industria de semiconductores estadounidense, entre otras acciones.
La crisis económica también ha evidenciado el “desmantelamiento” que sufre la democracia a causa del sistema del libre mercado, consideró Chomsky, quien se ubicó en la onceava posición de la lista de junio pasado sobre los intelectuales más influyentes del mundo. En la lista elaborada por Foreign Policy, editada por el Fondo Carnegie para la Paz Internacional, los primeros 10 fueron musulmanes. “En una democracia, las organizaciones populares, sindicatos, partidos políticos y otros, podrían estar formulando soluciones y presionando a los representantes políticos para ponerlas en práctica y no hay ninguna señal de eso”, sostuvo.
Es sorprendente, agregó el icono de la izquierda internacional, que los principales medios de comunicación estadounidenses insistan en invertir recursos públicos para salvar a los bancos, sin ningún tipo de control público, mientras que condenan el rescate de la industria automotriz. Los empleados de la industria del auto ganan 56 mil 650 dólares al año, casi lo que gana en un día Robert Rubin, actual presidente del Comité Ejecutivo de Citigroup, y uno de los responsables del actual desastre económico, en su calidad de ex Secretario del Tesoro de Bill Clinton, apuntó.

-¿Qué puede esperar el mundo y Estados Unidos si Barak Obama gana las elecciones?
Las bases de Obama parecen ser las de un demócrata centralista, tal vez no como Clinton. Un análisis más detallado tendría que considerar caso por caso.

-¿Qué representa el que un afroamericano pueda llegar a ser presidente de EU?
Es bastante significativo, como el hecho de que en las elecciones del partido Demócrata los candidatos fueron una mujer y un negro. Hace 40 años habría sido prácticamente inconcebible. Este es uno de los muchos indicios de la militancia popular de la década de 1960 y sus secuelas.


-¿Cuáles serán las consecuencias de la crisis económica en el ámbito cultural?
Eso es impredecible. Las crisis económicas a menudo se han visto acompañadas por la aparición del gran arte.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

“Mendesmômetro” para medir efeitos do Coronel Mendes

Enquanto conta com o apoio irrestrito e entusiasmado da Governadora Yeda Crusius e o aplauso não menos irrestrito e entusiasta de boa parte da mídia e de comunicadores gaúchos, o Coronel Mendes vai produzindo o morticínio inerente à sua postura militarista.
Infelizmente isso só tende a acabar depois duma tragédia produzindo cadáveres inocentes dos “filhos da classe média ou da classe rica” vitimados pela truculência do Coronel.
Então a comoção terá vindo tarde demais.

Mais em comum

O que têm em comum o Comandante da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, Coronel Mendes, e o Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Gilmar Mendes, além do sobrenome?

Inclinações autoritárias e idéias fascistas, pertencentes a tempos passados, medievais.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

La Bombonera viu olé do Inter

Vencer o Boca Juniors não é fácil. E o Inter venceu-o no templo do Beira-Rio por dois a zero, há duas semanas, com dois golaços do Alex.

Vencer o Boca Juniors em plena Bombonera, é mais difícil ainda. Fazia 40 anos que um time brasileiro não conseguia tal feito.
E o Inter venceu nesta noite, por dois a um. E venceu com olé, numa proeza que poucos times de futebol são capazes.

O Inter, último campeão brasileiro da Libertadores e do Mundial da Fifa, deu um show de bola e se cacifou para a semi-final da Copa Sulamericana.
Com olé e um futebol vistoso, raro.