sexta-feira, 29 de setembro de 2006

Rio Grande: Olívio para derrotar a direita

Jeferson Miola, integrante do IDEA – Instituto de debates, estudos e alternativas de Porto Alegre

A eleição em todo o país se encaminha para seu momento decisivo. No Rio Grande do Sul a etapa final ganha contornos dramáticos, com três candidaturas chegando emparelhadas e com chances de irem ao segundo turno: Olívio Dutra pelo PT, Germano Rigotto pelo PMDB e Yeda Crusius pelo PSDB.

As últimas pesquisas divulgadas – uma feita pelo Instituto Methodus e publicada na revista Voto e outra realizada pelo Correio do Povo -, lançam novas e discutíveis possibilidades de resultado eleitoral.

De acordo com os dois levantamentos, Rigotto e Yeda se credenciariam para o segundo turno, deixando Olívio fora da disputa. Este cenário, contudo, é decorrência de erros metodológicos das pesquisas, e não expressam a dinâmica eleitoral concreta.

A pesquisa Methodus-Voto, por exemplo, apresenta dois erros grosseiros na amostra investigada, superestimando o contingente de pessoas com média e alta escolaridade e subestimando o universo de pessoas de escolaridade restrita ao nível fundamental.

Apesar de haver aparente regularidade nos demais quesitos da investigação [gênero, faixa etária e classes de renda], a deturpação da amostragem relativamente ao item escolaridade produz uma discrepância grande – e extremamente artificial - em favor de Yeda.

Já a pesquisa do Correio do Povo não disponibilizou no TRE o conjunto de dados devidos, e apresentou os desempenhos dos candidatos empatados no limite das margens de erro. Entretanto, mesmo assim sua divulgação é acompanhada de uma interpretação jornalística orientando para o segundo turno entre Yeda e Rigotto.

No limite da prudência e responsabilidade, a manchete do jornal no máximo poderia referir o “acavalamento” das três candidaturas na reta final. Mas prevaleceu o propagandismo e a parcialidade, e então o Correio do Povo proclamou o resultado sonhado pelo conservadorismo gaúcho, de uma disputa em segundo turno que se realizaria exclusivamente no interior do seu próprio campo ideológico.

É óbvio que as pesquisas divulgadas não substituem o voto soberano do povo. Mas a apresentação de múltiplas pesquisas com sentidos semelhantes pode provocar o efeito desejado, de induzir fortemente a opção do eleitorado, fraudar a vontade popular e, especialmente, abater o ânimo da militância identificada com Olívio.

Nunca é demais lembrar que no dia 1º de outubro de 1998, a três dias do primeiro turno, a manchete de capa de Zero Hora era: “Britto está 10 pontos à frente de Olívio”, acrescentando no sub-título que a “eleição seria decidida no primeiro turno”. O resto da história sabemos: a vontade do povo gaúcho não foi a mesma do grupo RBS e Olívio foi eleito governador no segundo turno.

O comportamento do Correio do Povo nesta eleição não só em relação às pesquisas, como também devido à cobertura tendenciosa e desfavorável ao PT, é o que marca a diferença no processo eleitoral no Rio Grande do Sul neste ano. A opção do “velho” Correio, de se aproximar da linha editorial do seu concorrente Zero Hora, retira o pouco de equilíbrio jornalístico que poderia haver nesta eleição.

Apesar do sonho dourado do campo conservador gaúcho de excluir Olívio do segundo turno, a historiografia político-eleitoral do Rio Grande não autoriza concluir que a disputa venha a se circunscrever a um único campo do espectro ideológico. A tradição do debate polarizado, da disputa acirrada, do Gre-Nal político falará outra vez mais alto e reproduzirá novamente o cenário de enfrentamento entre a esquerda e a direita no Estado.

Olívio e o PT contam com uma forte estrutura partidária e vêm sobrevivendo a todas as vicissitudes da política nacional. A cada dia a campanha de Olívio ganha empolgação e vigor na afirmação enquanto alternativa democrática e popular ao tsunami causado ao Rio Grande pelo PMDB de Rigotto, juntamente com o PSDB de Yeda.

As pesquisas – e mais que isso, o sentido de manipulação que contém -, foram como um sopro contínuo no braseiro da candidatura de Olívio, e vêm incendiando o ânimo da militância da Frente Popular, já calejada com as conhecidas manobras do passado.

A direita gaúcha, apesar de estar mais apoiada do que nunca numa cobertura escandalosamente tendenciosa da mídia, passa a enfrentar o dilema de devorar-se entre si. A esgrima real se dá entre Rigotto e Yeda para ver quem vai ao segundo turno para disputar o comando do Estado com Olívio.

Rigotto desde o início lidera as pesquisas, porém em bases estacionárias e limitadas. Denota enorme dificuldade de crescimento e limites para a expansão da sua candidatura. Além disso, seu governo pálido e destituído de grandes marcas não ajuda a animar o eleitorado em direção ao futuro.

Yeda, apesar da frágil maquiagem de “nova”, dos desgastes de uma gestão incompetente da campanha que desmente o bordão do “novo jeito de governar” e da manifestação racista e preconceituosa num debate, parece ser a melhor beneficiária do crescimento momentâneo de Alckmin no Estado.

Seja como for, Olívio praticamente tem assegurado seu lugar no segundo turno. E torce para que a disputa ao interior da direita gaúcha seja encarniçada a ponto de incompatibilizar a base social de um apoiar o outro no segundo turno.

A vitória de Olívio não significará somente a vitória do PT e da Frente Popular no Rio Grande, mas o revigoramento do percurso da esquerda no país.

Onda que vale é a do voto do povo

A onda que vale, numa eleição, é a do voto.
E voto, quem concede, é o povo, com soberania e independência.

A onda que conta não é aquela que os poderosos inventam. A onda de verdade é a que vem da força do povo. E o povo quer Olívio, de novo, pro Rio Grande voltar a crescer e ser generoso com a maioria que mais precisa.

Os institutos de opinião, a mídia e a direita sempre tentam fraudar a vontade popular de várias formas, principalmente através da indução com pesquisas com resultados pré-fabricados.

Esta é a mais atípica eleição dos últimos tempos, assim como nesta eleição o comportamento da mídia foi mais escandalosamente e despudoradamente parcial - em favor de Rigotto e Yeda, nesta ordem.

O Correio do Povo, que tradicionalmente representava um contrapeso aos excessos cometidos por Zero Hora e pelo grupo RBS, nessa eleição preferiu andar na companhia do “império”.

Por isso, é importante dizer que nada – nem pesquisas, nem notícias falsas, nem ataques odiosos - pode alterar o vigor, o ânimo e a dedicação militante das pessoas que ajudarão a consolidar uma exuberante e surpreendente vitória do Olívio nesta eleição.

Consciência não é substituída por pesquisas eleitorais. A consciência popular é a força da mudança e de construção do novo governo da Frente Popular.

O povo do Rio Grande tem a consciência de que Olívio representa autenticamente o novo, e só ele é capaz de derrotar as candidaturas da direita, que fazem o Estado retroceder ao invés de avançar junto com o Brasil de Lula.

Esta é a hora de cada militante se multiplicar por dois e a cada hora das próximas 48 horas trazer mais seis militantes que formarão muitas constelações militantes que, com entusiasmo e esperança, vão levar as palavras da vitória do Olívio em todas as casas, bairros, botecos, escolas, fábricas, igrejas, cinemas, repartições, lojas, festas, colônias, rádios comunitárias e recantos desse Estado.

Para ir à vitória, com o voto da maioria do povo.

A onda que conta não é das pesquisas, é a que vem da força do povo.

"Alto lá! Esta terra tem dono, ninguém no-la tira!!"

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

A verdade é libertadora, senador

O senador Bornhausen escreve o artigo “Queremos a verdade!” [assim, com ponto de exclamação e tudo!] na Folha de hoje, 28/09. Ele pergunta, no mesmo tom inquisitorial com que sentenciou o fim da “raça dos petistas”: “quem forneceu o dinheiro para a operação suja do dossiê?”.

A resposta é simples: quem se envolveu com isso praticou uma estupidez que pertence ao universo existencial, moral e político do senador Bornhausen e sua malta.

E, aproveitando a ocasião, cabe perguntar ao senador, este ser político fermentado no regime militar ao qual manteve-se fiel por 21 anos; que foi ministro de Collor, líder do corrupto e privatista governo FHC, e que também acumula a profissão de banqueiro e eterno detentor do direito de exploração dos Free shops dos aeroportos brasileiros:

- de onde vem a fortuna pessoal e familiar deste oligarca do século XXI com inclinação ideológica da Alemanha dos anos 30 do século XX?

Depois da novela: debate ou guerra?

O debate da Globo se transformou no grande dilema e no fato mais relevante do final da campanha graças à estupidez do dossiê. Passaria despercebido, não fosse a turbulência causada pelo episódio na dinâmica eleitoral, podendo alterar as chances de vitória re-eleitoral de Lula no primeiro turno.

Comparecer a debates públicos, independentemente da condição eleitoral que se desfruta, é um predicado democrático e um exemplo republicano. É má escola política aquela inaugurada por FHC no gozo de enormes vantagens numéricas em relação aos adversários da época – inclusive o próprio Lula.

Mas o debate da Globo não se processa em condições normais de temperatura, pressão e republicanismo. Ao contrário, existe uma atmosfera envenenada que abrange a mídia, os políticos lacerdistas, o Congresso, o TSE e procuradores da República. Por isso a reflexão sobre o comparecimento de Lula é menos teórica em “estado puro” e mais tática-eleitoral.

Os inimigos e adversários nunca esconderam o desejo de afofar Lula em debates. O debate da Globo foi editorializado como o acontecimento mais importante e decisivo dessas eleições - do ponto de vista da direita e do conservadorismo que tenta a última cartada para evitar sua derrota já.

A gentileza e candura dos adversários é tanta que expressam preocupações de prejuízos ao próprio Lula, caso ele se ausente [sic]. Mais: comprometem-se a tratá-lo com doçura durante a contenda.

Hoje a noite não haverá debate, mas sim uma guerra de quatro contra um. É a Globo, HH, Alckmin e Cristóvam contra Lula.

Quer Lula compareça ou não, a guerra terá sempre esta configuração de 4 a 1. No debate será 4 a 1 e na repercussão do debate também será 4 a 1. Caso Lula se ausente, este placar certamente não se alterará, porém não poderão explorar nada além dos fatos que atualmente exploram, sem acréscimo de qualquer conveniência produzida no debate.

As condições de atacarem o Lula são infinitamente maiores que a sua capacidade de defesa, por mais sagaz e hábil que seja na construção de respostas.

A hipótese de conter e/ou recuperar as perdas eleitorais havidas nos últimos dias é neutralizada pela hipótese mais provável de perder pontos frente aos ataques multidirecionais que receberá.

Mas em última instância quem decidirá isso é o próprio Lula ou os sábios que o cercam, que sempre conseguem metê-lo [e a todos os petistas] em enrascadas monumentais. Nada autoriza a não pensar que não façam, nesta hora, a pior escolha.

Pode estar acabando a temporada na UTI

As pesquisas Datafolha e Ibope divulgadas ontem sinalizam a vitória de Lula no primeiro turno, porém com redução da diferença que Lula obtinha em relação aos demais adversários antes da estupidez do dossiê.

De qualquer maneira, é um sinal claro de que as perdas sofridas devido à estupidez do dossiê foram estancadas. Um dado igualmente importante é a elevada aprovação do governo Lula, com índices próximos de 50% de ótimo e bom. É um rochedo, e por isso a probabilidade de vitória no primeiro turno é cada vez maior.

O momento não permite e menos ainda recomenda celebrações antecipadas. É hora de continuar monitorando minuto a minuto para definir a melhor tática a ser adotada. Até porque o paciente ainda continua na UTI, talvez com a diferença de que já recobra alguns sentidos, dispensa aparelhos e inclusive já tenta passar a mão na bunda da enfermeira. Mas os adversários estão marcando em cima e apesar de não disporem de horário eleitoral gratuito, dispõe de horário eleitoral concedido pelo monopólio da mídia conservadora.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Se houve armação não pode ficar no TSE

Marco Aurélio de Mello não pode continuar presidindo o TSE. O Ministro, além de ter alardeado com muito barulho a existência de grampo telefônico no TSE de maneira irresponsável e precipitada, agora desdenha do trabalho técnico da perícia criminal da Polícia Federal.


Continua atuando como agente político, não como magistrado. Com a revelação de que não há indícios de existência de grampos, Mello não só pode ser suspeito de ter feito uma armação, como com seu comportamento perde o pouco de confiança para presidir o processo eleitoral brasileiro.


A Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais [APCF] divulgou nota oficial hoje contestando as declarações do presidente do TSE, que põe em dúvida o trabalho dos peritos profissionais. A nota está acessível no sáite daquela Associação [clique].

O trecho final da nota diz o seguinte, numa referência direta ao narciso de toga:

Num momento já contaminado pela excitação que a disputa eleitoral naturalmente levanta, alguns, infelizmente, parecem preferir os holofotes da imprensa, sob os quais tentam manter-se a qualquer custo, ao invés de recolher-se à reflexão ponderada sobre as próprias falhas cometidas ao longo do episódio.

É como a pessoa que, insatisfeita com a própria aparência, volta sua ira contra o espelho, como se ele fosse o culpado.


Nunca foi tão recomendável o acompanhamento externo das eleições no Brasil. A direita do país se articula em todos os planos e em todos os poderes para desestabilizar o governo e, na hipótese de vitória re-eleitoral de Lula já no primeiro turno, prosseguir atacando-o com a virulência udenista de sempre.

E por fim, o que falta para que algum partido político peça o impedimento do presidente do TSE?

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Giro sempre à esquerda

O atual momento político não comporta ambigüidades. Independentemente do grau de envolvimento de alguns estúpidos do PT no escândalo do dossiê – e foi grande a participação de petistas no caso -, o fato é que a direita sabe exatamente onde quer chegar e o que quer atingir: a esquerda e sua vocação transformadora.

Pode-se contestar o governo Lula sob muitos ângulos, mas jamais se pode menosprezar o quão seria desastroso um refluxo à direita no Brasil a partir de uma eventual derrota eleitoral de Lula.

É nesse rumo que Emir Sader analisa no Blog do Emir a conjuntura brasileira, com lucidez e pela esquerda.

Não é Verde, é Laranja

Muitas pessoas que nutriam simpatias pela causa ambientalista se decepcionaram com a trajetória oportunista do candidato do PV nesta eleição.

Vinha como franco atirador, disparando para tudo quanto foi lado, mas nas últimas semanas o flerte com Rigotto evoluiu até um entendimento digamos assim “mais estável”.

Nos debates da TVE e da AGERT, já operou abertamente como “laranja” do PMDB.

E sonha superar a cláusula de barreira nesse zig-zag.

A saber: recentemente foi candidato a vice do PP para a Prefeitura de Porto Alegre e foi secretário-adjunto da administração Fogaça.

Armação de toga?

A perícia técnica realizada no TSE não confirmou ter havido grampeamento dos telefones dos Ministros do Tribunal.

Mesmo assim o presidente do TSE, Ministro Marco Aurélio de Mello, continua fazendo insinuações inaceitáveis para alimentar um clima de suspeição e de crise institucional:

Eu soube que não encontraram nada, mas isso já era presumível. A coisa veio à tona na sexta. Houve tempo bastante para aqueles que colocaram a escuta retirarem. A minha parte eu fiz, que foi comunicar ao procurador-geral da República e ao ministro da Justiça e escancarar as mazelas. Não sou parte nas investigações. A vítima, a meu ver, é a União. Teria sido um ato contra um serviço da União.”.

Terá sido pura invenção do presidente do TSE? Terá ele simplesmente inventado essa estória escabrosa de grampos telefônicos para vitaminar os ataques contra o governo, o PT e o Lula?

Cara de pau este Marco Aurélio de Mello. Na maior desfaçatez lança suspeitas sobre o trabalho técnico da Polícia Federal para continuar acusando o governo de bisbilhotar seu santo gabinete.

Zero Hora - o Partido

Zero Hora está se esmerando na arte de prejudicar o PT. E sabe muito bem como fazer isso. Assim como já não disfarça o desejo [ou delírio] de impedir a chegada do candidato Olívio Dutra ao segundo turno.

A cada edição o jornal demonstra sua capacidade de auto-superação em destruir a imagem do PT.

É difícil prever o que o partido/jornal ZH poderá aprontar nos próximos dias, principalmente na edição dominical, dia da eleição. Toda vacina é válida, pois os antecedentes do grupo RBS não autorizam ingenuidade na abordagem da questão.

O grupo RBS caminha para novo ciclo de desgaste e de conflito perante a opinião pública; para a perda da pouca credibilidade que lhe resta.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

Vilania pela esquerda

Muitas pessoas da esquerda social e partidária ajudaram, com suas assinaturas, a legalização do PSOL. De boa fé e mesmo divergindo da opção daqueles que saíram do PT de fundarem um outro partido, muitas pessoas concederam apoio democrático para que os dissidentes do PT pudessem viabilizar uma alternativa política e institucional.

Gente do PT, PCdoB, PSB, dos movimentos sociais, intelectuais e tanta gente que, mesmo não vinculada a partidos políticos, apoiou o direito de reconhecimento formal do PSOL.

O que ninguém poderia aceitar é que o PSOL se transformasse em braço acessório do PSDB e do conservadorismo brasileiro. Falando claro: que o PSOL fizesse o jogo da direita.

Os fatos e circunstâncias em que isso ocorre são abundantes. Às vezes nem mesmo se consegue distinguir se uma generalização adjetiva contra o PT foi feita pela Heloísa Helena ou pelo ACM, por Serra, Alckmin ou pelo FHC.

Nas eleições no RS não é diferente. O candidato do PSOL, Roberto Robaina, tem como esporte predileto atacar neuroticamente Olívio e o PT. Ele simplesmente secundariza – quando não abstrai – as candidaturas neoliberais de Rigotto e Yeda. Ataca o PT e Olívio e ataca baixo, mas não num debate programático.

É lamentável que o PSOL tenha se tornado uma caricatura de si mesmo, do seu dogmatismo e do messianismo dos “novos” dirigentes revolucionários. Segue a pior tradição da esquerda doutrinária que crê no determinismo da história e perde a noção histórica e estratégica de discernir quem são e onde estão os adversários de classe.

O Olívio, no primeiro governo democrático e popular do Rio Grande do Sul, foi vítima da vilania da direita. Vilania de quem reivindica tradição de esquerda tem outro nome.

Governador nas 24 Horas do dia

Do candidato Olívio Dutra na manifestação de despedida no debate promovido hoje pela AGERT:

Já fui governador. Mas fui governador 24 horas do dia. Não entendo essa de dizer que é governador somente no horário comercial. Serei governador outra vez 24 horas do dia.

Olívio se referiu ao governador-candidato, que na justificativa de ausência no debate, registrou que não poderia participar do encontro da AGERT por ser no horário “que atua como governador”.

De fato o governador-candidato nem precisa fazer muita campanha, podendo dispender seu tempo “fora da repartição” ou “fora do expediente” para brincar com o cachorrinho novo.

Com a mídia dando a força escandalosa que dá, mais a conversão de postos de vacinação em comitês eleitorais, o governador-candidato se dá ao luxo de guardar suas energias.

Rigotto cada vez mais se parece com Britto: enrola, mente e é o “cavalo do comissário” desta eleição.

Crise editorializada

Os jornais brasileiros de circulação nacional como a Folha, o Estado de SP, Globo e Correio Braziliense trazem manchetes de capa das edições dessa segunda-feira em torno da declaração de Lula proclamando vitória no primeiro turno.

A ver:
Correio Braziliense: Lula e Alckmin empatam no DF. Presidente diz que ganhará no 1° turno
O Estado de São Paulo: Lula: "Podem denunciar, mas ganho no 1° turno"
Folha de São Paulo: Lula diz que "mata" eleição no 1° turno
O Globo: Lula se compara a Cristo e diz que ganha no 1° turno

Nas matérias predomina a cobertura sobre o escândalo provocado pelo dossiê e a respeito dos estúpidos personagens que fizeram a picaretagem. Muito pouco é reportado sobre o conteúdo do dossiê, que são as falcatruas da turma do PSDB junto com a famiglia Vedoin. De qualquer maneira, o principal da cobertura não trata o escândalo como uma crise. O caso do dossiê é tratado como deveria, ou seja, como um escândalo.

Zero Hora, porém, é semiótica.
A edição de hoje não faz mera cobertura sobre o escândalo do dossiê e seus desdobramentos, mas sim cria o clima de recepção de Lula, que chega ao Estado para compromissos oficiais e de campanha.

A manchete de capa do jornal é “Em meio à crise, Lula visita o RS”.
Nas matérias internas, ZH se esmerou com reportagens sobre “o serviço secreto” [sic] do PT com ilustrações até de PC Farias na matéria; sobre a queda de Lula nas pesquisas; a “blindagem” [sic] do PT gaúcho a Lula nas atividades de campanha no RS; sobre o mal-estar de Alckmin e por aí vai.

Mas surpreende muito a reportagem “Clube Militar vê risco à democracia”. A matéria, que destoa de toda a imprensa nacional, ganha destaque na edição de ZH porque “confere” veracidade à idéia de “crise” estampada na capa.

Dispensável referir que as atividades da campanha Olívio, especialmente a enorme [e maior] caminhada no Brique da Redenção, não figurou no jornal.

Se afastando das bases

O candidato Turra anda na contramão das bases do PP em todo o interior do Rio Grande. Muitos prefeitos, vereadores e dirigentes partidários já manifestam a decisão de apoiar o candidato Olívio Dutra no segundo turno.

Olívio colhe os frutos do trabalho respeitoso, sério e republicano que manteve com representações de todos os partidos políticos quando foi governador do Rio Grande e depois como Ministro das Cidades. Olívio avançou e muito e valorizou os Municípios na perspectiva de uma verdadeira relação federativa.

A posição crispada de Turra contra o Olívio nos debates não agrada prefeitos, vereadores e simpatizantes do PP no interior, e pode afastar a base do PP do candidato Turra já no primeiro turno, o que pode ser ruim para as pretensões partidárias do PP.

Ao invés de realizar um debate programático, Turra tem preferido atacar Olívio. Parece querer constrangê-lo em relação a questões como a Ford e ocupações de terra. Olívio, contudo, responde com tranqüilidade, mas certamente preferiria avançar na apresentação de propostas para tirar o Rio Grande do buraco em que a coligação conservadora de Rigotto o meteu.

Turra também se passa quando nega sectariamente os avanços importantes tidos no RS com o governo federal, como o seguro agrícola.

Desse jeito, o candidato do PP acaba desempenhando um papel de “laranja” do PMDB e do governador-candidato Rigotto. E isso não agrada a setores identificados com o PP em todo o interior, que podem migrar de candidatura e apoiar Olívio já no primeiro turno.

Desta vez foi fora do ar

A candidata Yeda não compareceu ao debate da TVE ocorrido ontem a noite. Justificou a ausência devido a uma gastroenterite.

Menos mal, porque da última vez que participou em debate eleitoral, a gastroenterite da candidata foi no ar e ao vivo, quando respondeu colericamente a pergunta de outro candidato. Na ocasião, expôs uma posição racista e seu preconceito contra as religiões afro-brasileiras.

Aos leitores da ZH de hoje, 25/09, o Biruta pede que se manifestem quanto à técnica jornalística do jornal, que colocou as notícias e fotografias de Yeda e Alckmin em páginas espelhadas [8 e 9]: Yeda e Alckmin, unidos até na doença.

As pesquisas, que detectam crescimento de Alckmin no RS, são a senha para a força que ZH volta a dar para Yeda.

Ainda monitorando na UTI

A semana passada teve um movimento frenético no mercado de pesquisas eleitorais.

O Ibope e o Datafolha registraram no TSE e divulgaram pelo menos duas pesquisas que cada instituto realizou entre o início e o fim da semana.

A variabilidade detectada ainda não permite conclusões – menos ainda definitivas. Apesar disso, muitos jornais e TV´s publicaram desejos e comemorações, porém não reportagens e prospecções acerca das pesquisas.

Ainda não é possível aferir a extensão efetiva do dano que a estupidez do dossiê trará para a reeleição de Lula no primeiro turno. Mas é evidente que além dos prejuízos políticos e de imagem, a estupidez do dossiê causou perdas eleitorais.

Em Estados com tradição mais crítica, como o Rio Grande, é plausível acreditar-se em contaminação da bandalheira do PT nacional na candidatura do PT e a produção de estragos justamente num momento em que começa a se criar uma onda ascendente do Olívio rumo à vitória. Fato também a ser visto e monitorado.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

Tsunami Rigotto causa tragédia na saúde

O candidato-governador que se elegeu prometendo construir um posto de saúde a cada quilômetro é fiel à doutrina do PMDB de causar uma tragédia na saúde pública. Segue, assim, o mesmo estilo do seu ex-governo do seu ex-correlegionário Britto: prejudica a população que precisa do SUS, mas favorece os grandes.

No final de agosto, a Justiça mandou o atual governo devolver R$ 365 milhões das verbas que foram desviadas da saúde somente no ano de 2003.

Nos anos de 2004 e 2005, o governo estadual também deixou de aplicar na área os 12% que determina a Constituição Federal, causando um rombo de mais de R$ 1 bilhão de reais.

Na proposta de orçamento para 2007 que enviou à Assembléia Legislativa no último 15/09, Rigotto outra vez desrespeitou a Constituição [e principalmente o povo que mais precisa] e deixou faltando R$ 237 milhões no orçamento da saúde. Com isso, ao final do tsunami Rigotto, o SUS vai contabilizar um prejuízo de aproximadamente R$ 2 bilhões.

O Rio Grande do Sul, no ano de 2004, foi a unidade da federação com o pior índice de investimento na área de saúde, de acordo com a Nota Técnica 49/2006 do Ministério da Saúde. Aplicando apenas 6,1% da receita, Rigotto deixou o Rio Grande na lanterna neste verdadeiro "ranking da vida", posicionando-o muito abaixo do padrão de investimentos dos demais Estados, que variaram de 9% a 24%.

Além de retirar dinheiro da saúde, Rigotto desmontou o SUS ao abandonar projetos importantes criados no governo Olívio e que vinham dando certo pois permitiam o atendimento qualificado e resolutivo da população. Não faltam exemplos: a municipalização solidária, a regionalização hospitalar, a produção de medicamentos e o financiamento dos hospitais, casas de saúde e instituições comunitárias, filantrópicas e conveniadas do SUS.

Enquanto o governo estadual aplica menos de 6% do orçamento na área da saúde, os municípios gaúchos estão aplicando em média 19% e o governo Lula aumentou em R$ 400 milhões/ano o custeio dos serviços e ações do SUS no Estado. Isso quer dizer que quem de fato financia o SUS no Rio Grande do Sul são a União e os Municípios.

Ao mesmo tempo em que desviou R$ 2 bilhões da saúde, Rigotto concedeu R$ 5 bilhões em benefícios fiscais para mega-empresas e deu três anistias para sonegadores.

Como está acostumado a transferir a culpa de todos os males do Rio Grande a São Pedro ou ao governo federal, é provável que o candidato-governador culpe as pessoas que adoecem pela tragédia que causa à saúde.

Quando tudo ajuda ...

O governador-candidato anunciou que não mais se licenciará para se dedicar exclusivamente à campanha reeleitoral.
Concluiu que nem é necessário, pois com a generosa força que recebe dos principais meios de comunicação, pode ficar em casa brincando com o cachorrinho novo e se poupando da dureza do trabalho.
Ademais, o governador-candidato também tem a vantagem de poder transformar comitê eleitoral em repartição pública de vacinação infantil sem ser molestado pela justiça eleitoral. Ah, com direito a usar materiais, equipamentos e funcionários públicos!! Sem deixar de recordar que o feito se deu em Imbé e que os funcionários atuavam devidamente uniformizados.

Para que nunca mais aconteça III

Repercutiu no Nuestro Vino, blógue que consta dos linques do Biruta do Sul, a notícia da prisão perpétua de um ex-comissário de polícia que atuou fortemente durante a repressão argentina entre 1976 e 1983. É a primeira medida do gênero que ocorre na Argentina.

O comentário completo e outras referências sobre esta notícia, podem ser obtidas no Nuestro Vino, clicando aqui.

A dias atrás, Biruta também fez referência à ação judicial impetrada pela família Maria Amélia e César Teles contra o torturador e hoje coronel aposentado do Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra, que durante a ditadura militar no Brasil foi um dos piores algozes dos presos políticos, dos seus familiares e de muitas pessoas inocentes. Foi a primeira ação do gênero no Brasil.

São duas iniciativas - tão somente duas - mas de ressonância exponencial para a preservação da viva memória contra a barbárie, o totalitarismo e a intolerância.

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Alerta total: vacinação contra a vilania

A coordenação da campanha Lula emitiu boletim de alerta para as manobras golpistas engendradas principalmente pelo PSDB e PFL. O boletim pode ser lido no saite da campanha [clique].

Jogada ensaiada

O nada-isento presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello, mais esforçado em impugnar Lula do que em conduzir o processo eleitoral com isenção e imparcialidade, segue se superando na modalidade “reacionarismo de toga”.

Comentando sobre o episódio do dossiê, tem emitido juízos de valor que lhe impedem não só de conduzir as investigações acerca do assunto, como de presidir o processo eleitoral brasileiro. Já aventa a cassação do eleito, caso não consiga impugnar a candidatura de Lula.

No outro lado da Praça dos Poderes em Brasília encontra-se o Senador Heráclito Fortes, do PFL-PI, um jogador do mesmo time do presidente do TSE e que vem aprontando das suas. Propõe a criação de uma CPI para investigar o assunto e que seria instalada, entretanto, somente após as eleições.

As medidas desses dois personagens têm um objetivo em comum: azucrinar Lula desde antes mesmo da posse no segundo mandato. Faz parte do jogo de desestabilização e deslegitimação do governo Lula com vistas ao assalto tucano-pefelista ao aparelho de Estado em 2010.

Os gaúchos lembram bem do que são capazes os reacionários e conservadores ao serem democraticamente derrotados. Durante o governo Olívio Dutra, de 1999 a 2002, houve a oposição raivosa capitaneada pelo PMDB que começou imediatamente após as eleições e se desenrolou até o último dia de governo. Para não esquecer: o ex-governador Britto, do PMDB, incendiou o Estado e recusou-se a transmitir o cargo. Em 1º de janeiro de 2003 Olívio Dutra democraticamente transmitiu o cargo ao atual governador, que se elegeu ironicamente com a promessa abstrata de “pacificar o Estado” [sic] – envenenado pelo seu próprio correligionário de então.

Monitorando na UTI

Na noite de hoje, 21/09, foram divulgadas duas novas pesquisas IBOPE e Vox Populi, cujo campo foi colhido no calor inicial do episódio do dossiê. Os resultados indicam a preservação da ampla vantagem de Lula em relação à soma de todos os demais adversários, com o encaminhamento da eleição, por ora, já no primeiro turno.

Nada autoriza, entretanto, conclusões imediatas sobre a extensão e efeitos do episódio do dossiê para a eleição de Lula e dos candidatos do PT nos Estados. Muita água ainda vai passar por debaixo da ponte. E muita baixaria vai circular nos programas eleitorais e através da mídia conservadora.

A campanha, que até então estava modorrenta, ganha nova dinâmica a partir de agora, e cada novo lance passa a ser acompanhado como um médico monitora paciente internado numa UTI: a todo instante constatando todos os sinais vitais.

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Brasil ao avesso

Tempos curiosos no Brasil de hoje.

Alguém que chegasse de fora, passasse os olhos nos jornais e noticiários, concluiria que as coisas estão de cabeça para baixo no Brasil.

Vejamos:

- O PSDB e o PFL só têm talibãs e terroristas entre os chefes da malta, mas querem fazer crer que o homem-bomba seja Lula, que só perderia com uma estupidez como a do dossiê.

- Presidente do TSE, de quem se esperaria parcimônia e isenção, atua como acusador com ânsia de impugnar a candidatura de Lula.

- Inventores do Valerioduto, do PCC e das Sanguessugas, o PSDB e PFL aproveitam o embalo da confusão do tal dossiê para enterrar as investigações que ligam a famiglia Vedoin a Serra.

- A direita, no governo, sempre impediu o trabalho sério e isento da Polícia Federal, mas agora que a instituição atua com profissionalismo e independência no governo Lula, atacam-na porque gostariam de obter cenas sensacionalistas para explorarem na televisão.

- A candidata do PSOL, que diz representar uma alternativa de esquerda, vocifera com a mesma estridência que a direita, dizendo coisas como “Não tenho dúvida que o presidente Lula é o grande comandante desta estrutura, que é uma organização criminosa capaz de roubar, matar e liquidar quem passa pela frente ameaçando o seu projeto de poder.”.

terça-feira, 19 de setembro de 2006

A Herança Farroupilha

Por Olívio Dutra, publicado no Correio do Povo de 19 setembro 2006

As gaúchas e os gaúchos têm todo o direito de comemorar com muito orgulho a data de Vinte de Setembro, a nossa Revolução Farroupilha. São raros os acontecimentos que varam o tempo e se projetam para o futuro, criando símbolos permanentes e uma cultura específica. A revolução dos farrapos é um deles. Foi um fato histórico relevante não apenas para o RS, mas - e isso poucos percebem - para o Brasil. Por isso mesmo, quando celebramos mais um aniversário do decênio heróico, devemos, além da festa, justa e necessária, pensar sobre ele, refletir sobre as razões que tornaram a revolução não apenas um acontecimento datado no calendário, mas o fato que desencadeou a descoberta do gaúcho, a sua identidade, o seu jeito de ser.


Pois a Revolução Farroupilha teve um conteúdo profundo e antecipador. Não é por acaso que revolucionários europeus, como os italianos Luigi Rossetti, Tito Lívio Zambeccari e o grande Garibaldi participaram ativamente da Revolução que por dez anos resistiu ao Império. A revolução dos farrapos tinha uma ideologia inovadora que perpassava todos os interesses materiais que a motivaram. Ela estava positivamente influenciada pelas idéias renovadoras que sacudiram a Europa nos séculos XVIII e XIX, estava construída nas pegadas do Iluminismo e erguia bandeiras que só no final do século XIX iriam se tornar realidade no Brasil: a República, que, segundo os ousados revolucionários, era inseparável da liberdade, da igualdade e da humanidade. Foi, portanto, uma revolução liberal e republicana.


Assim, esse legado profundo não pode ser esquecido, não pode ser deixado em segundo plano, mas ser lembrado sempre para não submergirmos na tentação perigosa da mera 'folclorização' da data. Ainda mais que muitos dos aspectos do programa farroupilha continuam extremamente atuais e, principalmente, a idéia de República, que ainda está para ser plenamente realidade em nosso país.


Celebremos mais um aniversário da grande revolução, com alegria e com orgulho, relembrando coletivamente as nossas tradições culturais, os nossos costumes que nos formaram como povo que soube receber e assimilar as outras etnias que aqui aportaram e que também contribuíram para que o RS viesse a se tornar o que hoje é. Mas sem esquecer que o Vinte de Setembro foi fundamentalmente uma corajosa e imorredoura ação política que viria a ter profunda influência no futuro da nação brasileira. E, principalmente, sem olvidarmos o fato de que muito do que sonharam os revolucionários de 1835 ainda está por ser feito.

Uma vela que se apaga

O artigo a seguir, além de ser um belíssimo e indignado libelo contra as expressões de preconceito religioso e ódio racial, também é uma homenagem à ancestralidade farroupilha dos gaúchos, cuja identidade é associada à luta viril porém tolerante, libertária e franca - que não admite simulacros de conservadores que se tornam camaleões em época eleitoral.

UMA VELA QUE SE APAGA

Por Marcel Frison, Membro do Diretório Nacional do PT

A política é uma deusa implacável, e sob sua égide, nós, pobres mortais, estamos irremediavelmente submetidos a expor tudo aquilo que temos de melhor e pior. O que para alguns é a arte da desfaçatez, para mim, é o terreno das revelações.
No recente debate entre os candidatos a governador promovido pela Rede Pampa de TV, a candidata Yeda, diante de uma metáfora do candidato Collares, que caracterizou sua gestão à frente do Ministério do Planejamento como uma “vela que se apaga rapidamente”, perdeu a pose, e desferiu a resposta “tem vela que se acende nas esquinas”, uma alusão nitidamente preconceituosa para com os seguidores das religiões de matriz africana e, também, racista. Para além dos termos literais, ficou a imagem da senhora branca mandando o “negrão” se por no “seu lugar”. Absolutamente inaceitável.
O racismo é, antes de tudo, uma demonstração de covardia. É a tentativa mais torpe de justificar a dominação. A escravidão na América Latina e em outros continentes, dos negros e dos índios tinha como explicação, a simples teoria de que estes não eram humanos, portanto, era razoável tratá-los como animais. Ou seja, coloca-se no subjugado a culpa pela sua condição. A crueldade, a ganância e o atraso civilizatório dos dominadores é explicada pela origem étnica do dominado.
Nos tempos atuais, isto se reflete em múltiplas maneiras. A reação de Yeda é uma delas. Diante do fato de estar sendo “afrontada” por uma verdade que contradiz a sua imagem artificial, ela reagiu utilizando-se de argumentos, digamos, coloniais. A verdade era a lembrança do motivo pelo qual tinha sido demitida do Ministério do Planejamento no Governo Sarney: incompetência.
De forma covarde, Yeda tentou sair da saia justa desmoralizando o seu interlocutor ao explicitar sua raça e suas crenças, e portanto, na sua tortuosa cabeça, o transformando em um ser “inferior” e “incapaz” de julgar. Poderia se defender levantando um conjunto de realizações como Ministra, mas não o fez, talvez pela banal razão, de que não existem.
Collares acertou em cheio e ela encontrou a resposta no fundo da alma. Revelou-se por inteiro. Revelou não só o seu racismo, mas sua incapacidade de sustentar o seu discurso, a não ser pela truculência.
Ela pode querer ser a futura governadora do Rio Grande, porém não me venha com este velho e surrado jeito de fazer política. Este já deveria ter sido sepultado à décadas.
Espero que, como disse o Collares, seja apenas uma vela, rapidamente, se apagando.

Encenação eleitoral

Dalmo Dallari, conhecido jurista e professor da USP, critica o eleitoralismo da tese de impugnação da candidatura de Lula. Também alerta para a postura política do presidente do TSE, Marco Aurélio de Mello, que se apressa em estabelecer nexos que possam incriminar Lula.
O lacerdismo do PSDB/PFL está mais aceso que nunca.
Leia a entrevista de Dallari a Raphael Prado, no Terra Magazine.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Chuchu no Coração

De César Maia – PFL/RJ, na entrevista de 2ª na Folha de São Paulo [assinantes UOL ou FSP podem ler na íntegra a entrevista]:

O Germano Rigotto me pediu: ‘Telefone para o Alckmin e diz para tirar a Yeda que vou apoiá-lo’.".

Marcha da insensatez

Tudo ia perfeitamente bem.
A campanha re-eleitoral de Lula se encaminhando para a vitória já no primeiro turno, a maioria do povo não se deixando levar pelo lacerdismo da direita, as maracutaias do PSDB e PFL sendo descobertas na CPI e pela Polícia Federal, e indicativos de que a representação parlamentar do PT poderá ser mantida ou mesmo levemente ampliada.

Até que surgem os estúpidos que podem pôr muita coisa a perder.
Parecem ter reencarnado o espírito de alguns do PT que caíram em desgraça e produziram a maior crise da história do PT justamente por terem imitados os métodos tradicionais e abomináveis de ação da direita brasileira.

O PT não combina com isso. Aliás, o PED [processo de eleições diretas] foi um sopro de vitalidade para o reencontro do PT com seus valores fundantes e para seu distanciamento de condutas degenerantes.

A fórmula de sucesso do PT está em si mesmo, não na aproximação com as maneiras e os velhos esquemas de poder da classe dominante brasileira.

O PT precisa mais de si mesmo, de inspiração na sua originalidade formativa, do seu programa atualizado à luz das complexas e desafiadoras tarefas postas no mundo contemporâneo. Em definitivo, não será em “aulas de pós-graduação em sociologia política” com professores como Jader Barbalho que o PT cumprirá esse percurso historicamente exigido.

A belíssima obra A Marcha da Insensatez, da autora Bárbara W. Tuchman [José Olympio Editora], talvez seja melhor fonte para o PT reencontrar inspiração. Dentre outros ensinamentos, o livro disseca a arte de governos aplicarem políticas que contrariam os próprios interesses. Ou dito de forma explícita: como a “insensatez política conduz a resultados contraproducentes”.

PCC e PSDB/PFL: unidos pelo terror

O PCC é outra criação da aliança conservadora PSDB/PFL. Poder-se-ia dizer que é um subproduto da desastrada política penitenciária que desenvolvem a 12 anos em São Paulo.

As identidades entre o PCC e a aliança conservadora vão além do DNA comum. Eles também se identificam no modus operandi, baseado em técnicas de terror. A única diferença, entretanto, é que Marcos Marcola continua preso, enquanto os chefes da outra malta gozam do privilégio da eterna liberdade sem julgamento.

A violência verbal praticada pelos principais líderes do PSDB e PFL não pode mais ser tolerada como simples irresponsabilidade de quem se desespera diante de iminente derrota eleitoral. As manifestações feitas por Alckmin e o vice José Jorge a respeito do episódio do dossiê contra José Serra ultrapassam a arena política e penetram na categoria do crime e do terrorismo. Praticam o terror e o ódio político e incitam à violência.

As acusações de vínculo do PT com o “submundo do crime” e com o PCC não podem ser naturalizadas como parte do debate eleitoral, mas devem ser tratadas com extremo rigor na esfera criminal.

E com urgência, sob pena do Brasil se transformar num entreposto do Afeganistão, proliferando a nova malta de oligarcas talibãs. Combater com muita seriedade este crime é um dever intransferível da direção do Partido dos Trabalhadores em defesa dos quase 1 milhão de filiados e das/dos milhões de brasileiras/os que nele depositam confiança e esperança de um mundo tolerante e justo.

*** ***

O que disseram:

Alckmin: “Quando se vai ao submundo do crime, se encontra alguém do PT.

José Jorge: “De onde será que saiu o dinheiro? Ninguém sabe de onde veio, será que veio do PCC?

domingo, 17 de setembro de 2006

Imprensa inconfiável

Imperdível o artigo do Emir Sader, no Blog DO Emir. Inicia com a seguinte sentença: "Se o povo acreditasse no que a imprensa diz, se tivesse confiança nela, seria Alckmin quem estaria por triunfar no primeiro turno e não Lula.".
Qualquer semelhança com o comportamento da RBS não é mera coincidência, é pura semelhança mesmo.
O artigo pode ser lido no Blog DO Emir.

Ainda sobre a invenção tucana III

Fossem outros os tempos e fossem outras as vítimas do crime de compra/venda de dossiê e de chantagem eleitoral, o desfecho por certo teria sido outro.

Mas no presente caso, prevaleceu o profissionalismo e a independência da Polícia Federal, que numa operação de inteligência monitorava as negociações obscuras e na oportunidade adequada prendeu todas as pessoas envolvidas.

Bobagem a turma do PSDB bradar histericamente tentando vincular o PT com a estultice de um sujeito recentemente filiado ao partido.

Na era tucana, porém, acontecia tudo ao contrário. O PSDB partidarizou o Estado, e instrumentalizava a Polícia Federal para viabilizar seus interesses políticos e eleitorais e, obviamente, proteger-se dos mega-escândalos praticados.

Quem não lembra da operação da PF em março de 2002 com a espionagem na empresa Lunus, que resultou na derrubada da candidatura de Roseana Sarney e na consolidação de José Serra como candidato do PSDB/PFL?

Como esquecer do escândalo da Pasta Rosa, sobre a promiscuidade entre o BC e o Banco Econômico de Calmon de Sá? Naquele caso, contudo, a PF foi corrida da Bahia pelo conhecido coronel e oligarca ACM. Sem se mencionar um sem-fim de outros escândalos abafados pelo tucanato.

Por isso, tão inaceitável quanto o crime de compra/venda de dossiê, é o oportunismo em época eleitoral daqueles que aproveitam a situação para se vitimizarem ao extremo, acusarem genericamente os seus adversários para assim passarem por inocentes.

Ainda sobre a invenção tucana II

O Correio Braziliense da semana passada, e a revista IstoÉ desse final de semana, publicam amplas reportagens sobre a relação entre o esquema de superfaturamento de ambulâncias e o ex-Ministro da Saúde, José Serra.

As matérias se baseiam em fatos que já fazem parte das provas documentais constantes nas investigações, como fotografias e um vídeo de Serra com deputados sanguessugas e a famiglia Vedoin num galpão da empresa Planam, no Estado do Mato Grosso. Aliás, este acervo de provas já circulou pela internet a semanas atrás, e o site Olhar disponibiliza o vídeo para as/os internautas: http://www.olhardireto.com.br/videos/reportagem.wmv.

Na última sexta-feira, Luis Antonio Vedoin e um primo dele foram presos por negociarem a R$ 1,7 milhões a venda dessas provas com pessoas presumivelmente vinculadas ao PT - o advogado Gedimar Pereira Passos e o empreiteiro Valdebran Padilha, filiado ao PT em 2004 e que foi tesoureiro da campanha do partido à prefeitura de Cuiabá.

As suspeitas são de que os materiais seriam comprados para serem utilizados contra as candidaturas de Serra e Alckmin. O difícil é entender se a estupidez e imbecilidade daquelas pessoas que negociaram com os capo da famiglia Vedoin poderia trazer dividendos eleitorais a quem quer que seja.

O Presidente Lula de pronto rechaçou o ocorrido, considerando deplorável a compra de dossiê contra candidatos. Aliás, Lula fala com autoridade de quem foi vítima desses crimes em campanhas eleitorais - o depoimento de Miriam Cordeiro no programa de Collor em 89 é o caso mais emblemático.

O presidente do PT, Ricardo Berzoini, igualmente repudiou o acontecimento, não aceitando denuncismos patrocinados em momentos eleitorais. E o candidato ao governo de SP, Aloízio Mercadante, disse desconhecer as pessoas envolvidas, assim como condenou essas atitudes, que na sua avaliação podem prejudicar sua campanha justamente num momento de crescimento para a ida ao segundo turno contra José Serra.

Ainda sobre a invenção tucana I

Ignorar o fato de que os sanguessugas foram inventados na era tucana de FHC/Serra seria tão absurdo quanto querer revogar a Lei da Gravidade.

Somente em 2001 e 2002, durante a gestão de Serra no Ministério da Saúde, a Planam da famiglia Vedoin firmou 488 convênios com municípios para o fornecimento de ambulâncias superfaturadas.

E ainda foram deixados para Lula 124 convênios no orçamento preparado por FHC para 2003. Já no início do governo Lula, o direcionamento orçamentário para a Planam foi drasticamente reduzido, e em 2004 restaram apenas 6 convênios. Ao todo, foram 618 convênios investigados pela PF e Ministério Público Federal.

Na ponta municipal da máfia, os municípios governados pelo PSDB foram os que realizaram mais convênios superfaturados: 128 do total, seguidos de perto pelos administrados pelo PFL [107] e pelos governados pelo PMDB, que foram 106. Com quantidade menor de prefeituras conveniadas, estão o PTB com 54, o PP com 35 e o PPS e PL com 23.

Ao todo, a base aliada de FHC abocanhou recursos de 476 convênios de 618 firmados. É, portanto, uma clara evidência da gênese da máfia e do beneficiamento de setores partidários vinculados ao PSDB.

Tsunami Rigotto piorou a educação III

Rigotto não só rebaixa o ensino gaúcho no contexto brasileiro, como causa enormes prejuízos à nossa juventude, comprometendo o acesso dos jovens à educação de qualidade, ao conhecimento e a maiores e melhores oportunidades de trabalho e emprego.

No governo Olívio Dutra [1999 a 2002], a rede pública de ensino era considerada a melhor do país. Isto propiciou o reconhecimento da Unesco, que publicou estudo a esse respeito em 2004 tomando como base o ano de 2002 [Entretanto, na propaganda eleitoral na TV, Rigotto utiliza esta informação de forma oportunista, dizendo tratar-se do período do seu governo].

Com Rigotto, a qualidade do ensino público caiu, apresentando aumento de evasão e repetência, principalmente no ensino fundamental, cuja evasão passou de 3,9% em 2003 para 15,4% em 2004!!

É uma grande contradição do governo Rigotto, que criou o programa Primeira Infância Melhor para cuidar de recém nascidos, mas deixa as crianças com péssima infância na idade de ir para a escola.

Tsunami Rigotto piorou a educação II

No que concerne à posição da rede pública de ensino no contexto nacional, o tsunami Rigotto fez o Rio Grande perder posições. No desempenho no final do ensino fundamental [8ª série], o Estado passou de campeão a sexto lugar, conforme demonstrado no levantamento do MEC-INEP a seguir:

Posição do RS no Brasil
Escolas Públicas estaduais e municipais
SAEB 2001 / 2003 Ajustado e Prova Brasil 2005

Séries

Disciplinas

2001

2003

2005

s séries

Português

Matemática

s séries

Português

Matemática

Fonte: MEC-INEP

Esclarecimentos sobre os quadros desta e da postagem anterior:

- SAEB [SISTEMA NACIONAL DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA]: efetivado desde 1990, é uma pesquisa por amostragem realizada através de um exame bienal de proficiência em Matemática e Língua Portuguesa [leitura], aplicado a alunos de 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e de 3ª série do Ensino Médio.

- PROVA BRASIL [AVALIAÇÃO NACIONAL DO RENDIMENTO ESCOLAR – ANRESC]: realizada pela primeira vez em novembro de 1995, é uma pesquisa realizada através de um exame de proficiência em Matemática e Língua Portuguesa [leitura], aplicada a todos os estudantes de 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental.

Tsunami Rigotto piorou a educação 1

Não é só na economia que o governo Rigotto é um desastre. Também nas áreas sociais os graves efeitos do tsunami Rigotto são muito notados.

A falta de aplicação de recursos de acordo com o que manda a constituição, a desvalorização do funcionalismo e a substituição de programas criados no governo Olívio por projetos fracassados, vêm piorando a qualidade dos serviços públicos e dos indicadores sociais.

É o caso, por exemplo, da rede pública de ensino do Rio Grande do Sul, que sempre teve destaque no país e que foi considerada, por muito tempo, a de melhor qualidade no ranking nacional. Mas, no governo Rigotto, a qualidade do ensino caiu e muito, principalmente quando avaliado em relação às oitavas séries de estudo [última etapa do ensino fundamental], conforme exposto no quadro abaixo:

Médias de Desempenho das Escolas Estaduais RS
[SAEB 2003 Ajustado e Prova Brasil 2005]

Séries

Disciplinas

2003

2005

Variação em pontos

s séries

Português

184,84

181,5

-3,34

Matemática

193,95

188,5

-5,45

s séries

Português

245,58

229,1

-16,48

Matemática

260,74

247,7

-13,04

Fonte: MEC-INEP